A atriz Meryl Streep disse uma vez, em uma entrevista que circula muito pelas redes sociais, que após os 40 recebeu quatro convites para interpretar bruxas. (Reprodução Instagram) Estamos nos preparando para sair. Minha amiga se observa em sua nova minissaia. Girando os pés, se posta em algumas posições em frente ao espelho. De um lado, de outro, de costas. Vira para mim e pergunta: “Será que essa saia não está muito curta para minha idade?” Ela, assim como eu, tem 50 anos. Em nossa geração, ser uma mulher nesta faixa etária não representa mais o que representou para nossas mães, consideradas, em sua época, “coroas”. A minha, por exemplo, lembro-me bem, usava a saia abaixo do joelho. Mas essa preocupação já foi minha e, se você passou dos 40, provavelmente pode ter sido, ou ainda é, sua também. Sabe como isso se chama? Etarismo – ou idadismo ou velhofobia -, o preconceito com a idade que nós mesmos, como sociedade, desenvolvemos. Não pode usar roupa curta, não pode namorar homem mais jovem, não consegue emprego depois de madura, não pode usar cabelos grisalhos se quiser, não pode deixar as rugas aparecerem também. Uma expectativa social foi criada e devemos nos enquadrar. Quantas de nós mulheres já não escondemos a idade por vergonha? E quantas de nós revelamos a idade e ouvimos “Nem parece”, como se 40, 50, 60 em diante configurassem um portfólio corporal a se seguir. As indústrias da moda e da mídia colaboram para esse cenário velhofóbico. Cremes “anti-idade”, mulheres lindas, jovens e perfeitas nas capas das revistas, no protagonismo das novelas, no cinema, cravando a cultura de que o jovem é belo, útil à sociedade e o maduro, o velho, já não ocupa o mesmo lugar de antes, portanto, perde seu valor. Em uma sociedade machista, sexista e patriarcal como a nossa, a mulher madura perde mais ainda: ela se torna invisível. Até em Hollywood, onde muitas atrizes perdem papeis em razão da idade. A atriz Meryl Streep disse uma vez, em uma entrevista que circula muito pelas redes sociais, que após os 40 recebeu quatro convites para interpretar bruxas. Estamos envelhecendo. No Brasil, pela primeira vez, temos mais jovens que velhos. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pessoas com mais de 60 anos passaram a representar 15,6% da população brasileira em 2023, ante 14,8% dos que têm entre 15 e 24 anos. Daqui a 20 anos, a projeção é que os 60+ serão a maior fatia dos brasileiros. A quebra desses tabus etários deve partir de nós e, que bom, já começou. O tema hoje é discutido na TV, por influenciadoras 50+ na internet, ou estudiosas como Fran Winandy, autora do livro Etarismo, Um Novo Nome Para Um Velho Preconceito, e antropóloga Miriam Goldenberg, autora, entre outros títulos sobre o tema, de A Bela Velhice. Desculpem-me a indústria da beleza, mas não quero usar cremes anti-idade, pois tenho orgulho da minha. Os homens com sua masculinidade acentuada, me perdoem também, mas trocar uma de 40 por duas de 20 já virou demodê. Para empresas que duvidam da capacidade dos maduros e trocam pela energia dos jovens, perdem em investir na diversidade dos seus ambientes corporativos, onde diferentes ideias intergeracionais podem levar sua marca justamente aonde mais se deseja: inovação. Envelhecer não é uma escolha, a vida nos coloca nessa jornada, mas amadurecer os conceitos sim, é uma decisão de cada um de nós, inclusive os jovens de hoje que também chegarão lá. E lembre-se sempre da máxima: se envelheceu, é porque não morreu.