[[legacy_image_251300]] Imagine passar dias no mais inóspito dos ambientes selvagens, ao relento, sob sol ou chuva. Some a isso longos períodos em laboratório, em tediosas análises e, por vezes, frustrantes resultados. A Ciência, feita de relatos como esse, está sofrendo grandes mudanças, com resultados realmente surpreendentes. Isso se deve a uma nova metodologia de pesquisa, viável nos últimos anos, que consiste em capturar amostras de DNA (o código da vida) no ar, na água, em sedimentos ou até mesmo em alguns seres vivos. É o chamado DNA ambiental, que permite identificar um número muito maior de espécies do que os métodos atuais, de forma mais rápida e não invasiva, principalmente em biomas como o oceano. HostilNo mar, um meio hostil à pesquisa, torna-se possível avaliar a presença de criaturas de difícil estudo, como tubarões-baleia, “com resultados sem precedentes”, segundo o professor Jan Strugnell, da Universidade James Cook (Austrália). Pode-se, ainda, detectar espécies à beira da extinção ou criar mapas da distribuição e abundância dos seres, aumentando o controle e permitindo definir melhor os estoques e períodos de defeso. OpçõesAté mesmo as pétalas de uma flor são verdadeiros oásis de DNA, sejam dos insetos que fazem todo o seu ciclo de vida nessas plantas ou daqueles, como as abelhas, que as visitam esporadicamente. De tão bem-sucedido, o método começa a ser empregado até mesmo em centros urbanos. Como a etapa de coleta é simples, pode ser realizada por estudantes ou moradores, envolvendo-os em uma Ciência cidadã. Já a análise dessas amostras precisa ser feita em laboratórios capazes de identificar o DNA. O resultado permite obter uma fotografia inédita da vida, criar mapas da biodiversidade e usá-los comparando diferentes períodos. PrecisãoNesses casos, tanto o crescimento quanto a diminuição na diversidade do DNA podem significar um alerta para as autoridades, inclusive no caso da presença de micro-organismos, como vírus e bactérias, com uma precisão inédita. O mesmo pode ser realizado, por exemplo, em zoológicos e aquários (para atestar a presença de invasores), em gotas de chuva ou nas areias das praias, para buscar a presença de patógenos. Isso “teria um efeito indireto muito grande em termos de como tentaríamos mitigar doenças no futuro”, acredita Jessica Farrell, da Universidade da Flórida, nos Estados Unidos. PreservaçãoNo Brasil, a técnica do DNA ambiental vem proporcionando novas alternativas aos cientistas. Na Amazônia, por exemplo, ela está sendo usada para identificar plantas mais resistentes à seca e preservar espécies em extinção, como o gavião-real, a maior e mais poderosa ave de rapina encontrada no País e entre as maiores espécies existentes no mundo. Em São Paulo, o método começou a ser utilizado há meses, com foco na Mata Atlântica. DestruiçãoO Rio Doce, que por mais de 800 km percorre os estados de Minas Gerais e Espírito Santo, foi muito afetado em 2015 pelo desastre do rompimento de uma barragem de rejeitos de mineração em Mariana (MG). Apesar de ainda contaminado, amostras de DNA ambiental possibilitaram identificar 20 vezes mais espécies em comparação com os métodos tradicionais. O estudo pode ser usado tanto nas ações judiciais quanto para recuperação ambiental. DiversidadeO DNA pode ser coletado por filtros colocados em árvores, estuários, rios ou lagoas. Até mesmo drones, com superfícies adesivas, podem fazer essa coleta, durante o voo sobre áreas de difícil acesso ou parados, na parte superior das árvores. “Monitorar a biodiversidade é uma necessidade para que sejam avaliadas as respostas dos organismos às nossas interferências”, afirma Ricardo Bomfim Machado, da Universidade de Brasília (UnB).