[[legacy_image_203037]] Costumo dizer que não existem problemas e sim desafios. Pode parecer simples semântica, mas não é. Transformar um problema em desafio é como uma provocação e nós, seres humanos, temos a tendência de nos vermos atraídos a superá-los. É dentro dessa visão que surge um novo centro de estudos no País, focado em desenvolver soluções para os resíduos urbanos pós-consumo, transformando desperdício em soluções tecnológicas. Estamos falando em obter energia limpa e em descobrir novos materiais, com a ambição de alterar os padrões de consumo e exercer, na prática, a sustentabilidade. A proposta foi apresentada pelo Centro de Tecnologia de Embalagem (Cetea) e aprovada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), ambos órgãos públicos estaduais. Esse novo Centro recebeu o codinome de Circula, uma referência à economia circular, que busca dissociar a prosperidade econômica e o bem-estar humano do consumo crescente e inconsequente. Hoje, o ato de comprar vai muito além de sua necessidade. Muitos de nós compram por impulso. Há, até mesmo, aqueles que, diante de um dia ruim, encontram nesse ato uma espécie de alívio, que se traduz em um novo sapato, roupa ou qualquer outro produto. Com o Circula, que conta com o apoio de várias empresas, o desafio é a criação dos chamados bioplásticos. Essas resinas, isentas de hidrocarbonetos, são oriundas de fontes renováveis, como milho e cana-de-açúcar. Há quem advogue que eles contribuem para reduzir o plástico, mas, por outro lado, não influenciam na mudança de comportamento – um raciocínio válido, mas não excludente. Hoje, menos de 1% dos produtos e embalagens produzidos no mundo são feitos com bioplásticos. E o Circula representa mais do que a difusão de resinas sustentáveis. Na verdade, ele é (ou deve ser) uma aposta em dias melhores e mais inteligentes, com a sociedade percebendo a armadilha que o consumismo representa e, consciente, aposta e exige novas alternativas. Esse é o maior desafio. Afinal, tecnologia para reaproveitar insumos a partir, por exemplo, de resíduos agrícolas não é só uma tendência mundial, como um mercado bilionário, que uma vez circular, inclui educação ambiental. Por outro lado, biomassa (restos agrícolas) não nos falta. Com ela, além de energia limpa, podemos produzir substâncias renováveis para as indústrias química e farmacêutica, entre outras, permitindo ainda fabricar, por exemplo, embalagens feitas a partir de restos da nossa popular tapioca, pele de tomate, palha de milho, leite, cascas de arroz ou batatas. Nesse processo, estaremos mais próximos da natureza, que em sua prodigiosa capacidade não vê problemas que não possam ser transformados em um bom desafio a ser vencido. Natureza“Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Esse antigo conceito ilustra os princípios que regem a economia circular. Hoje, porém, vivemos a economia linear, em que consumimos matéria-prima e geramos resíduos, poluição e desigualdade. A Economia Circular propõe outro caminho, com o desperdício sendo enfrentado com eficiência e os produtos são criados para a remanufatura, a reforma e a reciclagem, com justiça social. A pesquisaNo Brasil, vários centros de pesquisa já produzem bioplásticos. O custo e as mudanças nas linhas de produção para aceitar a nova substância ainda são obstáculos. Mas o mercado é tão promissor que empresas de outros países já desembarcam aqui. É o caso da chilena BioElements, que se associou à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Espera atingir um faturamento de US\$ 40 milhões, um aumento de mais de 50% em relação a 2021. De acordo com dados do Banco Mundial, o Brasil é o quarto maior produtor de lixo plástico do mundo (atrás apenas de Estados Unidos, China e Índia), com o descarte de quase 80 milhões de toneladas por ano.