[[legacy_image_273800]] Há seis anos, Marco Pigossi fez uma verdadeira revolução na sua vida, ao deixar a estabilidade do contrato com a TV Globo (onde já estava há 12 anos), para saciar o desejo de conhecer novas culturas e linguagens artísticas. De lá para cá, trabalhou na Austrália, na Espanha e nos Estados Unidos, onde mora há três anos, em Los Angeles. E tem muito mais por vir. Além da nova temporada da série Cidade Invisível, da Netflix, Marco acaba de lançar Corpolítica, documentário que produziu sobre a representatividade LGBTQIA+ na política, e em breve poderá ser visto em Gen V, spin-off do seriado The Boys, do Prime Video. “Também coproduzi filme que tem a Marisa Tomei no elenco e roteiro do meu namorado (o diretor e dramaturgo italiano Marco Calvani), e acabei de rodar meu primeiro thriller, que deve sair em 2024. Ainda estou em projeto da HBO, de animação do Mauricio de Sousa”, adianta o paulistano de 34 anos. Na entrevista, Marco fala, entre outros assuntos, da “fetichização” sobre ser homossexual, da paixão por moto e das memórias que guarda das cidades de Santos e Guarujá. Você assina a produção do documentário Corpolítica. Como surgiu a ideia para esse projeto?Foi a partir de uma conversa com o Pedro (Henrique França, diretor). Em 2020, ele me ligou e disse que queria investigar o que havia motivado o recorde de candidaturas LGBTQIA+ nas eleições municipais daquele ano. Mas, quando você fala de um documentário sobre esse tema, as portas automaticamente se fecham para qualquer tipo de apoio, patrocínio ou verba. Portanto, foi um filme difícil de produzir, com 100% do financiamento particular. Pretendíamos acompanhar todas as candidaturas LGBTQIA+ pelo Brasil, porém, em função do orçamento, concentramos nos quatro candidatos de São Paulo e Rio de Janeiro, dos quais dois foram eleitos. Acha que a realidade da comunidade LGBTQIA+ tem melhorado?Ainda somos o País que mais mata pessoas LGBTQIA+ no mundo, e contamos com 0,16% de representatividade no Congresso. Está melhorando? Sim, só que o avanço continua pequeno. Pouco a pouco, abrimos caminhos... e a luta nunca acaba. Em paralelo ao filme, procura se engajar de alguma outra forma? É muito louco. Faz dois anos que dei uma entrevista em que falei não só sobre eu ser homossexual como sobre várias outras coisas legais, mas noto que ainda existe uma fetichização da minha saída do armário. Basta ver que a maioria das matérias sobre o Corpolítica tem títulos que associam a minha saída do armário com a decisão de fazer o filme. Eu fico tão frustrado com isso, sabe? Quero falar de representatividade, de projeto de nação e do papel do documentário, só que sinto que existe um muro, do qual não consigo passar, que é essa fetichização que citei. Pretendo me engajar cada vez mais nas questões LGBTQIA+, do ponto de vista artístico, em vez de atuar como um ativista. Meu objetivo é, pela arte, tocar os corações das pessoas. Tenho vontade de contar outras histórias, sempre com essa temática, pois como ator recebo uma atenção que acho legal dividir com vozes que talvez não teriam tanta visibilidade. Tive a oportunidade de entrevistá-lo anos atrás e algo que ficou bem marcante para mim é que você é uma pessoa que gosta de estudar, de se dedicar para valer ao que faz.Eu não acredito muito no ator por acidente. Acho que precisa de muito trabalho, de bastante pesquisa e leitura. Em qualquer área, quanto mais conhecimento a gente absorve, melhor a gente vai ser. Estou sempre tentando me aprimorar. Desde moleque, sou muito curioso, busco saber como as coisas funcionam no geral. E o que despertou a vontade de se testar como produtor? Comecei coproduzindo teatro. Minha primeira experiência nesse sentido foi em 2014 e perdi bastante dinheiro na época. Mas a partir de 2016, com o meu movimento de deixar de trabalhar com carteira assinada por uma empresa - no caso a Globo, onde fiquei por 12 anos -, essa condição de artista independente tornou inevitável que eu produzisse os meus próprios projetos. No início, por mais que tivesse a necessidade de conhecer outras culturas e explorar formatos que vão além do da novela, senti bastante medo, pois os streamings estavam apenas começando e ninguém sabia como o mercado ia ficar. A minha sorte foi que não deu muito tempo de pensar, eu fui indo e as coisas aconteceram de maneira natural. A princípio, logo depois de sair da Globo, fui estudar teatro em Londres (Inglaterra), só que acabei abandonando o curso, porque me chamaram para gravar a série Tidelands, na Austrália. Aí, fui para a Espanha fazer o seriado Alto Mar e, na sequência, rolou um trabalho nos Estados Unidos, onde moro há três anos (em Los Angeles). Qual foi o maior aprendizado ao trabalhar fora do Brasil?Foi uma transformação na minha vida, um 360°, uma expansão de consciência. Geralmente, o que me move é o desafio. Quando entro em um projeto e já sei como fazer aquele trabalho, o meu resultado nunca é bom. Eu sempre busco um pouco da adrenalina de sair da zona de conforto. Tem conseguido se dedicar à sua paixão por moto?Quando saí do Brasil, vendi a minha moto, minha companheira que quase deu a volta na América Latina comigo. Foi um divórcio bem triste (risos). A carreira não está permitindo que me dedique à minha paixão por moto agora. Mas o meu plano é, assim que der, comprar uma e cruzar os Estados Unidos com ela. A última viagem de moto que fiz foi em 2015, com o meu pai, para Machu Picchu (Peru). Você é paulistano. Tem alguma história bacana com a Baixada Santista? Na minha infância e adolescência, eu esperava as sextas-feiras para ir a Guarujá, onde a família tinha uma casa de praia. Era o melhor momento da minha vida. Lembro que, no domingo, batia uma depressão por ter que voltar para São Paulo. (risos) Eu tenho um carinho muito grande pela cidade de Guarujá. Também recordo que, nos meus 15, 16 anos, ia para uma matinê em Santos com a molecada. Era incrível, eu amava. Foi a minha primeira experiência em uma “balada”.