[[legacy_image_239032]] Basta olhar para Luis Lobianco que, na mente, logo aparecem flashes de seus vários trabalhos de sucesso no humor: Porta dos Fundos, Vai Que Cola... Só que, segundo o ator, a comédia nunca foi exatamente a sua prioridade. Na entrevista a seguir, o carioca de 41 anos relembra momentos decisivos na sua trajetória e comenta a agenda intensa: amanhã, volta às novelas em Vai na Fé, nova trama das sete da TV Globo, que se soma a projetos no teatro, no streaming e no cinema. Casado há dez anos com o pianista Lúcio Zandonadi, Lobianco ainda fala da importância do seu posicionamento em causas LGBTQIA+, do seu engajamento político e do quanto valoriza a conexão com a natureza. O que pode adiantar da novela Vai na Fé?Ela fala da fé do brasileiro, em especial das famílias evangélicas, e da cultura genuinamente produzida aqui no País, especificamente o funk. Para se ter ideia, no Rio de Janeiro, as igrejas evangélicas e os movimentos culturais de funk quase se misturam na periferia. Eles realmente fazem parte da rotina das pessoas. O enredo de Vai na Fé começa há 20 anos, no boom do Furacão 2000, quando surgiram músicas que hoje são funks clássicos. Eu interpreto o Vitinho, que forma com a protagonista da trama, a Sol (Sheron Menezzes), e a Bruna (Carla Cristina Cardoso) um grupo que movimenta a cena cultural da periferia e os bailes de funk. Só que, com o tempo, cada um deles segue um caminho diferente: a Bruna passa a vender quentinha, a Sol vira evangélica, se casa e tem uma filha, e o Vitinho se torna empresário de um cantor de pop meio decadente, o Lui Lorenzo (José Loreto). Um dia, esse trio se reencontra e as vidas deles mudam novamente. Como é sua relação com a fé?Eu já experimentei muitas religiões. Quando era adolescente, tinha bastante curiosidade de conhecer doutrinas diferentes; hoje, não sigo nenhuma crença. Entendi que a minha fé deve partir de um lugar mais cotidiano. Percebi que ter fé nas pessoas, no potencial delas, fazer a diferença no dia delas, dar bom dia, ser pontual, realizar um bom trabalho, ser responsável com os relacionamentos... A minha fé está muito nisso. E acho que é algo que, de verdade, transforma o universo. Eu também tenho uma conexão intensa com a natureza. Quando estou no mato, na cachoeira, me sinto ligado a energias invisíveis. Amo bicho, planta, possuo inclusive um sítio. Depois de uma temporada em São Paulo, você está em cartaz no Rio com O Método Grönholm, peça que aborda, de uma forma curiosa e atual, a disputa por uma vaga de emprego. Acha que o espetáculo leva as pessoas a refletirem? O texto gira em torno da seguinte questão: até que ponto você é capaz de chegar para conquistar um trabalho e o que quer? Na história, quatro pessoas estão na reta final da seleção para vaga em uma grande multinacional e são testadas além do limite. Elas chegam a um ponto que não conseguimos imaginar e que, além de degradante, é revelador. No fundo, estamos falando do ser humano atual. Muitas pessoas se mostram capazes de abrir mão de valores que receberam dos pais para passar por cima dos outros e obterem o que desejam. Pode não parecer, mas o espetáculo é uma comédia. Até porque há coisas que a gente só consegue abordar por meio do humor. Senão, fica algo bem pesado. O humor se tornou uma marca sua. Foi uma escolha consciente?Isso aconteceu por acaso. Na realidade, eu nunca escolhi fazer humor. Comecei a me dedicar ao teatro com 12 anos, em uma companhia, e logo depois fui para a escola de artes cênicas. Quando entrei no mercado, fazia todo tipo de espetáculo, pois precisava trabalhar. O fato é que, no humor, sempre fui mais bem acolhido, por existir um senso de coletividade que não encontrava em outras coxias e grupos. Assim, as coisas foram acontecendo, as pessoas passaram a me associar ao humor muito por conta disso e fui me projetando. Devido a essa minha trajetória, entrei no Porta dos Fundos e o meu trabalho ganhou um alcance imenso. Mas tenho bastante receio da ideia de que sou um comediante ou humorista, porque não me vejo desse modo. Gosto de fazer humor junto com outros elementos e gêneros. Eu, por exemplo, não sou o cara da piada, tanto que nunca fiz um show de stand up. Essa não é a minha praia. Prefiro situações que tenham humor e procuro sempre um humor numa via que não seja tão óbvia e fácil. Tem outros projetos em vista?Pretendo no meio do ano voltar com a peça O Método Grönholm para São Paulo, pois a temporada na Capital foi inesquecível, e também levar a montagem para Portugal – como sempre costumo fazer com meus espetáculos – e para a Espanha. Agora no primeiro semestre, vai estrear Meu Nome é Gal, longa que filmei em 2022 e que mostra o início da carreira da Gal Costa. Ela participou ativamente do projeto e morreu sem vê-lo pronto, porque queria ser impactada pelo trabalho finalizado. Para 2023, ainda vou lançar o filme Primavera, que fiz para a Amazon Prime Video, e gravar a 11ª temporada do Vai Que Cola, do Multishow. Entrei no programa há nove anos para uma participação especial e nunca mais saí. Assim como o Sai de Baixo e A Grande Família, ele virou um fenômeno geracional. No fim do ano, quero fazer algo que não faço tranquilamente há uma década: tirar férias (risos). Considera-se workaholic?Sim, mas o artista brasileiro é quase que obrigado a ser workaholic. Juro que queria poder trabalhar com mais calma. Durante muito tempo, romantizei o discurso do “faço mil coisas simultaneamente e não durmo nem como direito”. Agora, um pouco mais maduro, vejo que isso não é legal nem o ideal. Há bastante a se melhorar no trabalho com arte no Brasil. Mesmo assim, faço tudo com muita alegria, com muita felicidade. Nas redes sociais, você se posiciona sobre política e questões LGBTQIA+. Como lida com essa exposição no momento que vivemos? Eu não sei se é algo da minha personalidade, mas, na minha família e entre meus amigos, as coisas sempre foram muito ditas. E nas redes sociais, não fico ponderando as minhas convicções com medo de afetar a minha imagem. No que se refere especificamente à política, falei com todas as letras que apoio o Lula. Só que tenho consciência de que nada está resolvido; pelo contrário, haverá vários desafios pela frente. Quanto às questões LGBTQIA+, sinto que exerço certa influência, por fazer parte de uma geração de artistas que naturalizam sua presença no mercado, com suas relações etc. Afinal, isso não define a gente e muito menos os papéis que vamos interpretar. No fundo, percebo que meu trabalho – mais do que a minha presença – transforma e traz respostas e retornos. Vou dar um exemplo: fiz o filme Carlinhos e Carlão e recebi centenas de mensagens de jovens dizendo que o longa ajudou as suas famílias a entenderem quem eles são, o que sentem. Isso é o melhor que posso escutar do público. Pelos meus trabalhos, também ganhei da Assembleia Legislativa do Rio o prêmio de personalidade LGBTQIA+ que contribui para a causa.