[[legacy_image_174469]] A primeira reação a um truque de mágica costuma ser espanto, que logo em seguida se transforma em uma imensa vontade de descobrir o segredo, saber como alguém conseguiu enganar o nosso cérebro. Essa arte que ludibria os nossos sentidos é a aposta de grandes centros de pesquisa para aguçar o espírito crítico das pessoas. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! “Ao entender como as pessoas podem ser enganadas, obtemos uma melhor compreensão de como nossas mentes constroem as experiências conscientes”, afirma Matthew Tompkins, da Universidade de Oxford. O professor Wellington Zangari tem opinião semelhante. “Duvidar é fundamental, um poderoso antídoto contra as fake news, o negacionismo e as pseudociências”. Zangari é o coordenador do recém-inaugurado Laboratório do Impossível, da Universidade de São Paulo (USP). “É a arte (ilusionismo) se unindo à ciência (Psicologia), objetivando a crítica”. ParadoxoO interesse é que a busca por esse “antídoto” levou alguns pesquisadores a se tornarem mágicos. Graham Jones, antropólogo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (EUA), passou dois anos em Paris, na França, estudando os mágicos profissionais. “O paradoxo de todos os segredos, incluindo os da magia, é que eles são produzidos através da ocultação de informações. Mas, para que tenham algum valor, elas também precisam ser compartilhadas até certo ponto”, afirma. A magia, adverte Jones, vai além das ilusões. “Há todo um repertório de interações astutas”. Esses detalhes, as suas técnicas e as táticas estão presentes no mundo das fake news. O dissipador utiliza parte de uma informação verdadeira, com valor, para deturpá-la a um ponto em que, como um truque, parece verdadeira. Para isso, ele seleciona grupos e perfis que compartilham valores semelhantes. Penn & TellerMas, se os cientistas foram até os mágicos, o caminho inverso também foi feito. A dupla de ilusionistas norte-americanos Penn & Teller trabalha com neurocientistas da Universidade do Arizona (EUA). Teller diz que os truques revelam as falhas na percepção humana. “Se o público perguntar ‘como diabos ele fez isso?’, então o experimento foi bem-sucedido. Assim, consegui explorar as deficiências da sua mente”. Pensamento lateralTruques de mágica, acreditam os especialistas, podem incentivar as pessoas, inclusive as crianças, a pensar “fora da caixa”, pois envolvem o que os cientistas chamam de pensamento lateral. Responda à seguinte pergunta: Há meses do ano que têm 31 dias, outros apenas 30. Quantos têm 28 dias? Se a resposta em que você pensou foi fevereiro, errou; afinal, todos os meses do ano possuem 28 dias. Essa resposta surge a partir do pensamento lateral, o qual contempla todas as possibilidades e associações existentes, fomentando, desse modo, o nosso raciocínio. (Adaptado de br.psicologia-online.com) Na escolaO professor Richard Wiseman, da Universidade de Hertfordshire (Inglaterra), comprovou que grupos de alunos que aprendem truques de mágica aumentam significativamente a criatividade. Em universidades como Princeton (EUA) e Cambridge (Inglaterra), estudantes já são desafiados a identificar e utilizar conceitos matemáticos para decifrar as artes mágicas. Muitos desses pesquisadores criaram páginas na internet que propõem desafios e aulas utilizando os “segredos” dos profissionais ilusionistas e a sua relação com a ciência. Peter McOwan, da Universidade de Londres, elaborou uma delas (www.mathematicalmagic.com), disponibilizando ainda vídeos ao público no www.youtube.com/user/moremathsgrads, além do www.illusioneering.org. “Talvez, no futuro, a magia fará parte do currículo escolar!”, conclui Wiseman. [[legacy_image_174470]] Uma história misteriosaÉ muito difícil precisar historicamente o surgimento daquilo que poderíamos chamar de um truque de mágica. Certamente, estamos falando de arte que surgiu há milhares de anos, em uma época em que tais conhecimentos conferiam ao seu detentor uma aura sobrenatural – por isso, eram guardados a sete chaves. VíscerasEntre as prováveis origens está a Pérsia (atual Irã), cuja língua muitos consideram como a origem da palavra “magia”. São várias as descrições sobre adivinhações – usando métodos que incluíam desde a análise de vísceras até o voo das aves –, invocações de espíritos, feitiços e contrafeitiços. Mas são raros e ainda duvidosos os primeiros registros de um truque de mágica. Um deles é um papiro de quase 5 mil anos, em que um homem decepa cabeças de animais e, depois, os revive, intactos. Da Índia, textos antigos sugerem técnicas de ilusionismo. Um exemplo clássico, que chegou aos dias atuais, é o Truque da Corda, uma vez considerado a maior ilusão do mundo. Ele envolve um artista desenrolando uma corda e jogando-a no ar. Ela torna-se rígida e vertical, por onde sobe um menino. A corda possuía imperceptíveis bambus em seu interior, mas o efeito causou impacto no público do século 18. CharlatãesHerdamos parte dessa mística, que está inserida no que conhecemos como a mágica do entretenimento – para o bem e para o mal. Charlatães de toda sorte sempre souberam iludir e os meios de comunicação de massa só aumentaram esse alcance. A reação não demorou. Cientistas e mágicos ganharam os holofotes desmascarando todo tipo de enganação – uma aproximação que acabou gerando estudos em áreas como psicologia e neurologia. Padre QuevedoNo Brasil, Oscar González-Quevedo Bruzón, conhecido como Padre Quevedo (1930-2019), foi um dos expoentes nesses embates e seu acervo está disponível no Laboratório do Impossível (interpsi.org/portalaberto). Teólogo e parapsicólogo, Quevedo desmascarou, publicamente, vários trapaceiros e foi enfático na defesa do conhecimento, de si e do mundo. “A incultura e a superstição não se conformam com a normalidade da verdade e preferem a explicação mística”.