[[legacy_image_342785]] … eu não sei nem por onde começar. Pelo aumento de feminicídios? Pelas triplas jornadas de trabalho cumpridas sem real divisão de tarefas? Pelos relacionamentos abusivos? Talvez sobre as críticas constantes a tudo que se refere ao feminino, como corpo, aparência, idade, maternidade, não maternidade, competência, sexualidade, não sexualidade? Nunca está bom nem é suficiente. E do nosso lado sempre tem muita culpa envolvida. Aquela culpa patriarcal carregada por quem foi ensinada a ser boazinha, adequada, encaixável, agradável. Dizer não e botar limites? Coisa de mulher louca. Apesar de tudo, acredito que eu possa começar destacando que esses e outros temas, ao menos, vêm sendo debatidos às claras, derrubando tabus, buscando e alcançando respostas, transformações - e punições quando necessário. Ser mulher em 2024, em muitas partes do mundo, ainda é como ser mulher em 1924. No Brasil, nessa época, ainda não nos era permitido votar. Hoje, somos a maioria do eleitorado no País - mas não ocupamos nem 18% de cadeiras como deputadas federais, por exemplo. Um dado entre tantos que mostra, entre inúmeros e comemoráveis avanços, que nosso teto ainda é fragilmente de vidro. Se passamos, quebra. Não para ultrapassar barreiras. Para os cacos caírem nas nossas feridas abertas e nos afastar. E se você é solteira, separada ou casada, porém sem filhos, minha amiga, nem no mês dedicado às mulheres, com o marco que é #8M, você está blindada da máquina de moer o feminino. Porque criou-se uma mística de que essas mulheres têm sim que dar conta de tudo, ora bolas. Não têm família (!), não têm filho pra criar (!), não há uma casa para cuidar (!!!). É mulher, mas uma mulher com a vida mais fácil, não é mesmo? Menos responsabilidades, certo? Ah, ela que se adapte às necessidades dos demais, pessoalmente e profissionalmente. Enquanto um dos nossos principais discursos é do combate aos estereótipos, estabeleceu-se o estereótipo da solteira egoísta que só quer saber de si mesma ou está cheia de tempo livre. Estereótipo esse reforçado também por outras mulheres. Como se solteiras, separadas sem filhos ou casadas sem filhos não tivessem família por quem olhar e cuidar (como pais, avós, irmãos, tios, sobrinhos, pets). Como se elas não trabalhassem pesado para bancarem sozinhas todos seus compromissos financeiros, sem ter com quem dividir contas. Como se não enfrentassem seus dramas pessoais com a mesma dor que todos os mortais. Em março de 2024, ser a mulher que optou pela autenticidade em suas escolhas ainda tem um preço alto, dependendo do lugar e dos grupos nos quais se está. A ousadia de cuidar da própria vida é vista com desconforto, uma anomalia, em sociedades e espaços que não aguentam lidar com o real. Que estão montados sob aparências. Por mais assustador que seja viver pela metade. Fiquem atentos: além de originais, criamos redes de apoio entre nós mesmas que nos tornam ainda mais fortes, seguras e dispostas a não interpretar para agradar. Temos a chave de casa umas das outras para emergências, somos o contato de emergência da amiga! Levamos, acompanhamos e buscamos em exames e consultas. Não nos deixamos desamparar. Somos família entre nós mesmas também. Entre os meus desejos para este mês de reflexão sobre o feminino, espero que o respeito a todas nós vença as opiniões de quem ainda teme igualdade, equidade e sororidade. P.S.: Não esqueça o que diz Beyoncé em Run The World (Girls): “Nos desrespeitar? Não, eles não irão”. Uma ótima música para ouvir depois de ler o texto e levantar a energia de conquista que a gente tem para abrir caminhos.