[[legacy_image_270554]] “Você está uma menina!” A observação veio da amiga de uma amiga, a quem eu não via há muito tempo. Agradeci, entendendo que, no mundo em que vivemos, era um elogio sincero. Um mundo no qual mulheres, depois dos 40 anos, só são consideradas bonitas se parecerem mais jovens do que são. E isso tem me incomodado. Em vez de a gente dar valor ao ar de juventude, por que nós não falamos de bons hábitos? A principal relação que as pessoas fazem ao me julgarem com menos anos do que tenho envolve a minha pele. De fato, a genética da família é boa. Minha avó materna morreu aos 75 anos sem rugas. Minha mãe, aos 72, também tem o rosto lisinho. Mais do que isso: elas me ensinaram a cuidar de mim, de uma maneira holística, desde cedo. Comer sempre muita fruta, verdura e legumes; beber água; não deixar de ir ao médico e fazer exames todo ano, e, sim, usar cosméticos não apenas como fator estético, mas de saúde. Pele ressecada fica mais vulnerável a bactérias e fungos, por exemplo. E esse cuidado é também memória afetiva. Lembro de ver minha avó deslizando o creme Pond’s pelo rosto e pelo pescoço, em movimentos precisos, “sempre para cima”, dizia. Ou de espiar pela fresta da porta do quarto da minha mãe... Ela com uma camisola bonita, em frente ao espelho, passando um hidratante cheiroso nos braços. De vez em quando, eu ganhava umas gotinhas nas mãozinhas para passar nos meus braços. Aos 12 anos, comecei a usar sabonete específico para meu tipo de pele (então com acne) e filtro solar todos os dias. Virou hábito, como escovar os dentes. Não consigo dormir, por mais cansada que esteja, sem lavar, tonificar e hidratar meu rosto. Não saio de casa (e nem fico na frente da luminosidade do computador) sem filtro. Tudo isso, mais exercícios físicos a vida toda, resultou em uma aparência saudável. Uma dieta regrada, por causa de recente questão de saúde, acabou refletindo positivamente esse contexto. Recebi elogios dos novos tempos esses dias: “sua pele parece um filtro do Instagram” e “parece que você coloca uma película de celular no rosto”. Se gosto das observações? Claro. Mas é preciso cuidado com o quanto seguimos reforçando padrões que dizem que beleza é esconder a idade ou ter determinado tipo de corpo ou de traços, mexendo com a autoestima, em especial de meninas e mulheres. A beleza real é diversa. E o que faz cada uma se sentir bela não deveriam ser a opinião dos outros, a publicidade, a mídia e a indústria. Não há cosmético que dê conta da boniteza que vem de quando estamos felizes e realizadas com outros aspectos da nossa vida – como fazer aquela viagem dos sonhos, receber um justo aumento de salário, passar momentos divertidos com amigos e família, celebrar uma conquista pessoal ou profissional, ganhar alta na terapia, estar apaixonada (inclusive por si mesma). Sono e orgasmos em dia ajudam muitíssimo. Dão aquele glow. Bons hábitos, sejam quais forem, são aliados do tempo. Afinal, é sobre qualidade de vida. Enquanto envelhecer é sobre viver plenamente esse tempo. É sobre acessar muito mais do feminino, como nos ensinou Rita Lee: “O envelhecimento para a mulher é muito louco, então a gente fica com poderes, a gente fica mais atenta à sutileza do invisível, do espiritual falando com você (...) Essa coisa do envelhecer é uma outra fase, é uma feitiçaria feminina, assim como a menstruação”. Aos 44 anos, uso toda essa magia a meu favor. Quem sabe seja esse meu segredo: uma poção para gostar da mulher que me tornei.