[[legacy_image_341043]] O remake de Renascer é um sucesso na TV Globo e alguns personagens que orbitam o universo da família Inocêncio vêm ganhando repercussão cada vez maior, especialmente nas redes sociais. Esse é o caso de Kika, a namorada de José Bento (Marcello Melo Jr), um dos filhos de José Inocêncio (Marcos Palmeira). E quem dá vida à advogada Kika é a atriz Juliane Araújo, de 34 anos, que não assistiu à primeira versão, na qual sua personagem foi feita por Claudia Lyra. “Não assisti. Tenho várias surpresas”, disse. O papel foi atualizado e aborda questões como homofobia e feminismo. “Kika tem um discurso muito coerente e importante. É um prazer ser portadora dele”, conta a atriz, que está em outros projetos também, como a série Veronika, a ser exibida no Globoplay, e um filme em que encarnará sua primeira vilã. Há pouco tempo, esteve em uma mostra paralela do Festival de Cannes, na França, com um curta produzido e roteirizado por ela, que gostar de se desafiar. Você já fez várias novelas. Como é gravar um remake? Há alguma diferença? A única diferença é que sabemos com um pouco mais de certeza a trajetória da história e de seus personagens, mas, como estratégia, não assisti à primeira versão da novela e tenho várias surpresas. Sua personagem tem um papel forte, mas justamente no namorado encontra sua fraqueza e também seu contraponto, já que ambos tiveram vidas e privilégios bem distintos. Como tem sido dar vida à Kika? Kika é uma mulher forte, com uma carreira estável e brilhante. Ela tem um discurso muito coerente e importante. É um prazer ser portadora dele. Ela tem uma função importante na trama. Como qualquer personagem complexo, ela tem suas contradições e Bento é uma delas. Seu curta-metragem Travessia esteve em Cannes, um dos maiores festivais de cinema do mundo. Como foi a experiência de ser roteirista, produtora e assistente de direção e ainda ver seu trabalho em Cannes? Foi desafiador estar envolvida em várias frentes do projeto, mas foi a forma que encontrei para materializar um projeto em tempos de pandemia. Travessia foi filmado em 2021. Trabalhamos com uma equipe pequena, mas muito alinhada, composta por pessoas muito talentosas. Aprendi muito com elas. A ideia de estar por trás das câmeras é nova, mas me apaixonei por desenvolver e acompanhar a criação de uma história do início ao fim. Foi uma forma de expressar minha visão de maneira mais abrangente e explorar novas habilidades artísticas. Participamos de uma mostra pequena em Cannes, mas estar lá já foi importantíssimo para o aprendizado e para a trajetória do filme. Foi incrível. Do que se trata o curta-metragem e como nasceu a ideia e a vontade de fazê-lo? Duas pessoas têm suas histórias, dores e questionamentos entrelaçados quando ocupam o mesmo espaço em tempos diferentes. É um filme poético que usa a poesia como linguagem e é filosófico. A ideia veio da vontade de falar sobre questões humanas e atemporais: morte, desconforto, vulnerabilidade. Ele foi filmado durante a pandemia, quando esses temas estavam latentes e o mundo inteiro se via envolvido em uma mesma dor. O streaming abriu mais campo para se produzir e atuar. Como você vê esse momento? O Brasil é o segundo maior consumidor de serviços de streaming no mundo. Era uma questão de tempo até as empresas perceberem que seria importante abrir espaço para produções criadas e produzidas aqui. A pandemia foi o boom disso. Algumas estruturas mudaram, mas acredito ser um início promissor. Os artistas que mais admiro no Brasil e no mundo são os que ocupam mais de uma função: eles são criadores. Acho que isso leva o ator a ampliar, ter outra perspectiva do trabalho e também mostrar mais possibilidades de trabalho e registro. Fico animada com tudo que é desafiador e que engrandece meus sonhos. Em Veronika, como é sua personagem e como foi gravar a série? Renata é uma mulher intensa que tem uma enorme atração pelo poder. Isso, e também a paixão perigosa que sente por Rod (Dério Chagas), a leva a percorrer uma trajetória digna de uma tragédia grega. Foi uma personagem que exigiu de mim um profundo acesso a lugares difíceis, como raiva, ira e ódio. Todo mundo sente todos os tipos de sentimentos, mas, quanto mais amadurecemos, tratamos esses sentimentos com mais consciência. Sabe aquela pequena respiração de um segundo que nos impede de fazer uma grande besteira e leva a recalcular uma rota melhor? Renata nunca ouviu falar dela (risos). A série é incrível e é um projeto importante, político e revolucionário dentro do audiovisual. A maioria das pessoas que trabalhou em Veronika é negra. O elenco foi composto de pessoas de diversas comunidades e favelas do Rio e artistas de vários estados do Brasil, o que dá uma sensação de que há um movimento grandioso acontecendo. Você tem um longa ainda para estrear este ano no qual faz sua primeira vilã. E é uma fantasia? Um gênero ainda pouco explorado no cinema nacional, mas que na literatura é um sucesso. Pode falar mais do filme e da sua personagem? É minha primeira vilã. Já fiz personagens com muitos desvios de caráter, mas vilã mesmo, essa é a primeira, e eu fiquei apaixonada por ela. O filme é lindo, poético e flerta com o fantástico. Não produzimos muitos filmes de realismo fantástico no Brasil. São filmes que ampliam nosso imaginário e mostram a vida por outro paradigma. Adoro assistir a filmes desse gênero e amei fazer. O cinema está aí para discutir a sociedade como ela se apresenta, claro, mas também para propor um mundo para além do que sabemos e vemos.