[[legacy_image_244169]] “Como nunca mais?”. Incrédula, eu olhava para a médica, enquanto ela me olhava de volta com cara de “acostume-se”. O nunca mais era para bebidas alcóolicas. Não que fosse minha praia bebericar todos os dias ou encher a cara de fim de semana. Nunca fui de beber muito. Mas uns drinques com as amigas vez por outra e taças de vinho para embalar momentos prazerosos (acompanhada ou não) me agradavam. O choque não era pelo adeus forçado ao álcool. Era porque, a partir dali, existia algo em minha vida proibido se eu quisesse continuar saudável. Foi nesse mesmo dia que a médica definiu, depois de 13 exames, o diagnóstico que me acompanhará para sempre: insuficiência pancreática. Significa que meu pâncreas não consegue filtrar a gordura dos alimentos e absorver as vitaminas. Para isso, tenho que tomar oito cápsulas de um medicamento diariamente e fazer uma dieta rígida. Além do álcool (em definitivo), preciso evitar por um bom tempo, mas um bom tempo mesmo, sorvetes, chocolates, bolos, doces, frituras, produtos industrializados e até coisas que julgamos excelentes para o organismo. Por exemplo, as famosas oleaginosas: castanhas, nozes, amêndoas, avelã… A nutricionista liberou um pouquinho de granola para eu parar de choramingar. Caso não siga a dieta e o medicamento, as principais consequências são cansaço extremo e uma náusea que faz com que me sinta o Tom Hanks em O Náufrago tentando alcançar o Wilson no mar. Esses dois sintomas me assustaram bastante enquanto o diagnóstico não era fechado e o tratamento correto, iniciado. Foi a primeira vez que percebi perda de autonomia. Em que notei meu corpo com limitações. Andar mais devagar se quisesse chegar ao destino. Parar mais tempo para descansar entre atividades. Ter dificuldade de concentração (um golpe para a capacidade de hiperfoco da qual sempre me gabei). Lidar com as limitações exigia uma mudança de estilo de vida. Ao dividir com um amigo o medo de me sentir limitada, ele, sabiamente, disse para eu não me iludir, não. Limitações são nosso caminhar natural, acontecendo a cada segundo em que respiramos. A gente se acostuma a não perceber. Depois dos 40 anos, essas restrições se tornam mais evidentes e crescentes. Mas é parte do prêmio por acordar mais um dia e ainda ter muito para experienciar. Quando também a uma amiga confidenciei sobre a preocupação em perder independência, ela lembrou de uma conversa com a terapeuta em que pontuou as transformações no próprio corpo. Disse que estava, entre namoro e casamento, há 20 anos com o marido. Passou a se perguntar como será que ele ainda a via. Será que notava essas alterações físicas? Como as entendia e recebia? No que a terapeuta devolve: mas em 20 anos o corpo dele também mudou. E, vejam só, minha amiga nunca tinha parado para pensar nisso. Sim, garotas. Nossos corpos se transformam, mas ocorre o mesmo com os deles. O problema é o quanto mudanças e diferenças corporais femininas são ainda tão colocadas de maneira negativa no debate sobre padrões. É preciso cuidado para olhar com gentileza o que insiste em nos moderar. Resignada a uma nova fase, hoje enxergo o lado bom que as limitações, curiosamente, me trouxeram. Ao escrever um diário alimentar, relaciono melhor como as emoções influenciam o desejo de determinados alimentos - e como parte do que considerava gostoso não faz mais nenhuma falta. Minha pele, meu cabelo e minhas unhas estão mais bonitos e fortes. Os resultados na academia são mais fáceis de serem alcançados. Aprendi um outro jeito de cozinhar e que me mantém atenta e curiosa, cheia de descobertas, sobre o que compro no mercado. Nesse perde-se aqui, ganha-se ali, acabei por ampliar minhas possibilidades. E ainda virei a bartender do drinque sem álcool!