[[legacy_image_150812]] Sempre achei que detestava atividade física. Até descobrir que só não havia encontrado, ainda, aquela que cabia a mim; a que se encaixava perfeitamente no rol das coisas prazerosas a se fazer nesta vida. Antes de descobrir a natação, achava que atividade física era sinônimo de sofrimento — em parte reforçada por aquela história do “no pain, no gain” que a gente ouve por aí, repetida como mantra-clichê. Considero uma falácia a crença de que é preciso se sacrificar para conseguir algo bom depois. Uma prisão mental que condiciona nossos momentos de bem-estar a algum pagamento prévio com dor e agonia. Eu acredito que seja possível, sim, encontrar coisas que fazem bem e que dão prazer. Mas, para isso, há uma necessidade essencial de autoaceitação e auto-apreciação. Não consigo vislumbrar uma sensação de plenitude minimamente duradoura se o trabalho de olhar para dentro não tiver, ao menos, iniciado e o exercício de observar e se permitir admirar as coisas boas existentes em si mesmo não estiver constantemente sendo praticado. Isso, de forma nenhuma, pode ser confundido com vaidade exacerbada ou arrogância. No entanto, é bastante comum que muitos de nós busquemos respostas externas (várias vezes traduzidas em imagens e superexposição) a questões que, antes, precisam ser elaboradas internamente. Lembro que, certa vez, no vestiário da academia onde nadava, ouvi de uma pessoa o que o mundo considera “magra” ou “dentro dos padrões”: — Essa sua celulite não vai se curar só com natação, não, viu? Em nenhum momento ela me perguntou como era a minha rotina. Jamais se interessou em saber que eu praticava natação três vezes por semana e treinamento funcional com um amigo personal trainer duas vezes por semana. Ainda assim, por questões relacionadas a um tratamento de saúde, eu tinha acúmulo de gordura em determinadas partes do corpo, o que não me impedia de me sentir saudável, disposta e muito feliz. Não sei qual era a dinâmica da vida daquela pessoa, mas o incômodo se mostrou tão grande que foi impossível para ela manter a frase na boca. Eu, ao contrário, silenciei. Num ímpeto, dei-lhe as costas, deixando minhas celulites, que tanto a incomodavam, ainda mais à mostra. Ela ficou em silêncio também, desconcertada por não encontrar eco. E saiu. É óbvio que nem sempre estou em paz com minha forma física. Mas saber dos meus limites, entendê-los e encontrar maneiras de cuidar com carinho do meu corpo, sem submetê-lo a situações de estresse – que posso evitar –, são grande sacada, que me livra desse tipo de armadilha no caminho. E nisso minha mente tem papel fundamental. Ela é responsável por me lembrar que o meu corpo já está fazendo o melhor que pode há bastante tempo. E mesmo que uma colega de academia, um vizinho, parente ou mesmo o espelho, certos dias, tentem me convencer de que sem dor e violência não vou conseguir resultados, preciso estar atenta ao fato de que essa casa é minha. Quem está de fora e não tem interesse genuíno em entender com alguma profundidade seu histórico, suas estruturas e a atmosfera que a envolve não tem o direito de opinar, nem mesmo a respeito da aparente bagunça que vê de relance através da janela, do lado de fora, ao passar pela calçada. Principalmente se não foi consultado. Eu sei o máximo que posso sobre esse meu abrigo temporário e faço todo o possível para me sentir bem dentro dele. Só tem ingerência em algum dos cômodos quem está disposto a conhecer, de verdade e sem preconceitos, as bases que formam esse espaço único e especial que só eu posso chamar de lar.