“Para que o uso da IA seja benéfica, dependeremos da nossa capacidade de proteger as nossas necessidades", alerta especialista (Pixabay) Área da ciência da computação dedicada a criar sistemas para realizar tarefas que normalmente exigiriam o conhecimento humano, a Inteligência Artificial (IA) está mais perto do que se imagina, tanto dentro quanto fora de casa. O ato de entrar na cozinha e a vontade de preparar algo diferente para comer é um deles, lembra o engenheiro e professor da Unisanta no curso de Sistemas de Informação e Análise e Desenvolvimento de Sistemas, Luis Fernando Bueno Mauá. “Abro minha geladeira, vejo o que tem disponível e peço para a Inteligência Artificial me sugerir receitas. Às vezes digo: ‘IA, me dá 10 receitas usando frango, batata e legumes, tudo feito na airfryer’. Em segundos, ela me dá uma lista com passo a passo. Tenho até um quadro de temperos personalizado, criado com ajuda de IA – usei um comando (chamado de prompt) e ela gerou uma imagem decorativa com os nomes e imagens dos temperos. Fica lindo e útil na parede da cozinha”, detalha. Antes disso, a dúvida sobre se uma fruta está madura ou verde, durante a ida à feira ou ao supermercado, também pode ser resolvida pela IA. “Simplesmente tiro uma foto com o celular e pergunto para a IA. Ela analisa a imagem e responde: ‘Esta manga está madura e pronta para o consumo’. Ou ‘Esta banana ainda está verde, espere mais uns dias’. Parece mágica, mas é tecnologia”, conta. O momento de ouvir música ou assistir filmes em casa também passam diretamente pela IA. “Quando o Spotify ou a Netflix recomendam uma série ou uma playlist personalizada, é a IA que analisou seus gostos e sugeriu aquilo que provavelmente você vai gostar”, lembra Mauá. Os aplicativos de transporte, como Uber e 99, usam a Inteligência Artificial para calcular rotas, prever tempo de chegada e até sugerir ponto de embarque mais seguros. Na saúde, relógios inteligentes se valem do mesmo recurso para monitorar batimentos cardíacos, qualidade do sono e até sugerem quando você deve levantar ou tomar água. ASSISTENTES VIRTUAIS Tudo isso desemboca nos cada vez mais populares assistentes virtuais, como Alexa (Amazon), Google Assistente e Siri (Apple). “Quando você diz ‘ligue a luz da sala’ ou ‘que horas vai chover hoje?’, a IA interpreta sua voz, entende o comando e responde. Esses são só alguns exemplos. A Inteligência Artificial já está tão presente que, em breve, será tão comum quanto ter eletricidade ou internet em casa”, sentencia o engenheiro e professor. O futuro da IA EDUCAÇÃO A IA vai ajudar professores a personalizar o ensino para cada aluno. Um estudante com dificuldades em matemática, por exemplo, poderá receber atividades adaptadas ao seu ritmo. Professores terão apoio na correção de provas, na criação de conteúdo e no acompanhamento do progresso dos alunos. SAÚDE A IA já é usada para analisar exames, prever doenças e apoiar diagnósticos. Em breve, poderá prever infartos antes que eles aconteçam, ajudar no tratamento personalizado de câncer e até ser usada em cirurgias com maior precisão. AGRICULTURA Com IA, os produtores rurais poderão prever o melhor momento de plantar e colher, identificar pragas rapidamente por imagem e economizar água e fertilizantes. A tecnologia tornará o campo mais produtivo e sustentável. JUSTIÇA E DIREITO Advogados e juízes poderão usar IA para analisar milhares de processos em segundos, encontrar jurisprudências e até prever desfechos jurídicos com base em dados anteriores. SEGURANÇA PÚBLICA A IA pode ser usada para identificar padrões de crimes, prever áreas de maior risco, analisar imagens de câmeras e ajudar na prevenção de incidentes. COMÉRCIO E ATENDIMENTO AO CLIENTE A IA já está ajudando a criar assistentes virtuais que respondem perguntas, ajudam em compras online e até fazem recomendações personalizadas. No futuro, isso será ainda mais natural e eficiente, como conversar com uma pessoa real. MEIO AMBIENTE A IA será essencial para monitorar desmatamento, prever desastres naturais, otimizar o uso de energia e apoiar projetos de preservação. DESAFIOS Ao mesmo tempo em que existem os benefícios trazidos pela Inteligência Artificial, existem os desafios a serem superados, afirma o também professor na Unisanta nos cursos de Sistemas de Informação e Análise e Desenvolvimento de Sistemas, Luiz Antonio Ferraro Mathias. E acontecem em vários aspectos. “A automação, impulsionada pela IA, pode levar ao desemprego e ao deslocamento de trabalhadores, especialmente em setores onde as tarefas repetitivas são comuns”, observa. A capacidade da IA de analisar e utilizar grandes quantidades de dados pessoais levanta grandes preocupações sobre privacidade e consentimento, aponta Mathias. “Os sistemas de IA podem perpetuar ou até mesmo amplificar tendências existentes se os dados usados para treiná-las não forem cuidadosamente curados. E a IA pode ser usada para fins nefastos, como criação de desinformação avançada (deepfakes), ciberataques automatizados, e vigilância invasiva”, alerta. APRENDIZADO E EFEITOS Alexandre Thomaz Vieira, com doutorado em Educação e com gestão escolar no currículo, reflete sobre outro risco: o aumento gradual da dependência cognitiva e a perda da possibilidade do desenvolvimento das estruturas de pensamentos mais sofisticadas. “A utilização da IA generativa (capaz, por exemplo, de criar textos, imagens, músicas e vídeos) cada vez mais cedo e de forma integrada nas ferramentas de busca e pesquisa irá aumentar a dependência na utilização dessas ferramenta de 'suporte ao pensamento', aumentando o risco do subdesenvolvimento cognitivo dos seres humanos”, analisa o também mantenedor do Colégio Jean Piaget, em Santos. Os efeitos, segundo Vieira, podem ser comparados ao impacto gerado pelo uso elevado de celulares por crianças e adolescentes: redução da capacidade de concentração, a dificuldade do desenvolvimento socioemocional, aumento dos casos de ansiedade e dificuldade de lidar com frustrações. “Para que o uso da IA seja benéfica, dependeremos da nossa capacidade de proteger as nossas necessidades e etapas do desenvolvimento cognitivo, emocional e físico; da ampliação do acesso para todos os países e faixas sociais; como da aplicação crítica dessas novas tecnologias na melhoria da sociedade e da valorização dos indivíduos”, projeta. PAÍSES NA FRENTE Estados Unidos, China, Alemanha e França são os líderes mundiais no desenvolvimento de Inteligência Artificial, aponta o engenheiro e professor da Unisanta no curso de Sistemas de Informação e Análise e Desenvolvimento de Sistemas, Luis Fernando Bueno Mauá. Os Estados Unidos possuem o maior polo de empresas de tecnologia que desenvolvem IA, como Google, Microsoft, Amazon, Meta (Facebook) e OpenAI (criadora do ChatGPT). “Eles investem bilhões em pesquisa, têm universidades renomadas como o MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e Stanford, e estão constantemente criando novas soluções”, detalha o professor. A China corre lado a lado com os norte-americanos. Com apoio do governo e investimentos pesados, empresas chinesas como Baidu, Alibaba e Tencent têm desenvolvido sistemas avançados de reconhecimento facial, tradutores automáticos e robôs inteligentes. “A China também tem acesso a uma grande quantidade de dados da sua população, o que ajuda no treinamento de sistemas de IA”, acrescenta Mauá. Já Alemanha e França estão se destacando com foco em ética, transparência e segurança no uso da IA. “O continente europeu quer garantir que o uso dessa tecnologia respeite os direitos das pessoas”, afirma. AVANÇO E POTENCIAL Mauá lembra que o Brasil está avançando no que diz respeito à Inteligência Artificial, mas ainda está em um patamar intermediário. “Já temos centros de pesquisa importantes, startups que criam soluções com IA, e universidades que oferecem cursos de especialização. O Governo lançou a Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial, tentando criar diretrizes para o desenvolvimento ético e responsável dessa tecnologia no País”, explica. O Brasil, porém, ainda enfrenta vários desafios para progredir, segundo o engenheiro e professor. “Falta de investimento em grande escala, pouca formação de profissionais na área, diferenças regionais no acesso à tecnologia. Apesar disso, o Brasil tem um enorme potencial”, lista.