[[legacy_image_96329]] Eu estava com dez ou onze, ou doze, ou poderiam ser oito anos, as idades se sobrepõem e se misturam na memória quando são tão poucas. Nessa época, frequentava a Escola Municipal Olavo Bilac. Certo dia, uma professora comentou com profundo respeito na voz que ele tinha sido um poeta parnasiano. Fiquei impressionado, mal sabia o que fosse poesia, quanto mais parnasiano. A mim, o nome Bilac lembrava Bic, a marca da caneta que já vinha literalmente me depositando nas mãos novas responsabilidades: ao contrário do lápis, o que com ela era escrito jamais se apagaria. A escola ficava — e ainda fica, em sua teimosia de pedra — na esquina da Carvalho de Mendonça com o Canal 1. Eu morava na Rua Teixeira de Freitas, a poucas quadras de distância, em um trajeto que formava um ‘L’ perfeito. Minha mãe percebeu isso e, ao certificar-se que das letras eu já sabia de A a Z, ensaiou-me para cumprir aquele L de frente pra trás e de trás pra frente. Comecei, então, a ir sozinho à escola. E aqui também começa, de fato, esta história. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Estudava à tarde, da uma às cinco. Saía de casa logo após o almoço, enrodilhado nos cheiros do paio do feijão e do sabonete Palmolive que eu trazia de outros banhos. Cabelo úmido penteadinho pro lado, mochila nas costas, “tchau, mãe”, “toma cuidado”, lá ia eu desbravar o mundo. Pela Carvalho de Mendonça, planava pelo frenesi dos passarinhos na gaiola à porta do barbeiro, diante das broas de milho indiferentes na vitrine da padaria na outra quadra, pelo aroma de queijos e salames do laticínio mais adiante, até avistar o carrinho de pipoca do seu José, na esquina da Gonçalves Ledo, última etapa do trajeto épico que me levava à porta do Olavo. Desde o primeiro dia em que fui sozinho à escola, talvez para apaziguar o coração inquieto, minha mãe me enchia os bolsos com moedas, tantas mais quanto menos fosse o seu valor, e naquela época era menor a cada dia, para que comprasse “um lanchinho, um docinho”. Resultado: virei freguês do carrinho do seu José e, como é natural nesses casos, nasceu uma camaradagem entre o menino e o pipoqueiro. Logo fiquei sabendo que seu José era paraibano, tinha três filhos, um deles da minha idade, e que ele achava engraçado o fato de ganhar a vida na porta de uma escola — lugar que nunca frequentou. Um dia, na saída, pedi o saquinho de pipoca do costume, seu José me serviu, tudo como sempre, mas não sei o que aconteceu, de repente me atrapalhei com dinheiro, mochila, comigo mesmo, ainda tão pequeno, incerto dos movimentos. Só sei que o saquinho voou das minhas mãos, criando uma chuva de pipoca pela calçada. Sem dizer palavra, com um sorriso ainda mais largo do que o habitual, seu José me estendeu outro saquinho. Mesmo encabulado, aceitei. Ao chegar em casa, contei para minha mãe o que havia ocorrido. “Amanhã, você leva o dinheiro para ele.” No dia seguinte, fui correndo para a escola. Mas, ao chegar na esquina, o carrinho não estava lá. Nos outros dias, também não. Quando menos esperava, após uma semana, de longe avistei o brilho prateado do carrinho ao sol, no mesmo lugar. Porém, havia algo diferente. Ao me aproximar, notei que seu José estava uns vinte anos mais novo. “Seu José...”, perplexo, estendi o dinheiro. O rapaz me olhou, recolheu as moedas e, ao tentar sorrir, deixou escorrer uma lágrima. Assim, sem palavras, ao sentir que jamais veria seu José de novo, compreendi que o tempo, sendo para nós finito, não passa de uma triste fábrica de saudades.