[[legacy_image_255947]] Mary e Bia tinham vivido 19 e 20 anos, um tempo acima das previsões, mas ainda pouco para nós, que nos acostumamos com suas manias, pirraças, chamegos e ternura. Mary veio antes. Em nosso primeiro Natal após o casamento, meu pai nos dá uma caixa com um grande laço vermelho. Da tampa, que estava meio aberta, saiu um par de olhinhos azuis assustados e carentes, que nos pegou de surpresa. Só meu pai para achar que recém-casados precisavam de companhia. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Logo na primeira noite em casa, a danadinha pulou o basculante do banheiro e foi parar lá embaixo. Morávamos no segundo andar e foi um susto danado quando a campainha tocou e a vizinha estava com a nossa nova moradora no colo. Mas como uma gatinha legítima, o veterinário garantiu que ela não se machucou. Em pleno Natal conseguimos um rapaz, abençoado, para colocar rede em tudo que era abertura do apartamento, para dormimos com um pouco mais de tranquilidade. Após o feriado, quando fomos trabalhar, não sabíamos como deixar aquela bolinha de pelo sozinha. Resolvemos ligar a televisão no programa da Xuxa para distraí-la. Sim, eram os anos 1990. Voltamos e a casa estava intacta, com exceção do sofá, que já mostrava o resultado das pequenas e afiadas garrinhas. “Ela fica muito sozinha, vamos pedir para seu pai arrumar uma companhia para ela”, meu marido me diz na primeira semana. E assim chegou a Bia. Mais branquinha, apesar de ter a mistura de siamesa como a Mary, tinha olhinhos ainda mais inocentes. Vou dizer, não foi nada como esperávamos. A recepção foi terrível, como se Mary nos dissesse: “Quem é essa usurpadora que vocês trouxeram para minha casa?” Por 19 anos elas não se deram muito bem. Bia sempre foi retraída, apesar de ser um docinho, incapaz de arranhar ou morder alguém. Mary já era a dona do pedaço e claramente anulava e tentava isolar a companheira de espaço. Tentávamos compensar nos dividindo em carinho e atenção, sem fazer diferença. Mas, como minha mãe dizia: pais sempre protegem o filho que precisa mais. Sei que foram felizes e tiveram tudo do bom e do melhor, mas a sensação da perda a gente não quer sentir mais e quando elas partiram, jurei que não teria mais bichinhos. Mas sentia falta delas no vazio do meio da cama onde dormiam, no sofá que não tinha mais fios puxadinhos. Ninguém mais vinha desfilar nos teclados do computador quando eu estava trabalhando ou sentar no meu colo quando tinha visita. Tendo gatinhos durante tanto tempo, acaba que amigos e a família te presenteiam com tudo que tem tema de gato. Tenho porta-joia, quadrinhos, bibelôs, camisetas e utensílios de cozinha com essa vibe felina. Por isso, claro, quando nosso lar ficou vazio, os amigos começaram a nos bombardear com todo tipo de fotos e marcação de posts de gatinhos órfãos. E nós fomos resistindo. Estava mesmo decidida. E repetia a mim mesma: “A vida era mais fácil sem animais dependendo da gente. Podia viajar sem me preocupar, não precisava correr para casa após o trabalho preocupada se tinha comida, água. Não seria acordada às 6h com seres rotineiros que querem ração fresquinha pela manhã e não teria mais que trocar de sofá como se fosse sócia da loja de móveis”. Mas a gente é racional até a página 2... Belo dia, Marcus me manda fotinhos de uma ninhada de siameses que havia chegado na Codevida. Tinha recebido de uma amiga. Vira-e-mexe ele fazia isso, mas eu me mantinha firme. Porém, naquela manhã, quando olhei a foto, e lá no fundo da imagem, bem atrás dos filhotinhos, havia dois gatinhos enroscados um no outro, se aconchegando em um gradil, um cinza, outro branquinho. Pareciam tão amigos. Eram um pouco maiores, não recém-nascidos. Foi como se olhassem para mim, senti como se fosse um reencontro. E ali, toda minha racionalidade foi para o espaço. No dia seguinte, estavam na minha casa e, por coincidência, era também época de Natal. Nina, branquinha de olhos amarelos e carinha de bebê, foi logo saindo da caixinha para conhecer a casa nova. Já João, ressabiado, se escondeu sob o móvel e nada o tirava dali. Só quando cheguei em casa e ele ouviu minha voz que saiu do esconderijo, como se estivesse me esperando sem nem me conhecer. Foi mesmo um amor à primeira vista. E, assim como estavam na foto, até hoje, quase 10 anos depois, continuam superamigos, companheiros, não se desgrudam. Às vezes brigam, se estranham, mas bem como irmãos logo estão se abraçando novamente. Só dormem juntos e grudados na gente também. Minha irmã fala que são gatochorros, que gostam de deitar sob nossos pés, correr para pegar bolinhas e esperar na porta quando chegamos. Ainda bem que repensamos a decisão. Nada substitui minhas Mary e Bia, mas o sentimento se renova. A gente tem tanto amor para dividir, porque guardá-lo? Saber que eles estarão em casa quando eu chego e que às 6h já vão miar querendo que a gente acorde, por incrível que pareça, me dá uma paz imensa.