[[legacy_image_257778]] Nany People não deixou que as pessoas a limitassem por ser transexual. Com muita coragem e determinação, superou os desafios e resistências (para não dizer os preconceitos) e construiu uma carreira de sucesso como atriz, hostess da noite gay paulistana, produtora cultural e humorista. Nany, aliás, não é o tipo de pessoa que perde uma piada. E rumo a completar 50 anos de teatro, resgata a sua primeira paixão - a música - lançando o EP Nany People en(Canta). “O humorista Patrick Maia, um afilhado meu, montou uma casa alternativa de humor em São Paulo, o Clube do Minhoca, que tem um piano bar num dos andares, com projeto em que convida artistas para cantar lá. O Patrick me chamou e aceitei me apresentar, só que nada que faço fica simples. A performance virou uma live no TikTok, com participação da Luiza Possi, no ano passado. Esse foi o ponto de partida do EP, que é o primeiro da minha carreira e que lancei recentemente em show no Teatro Gazeta, em São Paulo, com participação da Fafá de Belém”. E a agenda de Nany para 2023 promete: em 13 de maio, traz seu show de stand up TsuNany para o Teatro Braz Cubas, em Santos; no mesmo mês, lança o filme Barraco de Família, com Cacau Protasio. Sem falar que tem mais três longas para estrear, é jurada do Caldeirão com Mion, da TV Globo, grava série para um streaming e, em junho, entra no set da 11ª temporada do Vai Que Cola, do Multishow. A seguir, Nany revisita momentos especiais de sua trajetória e comenta o preconceito sofrido pelos transexuais – inclusive, dentro da própria comunidade LGBTQIA+. Você está lançando o EP Nany People en(Canta). O que despertou a vontade de investir na música?Na verdade, a música sempre me inspirou. Foi ela que me levou para o palco e para o teatro, onde construí a minha vida. Quando eu tinha 4 anos, cantei numa quermesse da igreja para ganhar um pacote de doces. Lembro que queria o cartucho rosa, mas meu pai disse que não era cor de menino. A partir daí, a música passou a ser minha companheira, eu cantava o dia inteiro. Quando mudei para Poços de Caldas (Nany nasceu em Machado, Minas Gerais), cantei em um concurso de calouros para ganhar uma bicicleta. A seguir, cantei no Chacrinha para ganhar uma TV. Quatro meses depois, voltei a cantar no programa do Chacrinha e faturei outra TV. Na época, ainda recebi bolsa para estudar iniciação musical em um conservatório de Poços de Caldas. E com 9, 10 anos, comecei a cantar em casamentos nos fins de semana. O meu cachê pagava a conta da padaria. Como acabou indo para o teatro?Um dia, vi crianças entrando no prédio ao lado do conservatório. Fui atrás e me deparei com o palco do teatro. Fiquei encantada. Minha mãe me matriculou num curso de iniciação teatral. Seis meses depois, estreei minha primeira peça. Era 1975, e nunca mais desci do palco. Vou fazer 50 anos de teatro em 2025. Dos 10 aos 20 anos, estudei artes cênicas e me dediquei ao teatro em Poços de Caldas. Mesmo assim, cheguei a cursar Química. Até que, em 1985, mudei para São Paulo, para fazer Artes Cênicas na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Vou abrir um parêntese: o meu presente de 15 anos foi conhecer a cidade de São Paulo e o mar, em Santos, no José Menino. Tenho uma ligação afetiva com Santos. Já fui várias vezes. Artistas LGBTQIA+, como Pabllo Vittar e Gloria Groove, têm se destacado bastante. Você acha que contribuiu para essa abertura de mercado?Não tenho a pretensão de puxar a sardinha para o meu lado, porque, se para muita gente eu sou inspiração, para várias pessoas eu sou transgressão. Ou seja, tudo depende da forma como você é lido pelo outro. Tive pessoas que me inspiraram. Com 14, 15 anos, vi a Rogéria em cena e pensei: “É possível ser assim”. Aí, quando cheguei em São Paulo em 1985, estrelas da noite gay também me inspiraram. Em paralelo ao teatro, trabalhei na noite gay paulistana por 22 anos e fui até estrela de casa hétero. Acho que cada artista tem seu momento e seu veículo. Por mais que a TV tenha tornado a minha imagem pública, o meu grande veículo foi o teatro, construí a minha história nele. Mas acha que, hoje em dia, o mercado e a sociedade estão mais abertos?Sim, porque a vida como um todo evoluiu, não apenas o que se refere à causa LGBTQIA+. Mesmo assim, o preconceito sempre vai existir. Algumas pessoas apenas passam um “verniz” em cima dele. Sem contar que está na moda dizer que se tem um amigo ou amiga gay. Quer ver se esse simpatizante é legal de verdade? Descubra como seria se ele tivesse um filho ou parente homossexual. Hoje, esse tipo de assunto é discutido. E a internet facilita o processo. Quando eu era pequena, não podia nem mostrar a minha natureza. Imagina como foi barra para a minha mãe ter um filho transexual. Na escola, em Poços de Caldas, eu não podia ir para o recreio, senão passava pelo corredor polonês. A minha mãe foi chamada pela diretora e a peitou, dizendo que eu não era um “problema” como alegavam. Porém, acho que seria pretensiosa se falasse que abri caminho para outros artistas LGBTQIA+. Por quê?Eu só sou uma sobrevivente, pois a média de vida de uma trans no Brasil não passa de 35 anos. Se você é gay e se veste e se porta como homem, é mais aceitável. Agora, ser trans é complicado até para você se impor no meio gay. Porque o gay não suporta bicha pintosa, que não aguenta travesti, que não gosta de sapatão. Você tem que ser bonita, jovem e não falar miando. Me chamou a atenção a forma como você se define no Instagram: a mulher que se autofez.Um amigo professor disse que levei ao pé da letra a frase da (escritora e filósofa) Simone de Beauvoir de que você não nasce mulher e, sim, torna-se. Coragem sempre tive. Isso tem a ver, inclusive, com a minha personagem favorita: a Cinderela. Eu a tatuei nas costas e possuo uma coleção de bonecas dela. Eu me autofiz onde não era possível ser quem eu sou. As pessoas costumam minimizar a história alheia. Muita gente me vê na novela, na TV e acha que sou fruto do Kinder Ovo, que saí do ovo cantando I Will Survive. Para você ter ideia, a Hebe peitou o SBT para que me contratassem como repórter dela. Tenho a felicidade de trabalhar com o que gosto.