[[legacy_image_295765]] Conflitos familiares, excesso de exposição a telas, questões de gênero, bullying, ciberbullying, solidão. Quem vai escutar com empatia os adolescentes e jovens em seus conflitos diários, entender suas angústias e ajudá-los a encontrar as saídas? “Muitas vezes, os pais e as escolas não estão preparados, acham que é mi-mi-mi, que eles não têm do que se queixar”, diz a psicóloga Luciana França, do Instituto Vita Alere, entidade focada na prevenção e na posvenção (cuidado aos sobreviventes em luto) ao suicídio, um tema que preocupa especialistas e desencadeia reflexões no Setembro Amarelo, mês dedicado a campanhas de conscientização sobre esse assunto. Luciana diz que muitos pais não dão conta de lidar com quadros emocionais e psicológicos dos filhos adolescentes porque também não receberam, quando jovens, o encaminhamento adequado para suas próprias angústias e questões. “Alguns se tornaram adultos carregando suas dores, seus dramas e angústias sem tratá-las. Cresceram, mas a dor ficou lá dentro”, avalia. PandemiaBruna Turcílio, chefe do Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil, ligado à Prefeitura de Santos, confirma um aumento de 30% nos atendimentos psicológicos e psiquiátricos entre o público mais jovem com a pandemia. Esse crescimento encontra explicações ligadas ao confinamento prolongado e, em decorrência, da maior exposição dos jovens aos conflitos familiares, perdas de pessoas próximas, situação financeira, violência doméstica. “São sequelas que se potencializaram”, observa. A reclusão no ambiente familiar também fez crescer o tempo de exposição às telas, e não só para as aulas remotas e atividades escolares, mas para o relacionamento social. “As redes sociais desempenharam um papel importante, mas há um lado ruim que agora precisa ser cuidado. O ciberbullying, por exemplo, é uma realidade”, pondera Bruna. O ciberbullying é a situação vexatória a que os adolescentes são submetidos pelos próprios colegas nas redes sociais. “A pessoa fica exposta para a classe toda, para a escola inteira por meio dos grupos de WhatsApp, por exemplo”. As motivações são as mais variadas possíveis: características físicas, desempenho nas notas, sexualidade, comportamento, classe social. BullyingDados de 2021 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que ouviu 188 mil jovens para a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), mostraram um percentual superior a 40% de estudantes adolescentes que admitiram já ter sofrido com a prática de bullying, de provocação e de intimidação. Outro dado preocupante: um em cada cinco jovens brasileiros vítimas de bullying considera que a vida não vale a pena e já pensou em suicídio. “Se levarmos em conta que o Anuário 2023 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicou que 38% das escolas brasileiras registram casos de bullying, a conclusão é de que o bullying é um problema nacional e fator determinante nos suicídios entre jovens”, avalia a advogada Ana Paula Siqueira, especialista em Bullying e Ciberbullying. Ouvir até o silêncio“No dia a dia, quando conversamos com as pessoas, nem sempre estamos atentos para realmente ouvi-las. Muitas vezes, as interrompemos no meio da fala, nos distraímos com outras coisas, abreviamos o diálogo por qualquer motivo. A pessoa se retrai, não fala tudo que queria falar”. A descrição é de Basílio Rocha, voluntário do Centro de Valorização da Vida (CVV), entidade que há 60 anos acolhe, por meio da escuta qualificada, pessoas que precisam apenas falar. E o que é uma escuta qualificada? “É você deixá-la falar tudo que precisa, estar atento, acolher até mesmo o silêncio”, diz Basílio. Por meio da fala e da escuta, defende o CVV, a pessoa estabelece um processo interno de “se ouvir, pensar e processar o que está falando. A resposta para suas questões quase sempre está dentro dela mesma”, explica o voluntário. SentimentosOs adolescentes e jovens também usam o 188 e, em geral, querem falar de seus medos, tristezas, desesperanças, relações com a família, com a escola, conflitos sobre a vida e a razão da existência. Alguns dizem que estão se automutilando, outros não se sentem à vontade em casa para falar sobre sexualidade, conflitos de gênero. “A adolescência traz muitas incertezas, muitas mudanças e dúvidas. É um ser humano querendo entender o mundo e seu papel dentro dele. Eles desejam falar e sentir seus sentimentos acolhidos”, diz Rocha. AnonimatoO CVV funciona em todo o Brasil com o trabalho de 3,5 mil voluntários, que se revezam no atendimento telefônico pelo 188. A ligação é gratuita, e não há identificador de chamada. Ninguém precisa se identificar ou dizer onde mora. No CVV, os voluntários são pessoas comuns, que recebem treinamento intenso antes de começar a atuar. Em outubro, haverá abertura de vagas no curso para novos voluntários. É preciso ter mais de 18 anos. Outras informações estão no site da organização . FamíliaBruna Turcílio, chefe do Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil da Prefeitura de Santos, diz que a família e a escola não devem minimizar os sentimentos e emoções dos adolescentes. “Ainda escuto coisas como ‘não vim antes porque achei que era bobagem’ ou ‘Isso é mi-mi-mi’ ou, ainda, ‘Isso é falta de surra’”, diz. “A forma como a família reage ao comportamento do adolescente faz toda a diferença. É importante ouvir o que ele tem a dizer, ouvir as queixas, os problemas e tentar entender. Muitas vezes, eles só querem falar”. Os três núcleos de atendimento ao público infantojuvenil funcionam de segunda a sexta-feira e são divididos conforme o bairro (veja quadro). Bruna afirma que os pais podem ir sozinhos pedir orientação ou levar o filho. Os jovens também podem ir sozinhos, se quiserem. Luciana França, do Instituto Vita Alere, confirma: “Se os pais não estão preparados, eles também precisam buscar ajuda. As escolas também precisam abrir espaço para esse debate, criar um ambiente em que os alunos se sintam à vontade para falar”. Ela defende que os serviços de emergência de hospitais e prontos-socorros também estejam capacitados para identificar sinais de transtornos emocionais e psiquiátricos quando o paciente é um adolescente. “Não é só medicar, tirar da crise e mandar para casa. É preciso encaminhamento”.