[[legacy_image_337892]] Eu voltava do trabalho na noite de sexta-feira, véspera do meu aniversário. Desci as escadas da estação de trem perto de casa, aos pulinhos, como se estivesse fazendo uns 20 anos a menos. Entrei no meu supermercado preferido (com a idade surgem essas coisas de supermercado preferido). Fui direto no corredor de itens para festas. Dois pares de velas. Duas de número quatro, duas de número cinco. Duas douradas, outras duas cor-de-rosa com glitter. Levei as velas até o caixa, segurando contra o peito, com um sorrisinho no rosto. Antes que a atendente perguntasse (talvez ela nem perguntasse), logo expliquei que no dia seguinte seria meu aniversário e eu teria dois bolos e precisava daqueles dois pares de velas. Bem feliz. Ela ficou feliz por mim. Vocês já sabem porque eu já escrevi, mas vou escrever de novo: adoro fazer aniversário. Acabo de completar 45 anos. Tive o privilégio de celebrar com meus pais, meu irmão, minha cunhada, meu sobrinho, meus filhotes de patinhas, amigos de infância, amigos de juventude e amigos que a vida continua me trazendo. Contrario mesmo a ciência que diz que depois de certa idade não se faz mais novos amigos. Sou aquariana e estou nesse mundo para quebrar o protocolo. E recebi por mensagens o carinho de quem me quer bem. Me senti completa. Nada me falta. No almoço, olhei uns instantes a sós, comigo mesma, minha família. No jantar, fiz o mesmo, por alguns minutos em que avistava meus amigos conversando alegremente, inclusive gente que acabara de se conhecer. Se isso não é amor, não sei nem explicar. É muito além do amor romântico. É o verdadeiro amor que cura, que deixa livre para que cada um seja maior e a melhor versão. Que aceita nossos piores dias e nossas mais equivocadas versões colocando na frente de tudo, apesar de tudo, o afeto. E não preciso ouvir ninguém roncando a noite! Claro que é gostosinho dividir a vida. Ter o par da cumplicidade, da troca de olhares profundos, das conversas infinitas. É bom viver o amor que dá trabalho, que exige compartilhar e conciliar. A gente cresce. Mas a gente, sociedade, aprendeu a se relacionar de um jeito muito confuso, em que dominação é considerada prova de compromisso, em que manipulação é sinal de querer perto. Arriscado. Por isso, ando refugiada nos meus amores fraternos. Aos 45 do segundo tempo, amar romanticamente continua sendo um desejo, evidente que sim. Essas são portas que não se devem fechar, não importa em que tempo se está. Mas precisa construir a beleza da sintonia do amor que já me cerca. A essa altura da minha existência, não dá para ser menos. Não dá para ter drama. Não dá para ter dúvida. É para viver porque passa mais rápido do que a gente consegue notar. É preciso criar essas memórias bonitas que dão sentido a cada dia. Com romance ou não, venho criando as minhas. Elas são lindas. E assim, não temo os mais 55 anos de vida que pedi ao soprar minhas velas. O que vier a mais é soma em um oceano que me rodeia de amar. P.S.: Assim como Frejat, eu desejo que você tenha a quem amar e amor para recomeçar mesmo quando estiver bem cansada(o). Eu tenho. Vale ouvir depois de ler aqui o texto essa poesia que é Amor Pra Recomeçar, de 2002 - quando eu ainda achava que amar era excesso e desespero, vejam só. Que bom que a idade vem.