[[legacy_image_213452]] “Na vida surgem nós: nos estudos, no relacionamento, no trabalho, no amor, na família, na política. ‘Desdar um nó’ é viver a alegria de criança que descobre o presente ao abrir o embrulho. E, como ela, nós vibramos superando os embrulhos da vida”. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! É assim, citando o verbo “desdar”, criado pela neta Julia, que o médico, ex-padre, professor, ex-vereador e escritor Augusto Zago escreve a orelha de seu mais novo livro, Os Nós de Nós, lançado há duas semanas pela Editora Comunicar. A obra traz poemas que refletem a inquietude desse médico recém-aposentado que, aos 85 anos, busca algo mais para preencher o tempo que sobra depois que resolveu deixar para a esposa, também médica, as rotinas da tradicional clínica santista de endoscopia. “A vida anda, a aposentadoria bateu à porta e apresentou-se. Que farei do tempo? Irei à praia 24 horas? Sentarei num banquinho e ficarei esperando?”, se questiona na introdução do novo livro, fácil de ler, com 164 páginas. Entender esse questionamento faz todo sentido depois de uma conversa com Zago. Nascido na pequena Rondinha, município de Videira (SC), o agora médico aposentado já fez, em 85 anos, o que muitos levariam várias vidas para fazer. Estudou Teologia e foi ordenado padre em 1964, em Iomerê, no oeste catarinense, aos 27 anos, junto com um irmão mais velho. Depois, foi mandado para São Paulo, para fazer recrutamento de vocações para o seminário. Pertencente à Ordem dos Clérigos Regulares Ministros dos Enfermos, também chamados camilianos ou padres camilos, Zago ficou responsável pela assistência aos doentes de lepra no Leprosário São Bento, em Guarulhos, e por cuidar dos doentes com tuberculose, no Mandaqui. Naquela época, os padres tinham um quarto dentro do hospital para dar melhor assistência aos enfermos. Desse contato, veio a tuberculose, em 1967, e foi a partir daí que a sua história começou a mudar. “Eu fui encaminhado para o isolamento em Campos do Jordão e aí comecei a repensar a vida”, conta. Doente, no isolamento, mas animado com os novos conceitos trazidos à Igreja Católica pelo Concílio Vaticano II, Augusto Zago começou a sonhar com a possibilidade de a igreja permitir aos padres a formação de uma família. “Mas para isso, eu precisaria ter uma profissão para sustentá-la”, diz. Como os camilianos, por vocação, já trabalhavam com a saúde, veio a ideia: “Posso ser médico da alma e do corpo”. Sem dinheiro, mas focado em cursar Medicina, o caminho foi dar aulas para jovens carentes no bairro onde morava, o Jaçanã. “Percebi que muitos ali não tinham completado os estudos”. Abriu, então, uma classe para o antigo Madureza, cobrando mensalidades baixas. Assim, ganhava dinheiro para ele próprio fazer cursinho e tentar o vestibular. Passou em Santos, na Faculdade de Ciências Médicas, e integrou a quarta turma do curso que estava apenas começando naqueles idos dos anos 70. Foram seis anos conciliando a rotina da faculdade, a batina de padre (celebrando missas na Igreja Santa Cruz, na Avenida Senador Feijó) e aulas para as turmas dos cursos de Filosofia, Psicologia, Administração de Empresas e Direito. O amor surgiuAos 40 anos, médico formado, Augusto Zago precisou tomar uma das decisões mais difíceis da sua vida. “O amor surgiu e eu precisava decidir”, lembra, referindo-se à colega de classe Zoraide, por quem se apaixonou. “Essa é uma regra que poderia mudar. Foi a igreja que criou”, diz. Todo o processo de desvinculação do sacerdócio foi feito junto aos órgãos do Vaticano, até chegar a dispensa assinada pelo papa. Zago casou-se com Zoraide, de 27. “Casei velho”, brinca. Foram mais de 40 anos construindo sua trajetória como médico e, por duas legislaturas, como vereador pelo PSDB (2001 a 2008) na Câmara de Santos. Papel de abelhaA todos os títulos, profissões, ocupações e atividades mais uma poderia ser acrescentada ao currículo de Augusto Zago: cultivador de orquídeas, um hobby que, hoje, ocupa uma boa parte de seu dia e da sua atenção. Na lateral do confortável apartamento onde mora na orla santista, um verdadeiro orquidário foi montado ao ar livre. Ali, mudas, potes, substâncias e apetrechos fazem passar o tempo, porque, como curioso das plantas, Zago não se contentou em apenas cuidar das espécies. Ele próprio faz as mudas e as maneja para cá e para lá até virarem adultas. “Eu faço o papel de abelha, polinizando as mudas”, brinca Zago, que criou um laboratório a céu aberto, onde ciência e curiosidade fazem as mudas florir em diferentes épocas do ano. A idade brinca com o médico, que acabou de concluir um curso de fotografia e se prepara para lançar mais dois livros. A explicação vem em forma de poesia, como em Vida Que Segue, do livro recém-lançado: “Tempo. Tempo... Inventaram de contá-lo. E quanto mais contam, mais depressa ele passa”.