[[legacy_image_188934]] Você lutou pelo seu direito de dizer “não”. E conseguiu. Mas ainda precisa aperfeiçoá-lo, porque ele vem, na maior parte das vezes, acompanhado de muitas explicações. Está bem, você já entendeu e está exercitando o processo. Só que qual será a medida desse “não”? Será que, para ser autêntica ou autêntico, precisa realmente ir para o outro extremo e dizer sempre não, ao menor sinal de desconforto? Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Tenho muito receio de, para fugir dos padrões, cair no contrapadrão. A fim de deixar de uma vez por todas o rótulo de “trouxa”, deve-se sair por aí dizendo não a tudo, sem sequer considerar as possibilidades e vantagens do “sim”? Pensar sobre o “sim” também é importante. Principalmente aquele sim que a gente deixa de dizer para a gente mesmo, achando que está dando lição para o outro; o “sim” calado pelo orgulho. Nem sempre ponderar as coisas é fácil, especialmente quando se está num processo de se repensar padrões de comportamento e tudo parece nebuloso. Os limites ainda são um tanto indefinidos e a gente cria a expectativa de que, quando decide algo internamente, todas as respostas para as questões da vida devem ficar super claras diante das circunstâncias. Mas não é isso que acontece. E aí está o risco de irmos ao outro extremo, disparando o “não” sem reflexão prévia, como metralhadora para todos os lados. Já vi uma pessoa próxima que, durante o processo de exercício do não, após um almoço em família, saiu mais cedo e correndo, só para não ter que dar carona a familiares muito próximos, carona essa que em nada lhe faria modificar a rota para a sua própria casa. Era um dia de chuva repentina e entre os familiares próximos estavam crianças. Nesse caso, o “não” — que não chegou a ser dito, mas foi explicitado na atitude — perdeu seu propósito de autorrespeito e ganhou um ar caricato, para não dizer cruel. O familiar que ficou sem carona, após tentar inúmeras vezes pedir um carro de aplicativo, sem sucesso, acabou voltando para casa a pé com as crianças, sob a chuva. A mãe de ambos (de quem foi inflexível no “não” e de quem ficou sob a chuva) ao ver a cena terminou a noite chorando. O almoço que havia reunido a todos era para comemorar o aniversário dela. Um “sim” dito com o coração leve e com a convicção de que se faz o que se acha certo, sem molestar nenhuma parte da nossa dignidade, pode ser sinal de maturidade. Ainda que seja um “sim” a alguém que já nos desapontou algumas vezes, mas que, naquele momento, precisa legitimamente de apoio. Ele não enfraquece o poder do “não”; pelo contrário, valoriza-o ainda mais, porque o salva da banalização. Outro “sim” importante é aquele que nos permite fazer o que desejamos/sonhamos sem pensar demasiadamente no julgamento alheio. Esse se aproxima bastante do “não” sem explicações. Ele nos liberta do desgaste causado pelas fantasias negativas que criamos. É aquele “sim, porque ninguém paga minhas contas!”, e tem a mesma potência do “não, porque não estou a fim”. Não é fácil, obviamente, encontrar esse “caminho do meio” sobre o qual Buda e outros sábios há milênios têm nos falado. Mas tateando entre o valor do nosso “não” e o do nosso “sim”, vamos tentando acolher e equilibrar o caos dentro e fora de nós, e nessa medida, nos tornamos mais preparados para o mundo. E essa busca pelo equilíbrio talvez não tenha fim, porque é justamente ela que nos permite seguir constantemente (des)construindo a nós mesmos e, consequentemente, todo o universo ao nosso redor.