[[legacy_image_196097]] Não me lembro, nas 30 semanas desde que voltei a escrever regularmente em A Tribuna, de um comentário negativo que eu tenha feito sobre um filme. Isso não significa que gosto de tudo, apenas que prefiro escolher, entre as estreias e destaques da semana, o que tem minimamente qualidade para interessar aos leitores. Nesta semana, o caso é bem este: O Agente Oculto, estreia pirotécnica da Netflix, tem mínimas qualidades artísticas e o máximo de ação, explosões e correrias para não dar muito espaço para o público pensar se já não viu aquilo tudo, daquele mesmo jeito, uma centena de vezes em tantos outros filmes. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! A história é bem conhecida e repetida à exaustão. Um agente secreto, que foi recrutado do submundo do crime e é o maioral em seu ramo de atuação, participa de uma missão que dá muito errado, descobre segredos que não deveria e acaba se tornando o alvo de seus antigos aliados. Ele se envolve em um jogo de gato e rato com um psicótico agente contratado por seus inimigos, enquanto é ajudado por uma bela espiã aliada e tenta salvar a filha de seu chefe da morte. Percebeu a fórmula? Mocinho versus bandido (no caso, bandidos), mocinha bonita ajuda o mocinho a salvar alguém do perigo... Claro, O Agente Oculto tem o carisma de Ryan Gosling (que tem sempre a mesma expressão de tédio, não importa o papel que esteja fazendo) e Chris Evans, respectivamente a estrela de La La Land e o Capitão América dos filmes recentes da Marvel. Tem a beleza de Ana de Armas. Traz ainda Billy Bob Thornton e sua cara imutável de cafajeste. Tem humor: o personagem principal se chama Six (o número seis, em inglês) e brinca que o Sete (007) já havia sido pego. Tem explosões, crianças em perigo, herói absolutamente bom contra bandido absolutamente mau. Tem o talento dos irmãos Anthony e Joe Russo, de Vingadores: Ultimato, de criar histórias em que a forma vale muito mais do que o conteúdo. E tem, por fim, US\$ 200 milhões da Netflix perdidos em um mar de clichês e falta de originalidade, o que ilustra bem a atual crise do serviço pioneiro de streaming, que encara razões muito mais profundas do que concorrência ou pirataria. O streaming que sonha em superar os grandes estúdios de Hollywood precisa aprender que, hoje, o que mantém a fidelidade dos assinantes são séries e a expectativa de produções que peguem o espectador pela inteligência, sensibilidade ou criatividade e não blockbusters que, aliás, funcionam muito melhor em tela gigante. Talvez tenha sido esse o problema: assisti ao filme no meu celular enquanto jantava, o que pode ter reforçado seus defeitos. Faça o seguinte, já que a força da propaganda e o hype em cima do título vão fazer com que você assista a ele: veja, pelo menos, na tela da tevê e com um home theather para ajudar a criar o clima. Depois, vá lá no meu Instagram, @gknasredes, e me conte se isso ajudou a tornar o filme mais interessante. Duvido, mas lanço o desafio.