[[legacy_image_232522]] É hoje. O dia em que, teoricamente, passamos em paz, em família. Começou ontem, na véspera, durante uma ceia em que, na teoria, compartilhamos comida gostosa e bons sentimentos. Teoricamente. Porque Natal não é sempre sinônimo de momentos felizes. Nem todo mundo tem uma mesa farta, que dirá presentes para trocar. Nem todo mundo se sente acolhido pela reunião com seus iguais, que dirá viver um clima de harmonia. Para muita gente, mesmo que não todo mundo, é a data da falta, da saudade, do conflito. Mais conflito. Em tempos em que estamos cheios de razão, seja pelo que for, uma celebração cujo significado é renovação e esperança foi tomada por enfrentamentos, picuinhas, impaciências, comparações. Um sem-fim de reações que tem tudo a ver com emoções mal resolvidas. Ainda dá tempo de sair desse medo que se reveste de arrogância e, com sinceridade, perguntar a si: qual a parte que me cabe? A parte que me cabe para alimentar ainda mais uma discussão. A parte que me cabe para diluir uma tensão. Não será o dia perfeito para ser expressão de tranquilidade e afeto percebendo que algumas verdades a gente pode deixar para lá? Não é fingir que está tudo bem, caso não esteja. Mas aproveitar a ocasião para levantar a bandeira branca e abrir o campo para o outro nos acessar. Respirar fundo e analisar se o que incomoda é mesmo tão importante assim. Dois exercícios simples, mas profundos, podem ajudar: 1. Feche os olhos e imagine a vida sem a pessoa com quem você está rompida ou rompido. Faça de fato uma visualização da despedida, do fim, de quando não mais ela estiver aqui. Qual o tamanho dessa falta? 2. Lembre e escreva em um papel os acontecimentos com essa pessoa que envolveram alegria, amor, admiração, apoio. Quanto essas passagens formaram o que você tem de bom? É hoje o dia que podemos perdoar e pedir perdão. Veja, não é sobre voltar para o que não tem mais volta. Não é sobre insistir no que traz dor. Ninguém deve manter o que faz mal. Mas os tempos cheios de razão também são os tempos do descartável, de objetos a relacionamentos. Modernidade líquida, amor líquido, como profetizou o sociólogo polonês Zygmunt Bauman. O conceito é definido por individualização, egocentrismo e relações sociais mercantilizadas. Uma mistura que leva à solidão, ao isolamento e à exclusão. É perder a capacidade de conviver. Ao nos afastarmos de alguém por incompreensão ou desavença, é preciso nos perguntarmos se não estamos tirando da vida uma parte da própria história. Se o que separa não é a tempestade dentro do copo... É Natal. E a falta e a saudade um dia, naturalmente, vão se instalar nessa data. Não deixe que o conflito as antecipem. Não deixe que o arrependimento venha tarde demais. Pega esse celular. Manda a mensagem, chama por vídeo, telefona. Chega com um panetone ou um vinho na porta. Senta para conversar. Para entender. Ou para ouvir em silêncio. Depois, abraça forte. Desejo a você, hoje, um Natal com significado e um novo ano de saúde, com as conquistas que fazem realmente sentido e falam alto ao coração. Que em 2023 todas as pessoas possam viver com dignidade. Até lá! E meu muito obrigada pela companhia!