[[legacy_image_230727]] Meu pai sempre me disse que tudo que começa em dia de chuva está fadado à sorte. Lembrava disso enquanto fazia minha própria maquiagem e cabelo. Miguel se aprontava em outro cômodo da casa. Combinamos de não nos vermos prontos, mas ele não aguentou e apareceu para mim, escandalosamente bonito, num terno azul. Eu, ao contrário, mantive o segredo do meu vestido salvaguardado. Em nome dessa superstição, havíamos combinado com a Bárbara, minha cunhada-madrinha, que ela e o marido, o Tiago, passariam em casa em carros separados para nos levar à Conservatória. O Miguel iria com ele e eu com ela. A meu ver, uma tarefa aborrecida para o casal de padrinhos do lado do noivo, que moram em outro município, mas nem de longe pareceram se sentir incomodados com ela. Sugeri que viessem alguns minutos antes do horário agendado para o casamento e a Bárbara protestou: — Não! Melhor sairmos daí com pelo menos 45 minutos de antecedência! Na hora combinada, estávamos prontos. Trinta minutos depois: nada. Miguel liga para Bárbara, que responde acelerada: — Já estamos a caminho! Só mais uns minutos! Do quarto onde eu estava, ouvia a ansiedade do Miguel caminhar de um lado para o outro. De repente, a campainha se esgoela. O foguete Bárbara entra pelo quarto, uma fração de segundo depois de eu ouvir a porta da sala abrir. Ela me ajuda a fechar o vestido e diz: — Seu cabelo e sua “maquilhagem” estão muito “fixe”! Vocês brasileiras são demais mesmo! Miguel grita alguma coisa na sala sobre um guarda-chuva e sai na sequência. Eu e a Bárbara saímos minutos depois e, só debaixo da chuva fina no centro do Porto, em frente ao prédio de arquitetura tipicamente portuguesa do início do século 20, considerei que talvez o noivo tivesse dito para que eu trouxesse o guarda-chuva que havia deixado a postos para mim. Mas tomar chuva dá sorte, pensei. Miguel saiu do carro do cunhado e sorriu. Parecia que era a primeira vez que me via. Depois dos elogios, estendeu a mão e caminhou comigo para dentro do prédio. Ao subir as escadarias de mármore, avistamos, já em frente à sala onde a celebração se realizaria, a Karina e o Pedro. Dias antes, quando falei para a Karina que iria me casar, ela ficou eufórica! Desmarcou reuniões de trabalho — as dela e as do marido — para estarem livres para pegar a estrada de Leiria ao Porto. O que ela não sabia é que formaria o par de madrinhas da noiva (escolhi duas mulheres), ao lado da Aliny. Como a notícia do casamento foi muito repentina e eu sei que a vida nem sempre nos permite fazer o que desejamos, decidi segurar esta revelação, pois não queria que ela, que tem uma vida supercorrida, estivesse com mais essa pressão. Se na última hora ela não conseguisse vir, não ficaria com peso na consciência. Quando a vi me esperando, iluminada pela alegria genuína de ver minha felicidade, contei. Ela se emocionou e eu também. Como a Bárbara e o Tiago voaram no caminho até a Conservatória, o atraso dos noivos foi de poucos minutos... o que não contávamos é que a outra madrinha fosse providenciar o verdadeiro atraso de noiva: — Amiga, está tudo bem? — perguntei ao telefone, já preocupada depois de muitos minutos passados da hora. — Sim, mas o GPS diz que faltam 11 minutos para chegar aí — respondeu uma voz beirando o desespero — Me espera? — Claro, amiga.... mas só você para chegar a um casamento mais atrasada do que a noiva! — ri, menos aflita do que ela, que chegou pouco depois, esbaforida. Abraço forte, respiro profundo e risadas... registros da Bel, filha dela, que foi a fotógrafa oficial do evento. Mas o Pedro acabou substituindo a Aliny na assinatura das testemunhas porque, na correria, ela esqueceu os documentos... Mais risos! E com direito exclusivo a um trio de padrinhos para a noiva. Exatamente às 11h11 fomos considerados casados (observação feita pela madrinha e videomaker Karina). Hora em que os sonhos do coração se realizam. A recepção organizada pela Bárbara com a ajuda dos primos do Miguel estava perfeita! O cenário à beira do Douro presenteou meus olhos com imagens inesquecíveis. Como beleza nunca é demais, uma obra de arte em forma de bolo veio pelas mãos da Marlene, tia do Miguel. Também teve vídeo surpresa da minha família, que quase me desidratou pelas lágrimas. Alternavam-se na vigília das horas a chuva fina, a tempestade e o sol luminoso. Era a metáfora perfeita da vida, da minha vida. Não sei se tem a ver com a chuva, mas eu tenho muita sorte, mesmo.