[[legacy_image_178030]] Biocombustíveis, plástico verde, medicamentos, fios cirúrgicos, tintas, filtros solares, fibras ópticas e até mesmo fast-food. Esses e diversos outros produtos podem ser produzidos com o uso de algas. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Verdadeiros curingas da natureza, elas se prestam ao desenvolvimento de várias alternativas tecnológicas. Podem, até mesmo, substituir as árvores em cidades muito urbanizadas, com pouco espaço para plantio. Essa nova opção está sendo aplicada na cidade de Belgrado, na Sérvia, e foi batizada de Árvore Líquida – além do oxigênio, ainda contribui para reduzir a poluição atmosférica. PulmãoA proposta se baseia no fato de que as algas, e não as florestas, são os verdadeiros pulmões do mundo, produzindo algo em torno de 60% de todo o oxigênio terrestre. Com isso em mente, os cientistas criaram, em 2017, o primeiro protótipo da árvore líquida – um aquário com microalgas, onde o ar poluído é injetado continuamente. Com a fotossíntese, as algas absorvem o dióxido de carbono (CO2) e liberam oxigênio. Para se ter uma noção, uma árvore líquida, com cerca de 600 litros de água, é capaz de produzir a mesma quantidade de oxigênio que duas árvores de 10 anos ou até 400 m2 de gramado. O custo do equipamento é estimado em R\$ 40 mil a unidade. “Isso não é uma substituição dos parques, mas a compensação para os lugares onde não são possíveis. É a resposta para onde não se pode plantar uma árvore”, diz Ivan Spasojevic, professor da Universidade de Belgrado e autor do projeto. Adubo e energiaO primeiro protótipo foi instalado no ano passado em uma das áreas urbanas mais poluídas de Belgrado. Batizado de LIQUID3, o projeto foi concebido para ser multifuncional. Além da captura de CO2 e da produção contínua de oxigênio puro, o LIQUID3 também gera biomassa de alta qualidade, que pode ser utilizada como adubo para hortas. O equipamento foi concebido com plugs para carregadores de celulares e a energia necessária é fornecida por um painel fotovoltaico. À noite, transforma-se em um painel verde luminoso. A proposta, que recebeu prêmio da União Europeia, está pronta para ser replicada. Como a tecnologia é simples, espera-se oferecê-la sem cobrar pela patente. ConscientizaçãoAlém do ambiente urbano, esses fotobiorreatores (nome técnico do equipamento) podem ser instalados em áreas industriais, pois as algas, diferentemente de muitas espécies de árvores, resistem bem a ambientes inóspitos. Vale lembrar que as cidades são responsáveis por quase 75% do total de emissões de CO2 no mundo, principalmente por meio do tráfego, refrigeração e aquecimento de edificações. “E há um efeito indireto, que é a conscientização que tais equipamentos proporcionam, na medida em que, uma vez no espaço público, chamam a atenção das pessoas, fazendo com que elas reflitam sobre a importância do meio ambiente equilibrado”, observa Spasojevic. Alga no tanqueNo Brasil, diversas pesquisas têm como foco as algas. No Instituto do Mar, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a pesquisadora Elen Aquino Perpetuo coordena um projeto para a produção de bioetanol. “Essas algas podem ser cultivadas com CO2 e luz solar, utilizando água salgada ou salobra em terras não cultiváveis”. As microalgas do experimento foram coletadas em áreas de mangue. “Esse é um ambiente com alto teor de matéria orgânica e também de poluição. E as microalgas são extremamente resistentes e bem adaptáveis a qualquer situação. No laboratório, o modelo funciona muito bem. Agora, o desafio é levar a tecnologia para a produção em larga escala”. Na medicinaNa Universidade Federal do Ceará (UFC), a professora Letícia Veras Costa-Lotufo desenvolve um novo tipo de quimioterápico, usando a alga marinha parda (Sargassum vulgare). “Os quimioterápicos atacam o sistema imunológico, diminuindo as defesas do organismo. Conseguimos reverter esse efeito mantendo ou até melhorando a atividade antitumoral”. Em cobaias, a leucopenia (queda no número de glóbulos brancos provocada pela quimioterapia), foi completamente revertida e a atividade antitumoral chegou a subir cerca de 30%. Enquanto isso, no campus Bauru da Universidade de São Paulo (USP), o grupo coordenado pelo pesquisador Rafael Grande desenvolve uma nova fibra extraída de conchas de caranguejo e alginato, composto encontrado nas algas marinhas. Essa tem grande potencial para fabricação de parafusos cirúrgicos e malhas, tipo tela, para cicatrização de ferimentos e tratamentos. Fibra óptica comestívelUma das microalgas mais conhecidas é o ágar-ágar. Na culinária, é usado para dar maior consistência às sobremesas ou na preparação de gelatinas vegetais. Mas, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), estão virando fibra óptica comestível, biocompatível e biodegradável. Como as tradicionais são feitas de óxido de silício, as fibras ópticas de ágar-ágar podem ser utilizadas no corpo humano – em fototerapia, para imagens de estruturas corporais e até na entrega localizada de medicamentos. Uma vez no corpo, por serem naturais, são completamente absorvidas.