Composta por pessoas nascidas entre 1997 e 2012, a Geração Z é mais questionadora (Unsplash) Composta por pessoas nascidas entre 1997 e 2012, a Geração Z é mais questionadora. E isso se aplica também à fé e à religião, analisa a psicóloga Elaine Santa Maria. “Essa geração não aceita usualmente as religiões que pregam radicalismos. Enquanto as anteriores acreditavam em tudo que lhes era imposto, a Geração Z é de mais evidência e ceticismo”, afirma. A psicóloga Chrystina Kato lembra que, a partir de alguns relatos de integrantes dessa geração, eles compreendem a igreja e a religião como promotores de divisões e separações no que se refere aos valores pessoais. “Como, por exemplo, os referentes às escolhas dos parceiros e definição da sexualidade”, completa. A religiosidade, lembra Elaine, é mais inclusiva na visão deles, buscando a sensação de pertencimento. E há outro aspecto ligado aos tempos atuais, embora esteja diretamente relacionado a outras épocas. “Por motivos óbvios, eles têm uma grande influência das redes sociais e facilmente se tornam discípulos de personagens de grande destaque”. Menos tradição e mais justiça social Todos esses motivos, segundo a psicóloga, provocam uma menor adesão por parte dos integrantes da Geração Z a religiões tradicionais. “Há uma busca por uma espiritualidade mais personalizada e que faça sentido a sua identificação”, explica. A valorização da justiça social é um forte apelo à religiosidade na Geração Z, de acordo com Elaine. “Eles veem os indivíduos como um todo que pertencem ao mesmo universo, ao invés de discriminar pelo separatismo religioso”, revela. A psicóloga Chrystina Kato vai nessa linha e aborda elementos históricos para isso. “Os elementos históricos que indicam feitos preconceituosos ao que tange à catequização no Brasil resultaram em abismos sociais, o que confere ao jovem Z, sem uma religiosidade institucionalizada, uma possibilidade de reparar essas lacunas históricas, mostrando que, acima da religião estabelecida, também existe uma mensagem de fé e esperança na humanidade, considerando que, ao se declarar sem religião, este jovem se coloca em um movimento autônomo que busca aquilo que acredita e que pode vivenciar, corrigir e, por fim, modificar”. Aline considera a religião uma proposta de vida; "A igreja é jovem e para o jovem", diz o padre Ediran Nunes (Divulgação) “Igreja é jovem e para o jovem”, afirma padre Administrador paroquial da Igreja São José de Anchieta, no Humaitá, em São Vicente, o padre Ediran Nunes integra a Comissão Diocesana da Juventude desde abril do ano passado. E trata logo de desmentir aquele conceito de que “igreja não é coisa para jovem”. Isso é uma inverdade. A igreja é jovem e para o jovem" “Isso é uma inverdade. A igreja é jovem e para o jovem. A experiência religiosa que o jovem vive é sempre marcante. É verdade que muitos jovens não estão na igreja, que não fazem nenhum tipo de experiência neste campo, mas, os que fazem verdadeiramente, estes não deixam mais a fé”, afirma. “É bem verdade que, em uma sociedade tão diversificada como a nossa, existe uma infinitude de opções e de outras experiências que atraem a juventude até mais que a fé. É por isso que temos em todas as paróquias e regiões de nossa Diocese grupos de jovens, retiros espirituais, eventos de ordem social e espiritual, entre tantas outras iniciativas para que o jovem possa se sentir pertencente à igreja”, acrescenta. O trabalho da Diocese de Santos com a juventude começa com o processo de iniciação cristã, feito nas paróquias e comunidades. “As crianças, depois de batizadas, são preparadas para a Primeira Eucaristia e, depois destes sacramentos, são preparadas para a Crisma, que é o sacramento da maturidade e do compromisso jovem. Além desse caminho que é a base, diversas outras iniciativas são feitas para a inserção do jovem na vida da igreja. Nossa Diocese centenária conta com diversos grupos, pastorais, carismas, movimentos, comunidades, associações e expressões juvenis que são formas de viver a fé dentro do universo católico”, detalha. Uma das principais iniciativas da igreja diocesana como um todo, segundo o padre, tem sido investir na evangelização dos jovens por intermédio deles próprios. “Isso é um incentivo e um testemunho muito maior. É por isso que temos, como já dito, muitos eventos em nível de igreja encabeçados por pastorais da juventude e outros grupos de grande expressão juvenil. O micro também é um fator importante. Em cada paróquia ou comunidade, são formados e realizados diversos trabalhos pastorais, litúrgicos, sociais, dentre outros, envolvendo os jovens. Em muitas realidades nossas, é certo que eles são a força da igreja”. A auxiliar de escritório Aline Pinheiro, de 25 anos, considera a religião uma proposta de vida. Os pais sempre foram católicos e a mãe sempre atuou mais diretamente, como catequista. “Recebíamos a imagem da Mãe Rainha em casa e eu sempre acompanhava minha mãe em todos os lugares, mas isso não impediu que, na adolescência, eu me afastasse da vivência da fé. Embora sempre me considerasse católica, eu não vivia a minha fé”, conta a jovem, nascida em Cubatão, mas que atualmente mora no Embaré, em Santos. Em 2013, Aline recebeu um convite para voltar a ser coroinha na Paróquia São Francisco de Assis, em sua cidade natal. "Em novembro de 2014, tive uma forte experiência com Deus que mudou minha vida por completo. A religião sempre esteve lá, mas eu precisava permitir que ela entrasse. Assim o fiz e o processo continua", revela. A auxiliar de escritório encara a religiosidade com leveza e firmeza. “Deus é bom, mas também é justo. O Céu é, sim, para todos. Todos os que se decidem diariamente a fazer escolhas e tomar decisões em vista dele”, acredita. A religião é carregada em todos os momentos do cotidiano de Aline, tanto no caminho para o emprego quanto nas idas às missas e demais compromissos. Tudo isso é feito de uma forma balanceada com a diversão. “Acredito que sempre que queremos algo de verdade, nos esforçamos e arrumamos um jeito de fazer acontecer e com a fé funciona da mesma forma. Sempre saio para trabalhar de manhã com o terço na mão e vou rezando durante o caminho, mesmo no ônibus, até chegar ao trabalho, que é o tempo exato que levo para terminar o terço. A missa aos domingos e demais solenidades são sempre prioridades. Existem várias Paróquias em nossa Diocese que permitem os mais variados horários para que se possa encaixar na rotina e cumprir o preceito. Mas para tudo tem que haver equilíbrio. O lazer externo é bom e necessário, assim como ter introduzido a fé na rotina ordinária também é”, detalha. Amigos e namorado A grande maioria dos amigos de Aline são católicos, mas há conhecidos dela e integrantes da família que não seguem os mesmos preceitos. “Acredito que as pessoas precisam, de alguma forma, ter contato com algo que lhes dê sentido e lhes impulsione. No meu caso, talvez o único Cristo crucificado e ressuscitado que eles tenham contato, seja através de mim”, comenta. O namorado, no entanto, é católico, um fator inegociável para Aline. Os dois se conheceram na Igreja. “Depois de seis anos solteira, me dedicando à Igreja, era inviável para mim cogitar estar com alguém que tivesse valores e princípios diferentes dos meus, até porque em um relacionamento precisamos caminhar juntos”, argumenta.