[[legacy_image_332799]] Quem tem mais de 40 anos e é santista certamente se lembra do Banho da Dona Doroteia, por décadas uma das maiores atrações carnavalescas da região. Homens de todas as idades e classes sociais, após invadirem o guarda-roupa da mãe ou da irmã, se vestiam de mulher e desfilavam na Ponta da Praia. Ao final, os participantes, meio homens, meio mulheres, celebravam com um refrescante banho de mar, se despindo assim do vestido, do bigode e da folia mais ousada que tinham coragem de brincar. A festa acabou em razão dos sucessivos episódios de violência. Quase senti isso na pele. Era criança, minha tia me levou para ver “os homens vestidos de mulher” e tomou um tapa na cara de uma Doroteia qualquer que perdeu as estribeiras no bloco, mesmo carregando o vestido da mãe no corpo. Corpo, aliás, é o grande motivo deste movimento que é o mais popular no Brasil. Trazido pelos portugueses no período colonial, o Carnaval se adequou ao jeitinho brasileiro de ser. Ao invés de retirar a carne do prato durante a Quaresma, a data se revelou a maior expressão do corpo e dos prazeres desta carne que tem talento para o desejo e apetite para a alegria. Blocos, cordões, bailes, escolas de samba, retratos de um povo que gosta de ser feliz. Lembro-me dos vibrantes ensaios da União Imperial nos anos 90. O morro ao fundo parecia que sambava junto ao som do repique, quando todo mundo era igual. Já nos Mares do Sul, baile icônico no Ilha Porchat Clube, uma classe privilegiada se reunia enquanto a TV Bandeirantes realizava a transmissão ao vivo, com comando do Bolinha, então apresentador da emissora. Sonho de consumo de muita gente, um desfile de famosos que poucos podiam pagar. O Carnaval já foi tão importante que Santos chegou a ocupar o segundo lugar no ranking nacional das celebrações, atrás apenas do Rio de Janeiro. Começamos cedo. Em 1858, a Sociedade Carnavalesca Santista criou o primeiro baile carnavalesco para dar um basta às tradições portuguesas do entrudo, quando ser folião significava jogar água, farinha entre outras coisas nos outros. E agora, qual bloco toca por aqui? As coisas mudaram, mas a folia ainda permanece na alma santista. O desfile das escolas de samba deixou a avenida da praia e encontrou abrigo na Zona Noroeste. Os blocos de Carnaval se transformaram em Carnacentro e Carnabonde, trazendo vida à parte histórica da cidade com música, enroscos só de serpentina e adereços de muita festa. Os clubes que restaram ensaiam bailes mais contidos, porém as matinês estão lá, firmes em trazer fantasia à chuva de confete da garotada. Fico pensando ainda na Dona Doroteia. O que ela pensaria do Carnaval de Santos? Nos dias de hoje, poderia, aliás, ser considerada uma foliã transgênero, meio homem, meio mulher, um ser híbrido em busca apenas de celebração e de um banho de mar para se lavar das amarras do preconceito. Será que a Dona Doroteia abandonaria o mar para cair na folia do Centro Histórico da cidade? Renunciaria à simplicidade das ruas para o baile do Mares do Sul do século 21? Com toda sua diversidade, desligaria o batuque das marchas de Carnaval para rebolar como Anitta ou dançar o Macetando com Ivete Sangalo? Ou se encontraria mesmo nos hits da Pabllo Vittar? Neste encontro moderno entre marchinha, samba, pop e axé, desejo que a colombina encontre o arlequim e faça com que a maior festa do país realize seu propósito: festejar o corpo e a alma, em todos os sentidos. Mesmo que a Doroteia não seja mais convidada.