[[legacy_image_248172]] “Sabia que eu nasci em um sábado de Carnaval? Minha mãe esperava no quarto para fazer a cesárea e ela falou que dava para ouvir a marchinha do bloco na rua e…” “Sim, lindeza… Você me conta essa história todo ano”, disse sorrindo, achando graça da minha narrativa animada e repetida, enquanto puxava a linha que pregava mais uma lantejoula dourada na camiseta que customizava para mim. “Hot” era a palavra bordada na minha. “Cold”, em paetê prateado, era a palavra bordada na sua. Você também fazia minha maquiagem, com glitter e estrelinhas, olhos marcados. “Tem que marcar esse olho bonito”. Eu puxava com precisão o lápis no contorno da sua boca e colocava purpurina com meu dedo em leves batidinhas. Lá íamos nós. Eu, toda feliz de brincar no bloco, pulando sem parar. Você atrás, com óculos Ray-Ban, resignado, como um guarda-costas, odiando suar. Mas te arrancava, meu querido, umas dancinhas, umas descidas até o chão, muitas risadas. E sempre fiquei atenta à padaria mais próxima do trajeto. Quando o humor de um taurino começa a variar, é hora de parar e pedir aqueles lanches gigantes, com queijo derretendo. A paz e a folia seguiam em frente. Havia contrapartida. Você gostava mesmo era de ver os desfiles na TV. O brilho das fantasias, as plumas, o colorido. Eu chegava por volta das 20 horas na sua casa e era recebida com uma taça de Aperol Spritz. Tirava os sapatos, colocava meu quimono vermelho e dourado. Você já vestia o seu quimono dourado e preto. A gente tomava missoshiro e se acabava em tantas coisas gostosas que aprendi a comer com você. Meu Deus, como a gente comia… Até a hora dos desfiles, nossos assuntos eram infinitos. Invariavelmente, romances dominavam as conversas. “Olha a foto… Acho que agora vai, acho que esse é o cara… Tô apaixonado de verdade. O que você acha, amiga?” Sua capacidade de acreditar no amor me emocionava. Nunca fui capaz de dizer “acho que é cedo demais para você estar tão apaixonado”. Nunca fui capaz de contrariar o brilho despertado por mais uma paixão nos seus olhinhos puxados orientais. “Acho que sim, querido… Gostei da cara desse… Grandes chances de ser o seu boy magia”. A gente se abraçava, você suspirava, eu calculava rapidamente em quantas semanas você estaria chorando. E te abraçava mais forte. Junto com o da minha mãe, ainda é o melhor abraço da minha vida. Já são cinco Carnavais sem você. Era Quarta-Feira de Cinzas, dois dias antes do meu aniversário. Eu acabava de chegar em casa, do aeroporto, direto do Carnaval de Olinda (Pernambuco). A festa que eu sempre quis ir, lembra? Quem sabe se eu não tivesse ido, quem sabe que eu tivesse mantido nossa programação… Seu corpo foi encontrado na mesma hora que eu descia do avião. Latrocínio. É a primeira vez que consigo escrever sobre você desde então. Foram seis meses chorando todos os dias até que o coração vai se conformando. Tenho pensado muito em você, talvez porque passo por um momento peculiar. Talvez porque seja a hora de voltar a reverenciar o Carnaval que a gente amava, cada um de uma maneira, mas sempre amando juntos. Ainda visto meu quimono vermelho e dourado para ver os desfiles. Só aguento os dois primeiros… O sono me vence sem nossas conversas… Completo a taça vermelha que você me deu, que, neste ano, será de água tônica. Vou passar um tempo aqui no terraço, ouvindo U2 e INXS, como a gente fazia, mirando o céu pra te encontrar. Neste ano, vou em um bloco! A Adri vai me ajudar com a maquiagem. Você estará lá. Na pulseira que me deu e que eu continuo usando todos os dias.