[[legacy_image_244122]] Christian Malheiros conquista, aos poucos, o seu espaço na concorrida indústria do entretenimento. Nascido no Bairro Caneleira, na Zona Noroeste de Santos, o ator de 23 anos descobriu cedo que queria trilhar o caminho artístico e, como não tinha dinheiro para fazer cursos profissionalizantes, frequentou várias oficinas gratuitas oferecidas na região, além de participar de grupos de teatro, em busca do máximo de formação. Já no seu primeiro projeto no cinema, o filme Sócrates, recebeu boa avaliação da crítica internacional e, com o trabalho na série Sintonia, da Netflix, atraiu de vez a atenção do público. Agora, está no elenco do longa recém-lançado A Última Festa e, no fim do ano, vai aparecer no filme brasileiro de maior orçamento da Netflix: Biônicos, do diretor santista Afonso Poyart (de Ilha de Ferro, Mais Forte Que o Mundo: A História de José Aldo e Presságios de um Crime). Na entrevista, Christian relembra os primeiros passos em Santos e conta como Selton Mello, Rodrigo Santoro e outros colegas contribuíram para a sua evolução profissional. Você comentou que seu novo longa, A Última Festa, é especial. Por qual motivo?Tenho um carinho muito grande por esse trabalho, porque foi um desafio gigante, a primeira comédia que fiz. Estava mais habituado com projetos dramáticos. Lembro que uma das primeiras coisas que disse para o diretor foi: “Não sei fazer, mas estou disposto a aprender. Onde houver boas histórias quero estar”. Também foi um filme muito intimista para mim, pois, como gira em torno dafestade formatura de um grupo de jovens que se prepara para a faculdade e para as próximas etapas de suas vidas, me remeteu a um momento que não só eu como todas as pessoas experimentam: quando estamos terminando o Ensino Médio e devemos decidir o que fazer com as nossas vidas. Posso dizer que o melhor de mim está nesse trabalho. Me sinto bastante orgulhoso dele. Já tinha claro nessa época, do Ensino Médio, que queria ser ator?Na verdade, a minha relação com as artes cênicas começou quando eu tinha 9 anos. Nasci no Bairro Caneleira, na Zona Noroeste, e passei minha infância lá, antes de eu e a minha mãe irmos morar em Praia Grande e em São Vicente, onde ela está até hoje, na Área Continental. Na Zona Noroeste, por meio de projeto do Governo, participei de atividades extracurriculares ligadas à arte. Fiz teatro e dança de rua, e percebi que queria ser ator. Só que, como a minha mãe não tinha dinheiro para pagar cursos de interpretação, fui atrás de oficinas gratuitas que eram oferecidas em Santos, São Vicente, Praia Grande e Cubatão. Uma das minhas primeiras formações se deu na escola que fica no Teatro Guarany, em Santos. Em paralelo, fiz parte de grupos de teatro da Baixada, principalmente amadores. E para ajudar em casa, ainda fui trabalhar na praia, até que consegui uma oportunidade no Tribunal de Justiça, do qual acabei tendo de sair, porque passei no teste para Sócrates, que foi o meu primeiro filme. Como se tratava de uma produção de baixa renda, eu não imaginava que ia me proporcionar tanta projeção. Foi aí que me questionei: “Será que realmente devo continuar com a interpretação? O que vou fazer com a minha vida?” Estava com quantos anos?Tinha 16 para 17 anos, e decidi me mudar para São Paulo, para tentar a vida no teatro de lá. Sabia que teria que arrumar um emprego para me manter na Capital enquanto continuasse estudando, para, depois, conseguir arranjar algo que fosse realmente na área. Foi uma transição bem difícil. Com o tempo, comecei a ficar meio desiludido, porque as oportunidades não rolavam. Cheguei a trabalhar com alguns grupos de teatro, mas era tudo esporádico e precisava me sustentar. Por causa disso, nem apareci no teste para a série Sintonia, da Netflix, que faço até hoje. Lembro que, na época, ao receber o convite para a seleção, pensei: “Nem vou, não vai rolar mesmo”. Só que a produtora de elenco me conhecia do filme Sócrates e entrou em contato. Ela disse: “Se você não vier, vou te buscar”. Havia uns 80 meninos no teste e foi afunilando até eu ser escolhido. Sintonia me apresentou para o grande público. Sem contar que se trata de um projeto com assinatura do KondZilla, que curiosamente é de Guarujá.Exatamente! Na sequência, o Alexandre (Moratto), diretor do Sócrates, me apresentou seu novo roteiro: 7 Prisioneiros. Fomos para os Estados Unidos e fechamos o filme com a Netflix. Aí, surgiu a oportunidade de o Rodrigo Santoro estar no projeto. Ele pediu o texto para ler e aceitou, o que foi maravilhoso! Para completar, o Rodrigo ia fazer a quinta temporada do seriado Sessão de Terapia, comentou de mim para o Selton (Mello, diretor e ator da produção) e fui chamado para gravar a série. Foi uma experiência complexa, de grande sensibilidade, ainda mais abordando a pandemia. O que planeja daqui para frente?Tenho demais a agradecer. Recebi vários presentes profissionais, trabalhei com muita gente legal. Aprendi bastante com essas pessoas. A arte se mostrou ser uma ferramenta de transformação de vidas. Entendi que não se trata apenas de entretenimento, que, do drama à comédia, o artista pode ter uma função social, e tocar, levar o público à reflexão. Isso é o que mais prezo. Recebi, por exemplo, mensagem de gente que assiste à série Sintonia e diz que, por causa do meu personagem, sente vontade de sair do crime, pois percebeu o fim que aquilo pode ter. Daqui para frente, quero continuar sendo a pecinha que contribui para a transformação de vidas.