[[legacy_image_171144]] O câncer de pulmão é uma doença estigmatizada. Por acometer principalmente fumantes, recebe um olhar enviesado de grande parte da sociedade. A afirmação é do oncologista torácico Carlos Gil Ferreira, presidente do Instituto Oncoclínicas do Rio de Janeiro, instituição de pesquisa e educação médica continuada. Recentemente, o câncer de pulmão ganhou destaque por conta da cantora Rita Lee, de 74 anos, que anunciou estar curada do tumor que estava tratando havia um ano. Carlos Gil Ferreira fala aqui sobre o tipo de tumor que acometeu Rita e afirma que essa doença deve ser mais divulgada e menos julgada. Poucos sabem, mas é o tipo de câncer com maior mortalidade no mundo. E o fumante, ao contrário do que se imagina, não é um vilão, mas vítima de outra doença – a dependência química. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Há um ano, Rita Lee declarou que havia iniciado tratamento contra um câncer de pulmão. Recentemente, ela disse estar sem nódulos e que poderia estar curada. É possível?O câncer de pulmão é uma doença que precisa de um acompanhamento mais longo para se falar em cura. Mas estar sem sinais é uma boa notícia! E parabéns à Rita Lee por tornar pública a sua batalha! A medicina tem avançado bastante e, hoje, há um arsenal poderoso para o tratamento do câncer, que aliado ao diagnóstico precoce pode elevar bem a chance de sucesso. Quais são as principais causas do câncer de pulmão?Fumar continua sendo o principal fator de risco. A maioria dos pacientes diagnosticados (80%) é ou já foi fumante. Além do tabagismo ativo, a convivência com fumantes e alguns tipos de radiação também são considerados fatores de risco. De um modo geral, pode-se dizer que a saúde pulmonar como um todo está também ligada ao cigarro? O tabagismo pode ter conse-quências graves e relação com muitas outras enfermidades, como vários tipos de câncer, doenças do aparelho respiratório e problemas cardiovasculares. São pessoas que adoecem com uma frequência duas vezes maior do que os não fumantes, além de terem menor resistência física, menos fôlego, pior desempenho nos esportes e até na vida sexual. Vale ressaltar que a dependência da nicotina é uma doença crônica. Mesmo que a pessoa queira parar, em muitos casos só a força de vontade não resolve. Várias vezes, ela passa por desconfortos físicos e psicológicos que podem trazer sofrimento, irritação, mau humor, ansiedade e até incapacidade de sentir prazer. Por isso, é importante não julgar ou desencorajar quem passa pelo problema e buscar ajuda profissional. O fumante precisa de apoio e não de críticas, é isso?Com certeza! A maioria dos fumantes é dependente químico. Precisa de acompanhamento e cuidados. Não é brigando ou criticando que vamos ajudar. E a visão deturpada do fumante resvala nas doenças consequentes do vício. O câncer de pulmão é estigmatizado. Por acometer principalmente fumantes, recebe um olhar enviesado de grande parte da sociedade. Isso, sem dúvida, precisa mudar. Qual é a incidência do câncer de pulmão? A doença é mais frequente em homens ou em mulheres?Ele é o tipo de câncer com maior mortalidade no mundo. Em 2020, só no Brasil, foi responsável por mais de 16 mil mortes. O tumor que Rita está tratando (adenocarcinoma) é o tipo mais comum e, deve-se dizer, se mostra mais frequente em mulheres do que em homens. Enquanto a incidência desse tipo de câncer em homens vem caindo em alguns países, apesar dos números ainda elevados, nas mulheres vem aumentando expressivamente nos últimos anos. Por que isso está acontecendo?Antigamente, as mulheres não fumavam. Nas últimas décadas do século passado, elas adquiriram esse hábito em pé de igualdade ou até mais do que os homens. No entanto, apesar dessa constatação, não há evidências para afirmar que as fumantes são mais propensas a desenvolver o câncer de pulmão. Mas sabemos que elas têm maior tendência de apresentar um tumor de pulmão que acomete não fumantes. O câncer de pulmão possui algumas subdivisões e o adenocarcinoma pode corresponder a até 70% ou 80% dos cânceres de pulmão em mulheres. Estudos mostram que, no mundo, até 50% das mulheres com adenocarcinoma são não fumantes, em comparação com 10% a 15% dos homens não fumantes que desenvolvem esse tipo de tumor. Como prevenir? Há exames que podem ser feitos para diagnosticar precocemente a doença?O câncer de pulmão continua sendo uma enfermidade com prognóstico geralmente ruim, apesar dos avanços ocorridos na última década, principalmente por ser um problema silencioso e, em geral, diagnosticado tardiamente. Os sintomas não costumam aparecer até que a doença esteja em estágio avançado e, mesmo quando os sintomas surgem, muitos pacientes podem confundi-los com outros problemas, como infecções ou efeitos provocados pelo tabagismo de longa data, o que pode, lamentavelmente, retardar o diagnóstico. Medidas proativas, como rastreamento do câncer de pulmão, podem ajudar a diagnosticar o tumor nos estágios iniciais e melhorar os resultados do tratamento. Esse é um método de monitoramento de pacientes que estão razoavelmente bem de saúde, mas têm um risco aumentado de desenvolver câncer de pulmão. Por meio da triagem, os médicos podem identificar o tumor em estágio inicial e começar o tratamento mais cedo para reduzir o número de pessoas que progridem para o estágio final ou morrem. A recomendação é que fumantes – ou o indivíduo que parou há menos de 15 anos de fumar –, quem tem entre 50 e 80 anos, quem consumiu um maço de cigarro por dia durante um ano ou o equivalente a isso, enfim, essas pessoas devem fazer anualmente uma tomografia computadorizada de tórax com baixa dose de radiação. A maioria dos pacientes diagnosticados com a doença é ou já foi fumante e, por isso, quem é tabagista precisa fazer esse controle anual, de preferência sob supervisão de um pneumologista, cirurgião de tórax ou clínico geral. E, claro, a prevenção é não fumar e manter boa qualidade de vida. E como tratar?A boa notícia é que as pesquisas têm avançado e os tratamentos estão mais eficazes. Quimioterapia e radioterapia podem ser somadas a outras condutas, como a medicina de precisão e a imunoterapia. A primeira identifica alterações genéticas para entender melhor qual é o tipo de câncer e, a partir daí, decidir o melhor tratamento. A segunda adota avançados medicamentos biológicos que estimulam o sistema imunológico a reconhecer e destruir células cancerígenas de forma mais eficaz. Cada caso é um caso, mas o importante é procurar ajuda profissional sem demora se tiver qualquer sintoma.