A cantora esteve em Santos para participar da abertura do Santos Jazz: longa jornada na música, reconhecida pelas novas gerações (Vanessa Rodrigues/AT) E o Tempo Agora Quer Voar: em seu novo álbum, a cantora e compositora Alaíde Costa parece querer domar o tempo. “O tempo está voando mesmo... lá atrás, demorou para eu chegar aqui... agora está indo rápido demais, queria segurar um pouquinho...”. Mas segurá-lo é impossível: o jeito é se entregar a ele. Aos 88 anos, Alaíde vive o seu tempo, e sobretudo a sua música, de maneira plena. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Na quinta-feira (25), participou do show de abertura do Santos Jazz Festival, no teatro do Sesc. Antes, esteve no Grupo Tribuna, onde participou do JT1 e concedeu esta entrevista. Os passos estão lentos, mas a voz, apesar da idade, conserva o seu “jeitinho”, como ela já disse. Um jeitinho que há sete décadas conquistou o Brasil, mas que ela não sabe definir. “Já veio comigo: canto como sou, procuro sempre estudar bem o que o letrista quer dizer”. Cantar como é lhe causou alguns percalços, mas também lhe garantiu a admiração do público e de músicos de todas as idades. E o Tempo Agora Quer Voar, por exemplo, é o recém-lançado segundo álbum de uma trilogia produzida por Marcus Preto e o rapper Emicida (o primeiro foi O que Meus Calos Dizem Sobre Mim, de 2022). “O meu produtor me ligou e falou ‘o Marcus Preto está pensando em fazer um trabalho seu com Emicida’. Pensei: ‘Emicida? É uma linha tão diferente da minha... o que será que vai acontecer?’. Ao mesmo tempo pensei que ele é um moço bem inteligente, conhece meu trabalho. Daí fui, e foi muito legal”. Só porque você não quis O álbum é formado por canções de Nando Reis, Marisa Monte, Carlinhos Brown, Rashid e Caetano Veloso, especialmente compostas para ela. No caso da música feita por Caetano, Foi Só Porque Você Não Quis, que abre o álbum, a história começou ainda em 1974, como a própria Alaíde Costa contou ao programa Roda Viva. Naquele ano, Alaíde lançou o álbum Coração, produzido por Milton Nascimento. Antes, os dois foram literalmente bater na porta de Caetano pedindo uma música, mas como o compositor estava dormindo, foram embora. Tempos depois, Alaíde e Caetano se encontraram em um show de Johnny Alf, e o baiano gracejou: “não entrei no Coração de Alaíde”. Ao que a cantora respondeu de pronto: “Não entrou, mas foi só porque você não quis”. Sabendo do ‘causo’, Emicida escreveu a letra e enviou-a para Caetano. Assim nasceu Foi Só Porque Você Não Quis. Mas tudo isso não teria acontecido se aquela menina tímida do Méier, subúrbio do Rio de Janeiro, não tivesse um dia se convencido a ser cantora. Destino Desde bem pequena, fosse enquanto ajudava a mãe, lavadeira, com as tarefas domésticas, Alaíde costumava cantar para se distrair. “Vivia cantando, em casa e todo lugar que eu ia, mas nunca pensei em ser cantora um dia”, relembra. Em 1951, aos 16 anos, quando trabalhava de babá de três crianças e a cantoria continuava, sua empregadora achou que ela cantava bem e insistiu: que fosse participar do programa Calouros em Desfile, apresentado por ninguém menos que Ary Barroso, na Rádio Tupi. “De tanto ela falar, eu resolvi ir. mas antes de ir, eu comecei a procurar uma música que fosse diferente do que acontecia naquele momento”. A música escolhida foi Noturno em Tempo de Samba, que na época tocava no rádio com Sílvio Caldas. “Cada vez que ele cantava, eu ouvia, ia memorizando a melodia, escrevendo a letra... quando eu aprendi, me inscrevi”. O resto é destino: Alaíde saiu do programa com a nota máxima e a certeza de que iria se tornar cantora profissional. Logo depois, foi contratada como crooner da boate Dancing Avenida. Em 1956, entrou em um estúdio pela primeira vez na vida para gravar o samba-canção Tens que Pagar, composição sua em parceria com Aírton Amorim. Bossa Nova Um ano depois, pela gravadora Odeon, lançou Tarde Demais (Hélio Costa e Raul Sampaio) e uma versão de C’est La Vie, os primeiros sucessos. E quando estava gravando mais um álbum, o seu ‘jeitinho’ único não passou desapercebido por João Gilberto. O papa da bossa nova, que nem esse nome tinha ainda, convidou-a para uma reunião de “uns meninos fazendo uma música diferente”. Entre os ‘meninos’, estavam Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, Carlos Lyra, Chico Feitosa e Oscar Castro Neves. Alaíde foi bem recebida, participou de shows da ‘moda’ nascente, mas acabou separada do movimento. Mas, segundo diz, as mágoas estão superadas. Hoje, sente-se “plena e realizada”. Mas marca o território: “O Johnny (Alf) já fazia essa música (bossa nova) tocando na noite carioca antes desses meninos”. Como ela também. Alaíde nunca se curvou aos ditames da indústria, que aqui e ali tentou lhe impor canções ou formas de cantar. Sofreu com gravadoras. Mas manteve-se fiel ao seu ‘jeitinho’; fiel, enfim, à música. “Minha vida sem ela seria muito ruim”, resume. Para Alaíde Costa, música é amor, e amor é tudo. “É uma coisa muito bonita (...). O amor é pleno”.