[[legacy_image_256328]] O Brasil perdeu o seu Menestrel Maldito: aos 84 anos, Juca Chaves morreu “devido a complicações e problemas respiratórios”, segundo informou o Hospital São Rafael, em Salvador, na Bahia – onde escolheu morar, no bairro Itapuã, ao lado da sua eterna musa, Yara. O músico e humorista estava internado há 15 dias. A família pediu para que não fossem divulgados mais detalhes. O corpo foi cremado neste domingo (26). Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Compositor, músico e humorista, Jurandyr Czaczkes Chaves nasceu em 22 de outubro de 1938, no Rio de Janeiro, era filho de pai austríaco e mãe lituana, em uma família de judeus. Juca ficou conhecido como O Menestrel Maldito, apelido que ganhou do poeta Vinicius de Moraes. Formado em música clássica, Juca começou a carreira profissional em 1955, na TV Tupi, em São Paulo, sempre com humor ácido, inteligente e com críticas sociais. Mas a sua primeira modinha foi composta ainda aos 12 anos. Durante a ditadura militar que governou o Brasil entre 1964 e 1985, foi perseguido. Nos anos 70, acabou exilado pelo regime e rumou para Portugal. Em um show no Teatro Tivoli, no Porto, irritou as autoridades portuguesas ao satirizar o ditador António de Oliveira Salazar. Resultado: novo exílio, desta vez na Itália. Juca Chaves é autor de músicas que se tornaram sucesso – algumas clássicas –, como Menina, Que Saudade e Presidente Bossa Nova, em uma referência a Juscelino Kubitschek. Já A Cúmplice foi feita para a ex-bailarina e modelo Yara Chaves, com quem era casado desde 1975. Juca costumava dizer que se apaixonou por ela “antes de existir amor à primeira vista”, como lembrou o colunista do site UOL, Ricardo Feltrin, amigo da família. Juca deixa duas filhas: Maria Morena e Maria Clara. Torcedor do São Paulo, chegou a gravar uma marchinha para o time do coração. Candidato O músico foi candidato ao Senado pela Bahia em 2006 pelo PSDC e usou da poesia e do humor para pedir votos. Ele não foi eleito, mas a campanha de versos marcantes divertiu os baianos na época: “Desta vez baiana gente, baiano de toda cor, o seu voto inteligente com justiça com amor, não será voto comprado, se tivermos no Senado, Juca Chaves senador”. Em 2015, Juca voltou a ganhar destaque com uma sátira que falava sobre a situação política do Brasil e defendia a Operação Lava Jato. Com 60 anos de carreira, diversos bordões e sucessos, Juca lotou teatros por todo Brasil divertindo plateias. Antes das apresentações costumava convocar o público com uma de suas frases célebres: “Vá ao meu show e ajude o Juquinha a comprar o seu caviar”. Comentário Como bom (?) menino nos anos 80, cresci vendo, e sobretudo ouvindo, Costinha, Ary Toledo e Juca Chaves. Fosse O Peru da Festa (Costinha) ou Ninguém Segura Esse Nariz, do próprio Juca, assim que um disco desses caía nas mãos de algum garoto, na semana seguinte já corria solto o contrabando de cassetes piratas no pátio da escola,em uma época em que o único temor da molecada eram os carrancudos inspetores de alunos. Certa vez, nos escambos dos intervalos, em que drops Dulcora e chicletes Bubbaloo tinham peso de ouro, caiu-me nas mãos uma dessas fitas. Era o último dia de aula, dei as costas a todo mundo, sumi com a fita na casa de veraneio no Litoral Sul. Entre espasmos de riso, até esqueci da praia naquelas férias tão solares. O vizinho, conhecido da família, ouviu por trás do muro as gargalhadas e alegrias e quis saber o que acontecia. “É o Juca Chaves”. “Ele é muito inteligente, uma sumidade”, sentenciou. “Me empresta?” Pego de surpresa, do alto de meus 13 anos incompletos, ainda tentei contornar: “Tem certeza?” Ele tinha. Levou a fita. Quinze minutos depois, retornou, meio encabulado. “Obrigado, viu?” “De nada!” Por certo, ficou horrorizado com os palavrões cirúrgicos, ignorando a crítica social ferina em ironias à “elite” brasileira, que em tempos pré-Disney World, ainda era afeita a Paris e Nova Iorque, como se ouve em Take Me Back To Piauí: “Adeus, Paris tropical/ Adeus, Brigitte Bardot/O champanhe me fez mal/Caviar já me enjoou/Simonal que estava certo, na razão do Patropi/Eu também que sou esperto/Vou viver no Piauí”. É certo que a régua do tempo vai apontando novas medidas. Hoje, algumas piadas e ironias da época são – e devem ser – execráveis e até criminosas. Como tudo e todos, somos frutos de cada tempo, agraciados com a capacidade de evoluir e modificar conceitos e visões, em uma tentativa perene de estender a humanidade a todos os seres humanos que caminham pela Terra. O vizinho tinha razão, Juca Chaves era muito inteligente, por certo teria revisto ou extirpado do repertório algumas “gags” que se tornaram inconcebíveis ao mundo sem preconceitos a que se anseia. Por outro lado, ainda carrega um triste frescor em algumas composições, como a valsa O Brasil Já Vai à Guerra, que critica a compra, em 1956, do que viria a ser o Minas Gerais, porta-aviões sucateado da marinha britânica. O preço pago foi de R\$ 71,7 bilhões, em valores atuais. “O Brasil já vai à guerra/Comprou porta-aviões/Um viva pra Inglaterra/De 82 bilhões/Mas que ladrões”. Juca se foi, mas as irregularidades continuam. Eis, pois, uma razão para que permaneça vivo. Que seja Juca, então, a nos brindar com outra taça de atualidades, em mais versos da canção: “Enquanto uns idiotas/Aplaudem a medida/ O povo sem comida/ Escuta só lorotas/ Dos patriotas".