[[legacy_image_36606]] “Essa pessoa tem luz própria”. “Sinto uma energia tão boa que não dá vontade de sair de perto”. Você já deve ter ouvido alguém dizer essas frases sobre uma terceira pessoa. Com sorte, você mesmo já disse essas coisas, pois conhece alguém ou até convive com um desses seres raros e iluminados. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Recentemente, surgiu uma expressão mais moderninha para caracterizar as pessoas dotadas de um magnetismo natural extra. Trata-se do termo “happy high status”, uma tentativa de designar indivíduos com alto astral admirável. Este estado mais elevado de viver só tem quem se sente totalmente confortável na própria pele. Pessoas assim exalam segurança e autoconfiança, mas passam longe da soberba e da arrogância, até porque elas nem sabem que são assim tão atrativas. Aliás, não sabem porque não estão preocupadas com a imagem que passam para os outros. Estão ocupadas em simplesmente ser o que são, nunca em parecer algo para agradar e serem aceitas. Entre os famosos há exemplos de pessoas com essa vibe potentemente benéfica. Georgle Clooney, Michelle Obama, Paul McCartney, Oprah Winfrey, Fernanda Montenegro e Ivete Sangalo são alguns. Estilos e histórias completamente diferentes, mas todos com um ponto em comum: são donos de personalidades cativantes. E engana-se quem acha que só pode ser um autêntico membro do happy high status quem alcança a fama, posição social, bom nível financeiro ou tem QI alto. Anônimos e pessoas comuns também apresentam esse modo encantado de viver, de acordo com os especialistas na psique humana. É algo que está dentro das pessoas. Tem a ver com olhar para vida de forma mais positiva, mas sem alienação ou afetação. É sobre se autoafirmar para o mundo, mas sem se achar mais importante que os outros. Depois de definir bem o tipo de gente que reluz mas não é ouro e nem está à venda, uma pergunta é inevitável: esses bem-aventurados já nascem assim ou desenvolvem tais atributos e habilidades ao longo da vida? “Tem esses dois tipos de percursos até chegar no chamado happy high status. Mas o mais importante é saber que todos somos esse ser especial em potencial”, defende a psicóloga e treinadora alquimista Osmarina Vyel. Para ela, o ambiente onde nascemos e nos desenvolvemos conta muito. “Por natureza somos satisfeitos, bem resolvidos. Basta observar as crianças. Uma grande parte tem essa vivacidade e autenticidade. Por isso todos se encantam com a espontaneidade e a alegria de viver que elas esbanjam. É obvio que algumas passam por uma vida intrauterina hostil e fogem à regra. Mas, por essência, a raça humana é autorrealizada e vai se distanciando desse lugar ao longo da vida”. Ou seja, em tese, quem nasce em uma família mais ou menos harmônica, onde essas características não são tolhidas, tem mais chances de se desenvolver de forma saudável e, consequentemente, esbanjar e manter vitalidade, apesar das adversidades. “Quando passamos por privações severas ou por uma educação mais repressiva, onde há obstáculos para essa essência aflorar, até podemos desenvolver isso depois, mas vai depender das vivências, dos traumas, dos aprendizados. Podemos e devemos, na vida adulta, retirar todas as cascas que acabamos adquirindo ao longo da jornada, buscando o autoconhecimento, nos lapidando e redescobrindo, assim, nossa essência, alinhada ao tal happy high status”, complementa. Para Osmarina, quanto mais nos distanciamos de quem somos em verdade, menos encantadores e interessantes nos tornamos aos olhos dos outros, pois estamos sempre buscando ser aquilo que interpretamos ser atrativo ou aprovado pela sociedade. Isso soa forçado, artificial. A psicanalista e psicóloga Maria Cristina Dalia lembra que não se trata de buscar algo fora de si. Pessoas que reluzem sem esforço na verdade nem prestam atenção no que causam. Não agem calculadamente. Não é uma caça ao tesouro e não há um mapa a seguir. “Elas só são e ponto. Como não precisam provar nada para ninguém, elas seguem seus caminhos, fluem com a vida. E se estão diante de problemas, seguem o velho ditado fazendo de um limão uma limonada”. Ser um happy high status não é estar imune à dor, mas há que saber lidar com ela, tirar aprendizados, enxergar que machucados emocionais e concretos ocorrem, porém, sofrer em demasia com eles é uma questão de escolha. Tem a ver com saber viver, como diz a música da banda Titãs, onde um dos versos sugere que “toda pedra no caminho você pode retirar” e que “se o bem e o mal existem, você pode escolher”. “Não estamos falando de pessoas alienadas e alheias aos acontecimentos da vida”, reforça Maria Cristina, explicando que pessoas que se dizem felizes têm consciência dos males do mundo e se afetam com a dor do outro. A diferença é que não se deixam abalar, pois preferem ser proativas diante das dificuldades. Osmarina cita o conceito de ‘forja alquímica’, que vem da Alquimia para ilustrar esse ponto. Para ela, processos dolorosos são importantes para ganharmos mais energia e vitalidade. “Todos nós vamos passar por forjas alquímicas e são elas que nos permitem desenvolver o máximo da nossa consciência. Quando as pessoas não entendem isso, elas não assimilam a diferença entre dor e sofrimento”. Quem adquiriu o nível de happy hight status consegue fazer essa distinção. “A maioria escolhe o sofrimento por causa de valores distorcidos. Assim, ao invés de evoluir, involui e se torna aquele ser desinteressante, opaco. Até a pele piora e os olhos ficam mais endurecidos nas pessoas que não lidam bem com as forjas alquímicas. Se você entender e aceitar a dor como um aprendizado, se projeta para uma outra oitava e sai muito mais fortalecido”. O trabalho da psicoterapia é o de justamente guiar quem está na frequência do sofrer para a frequência do autoconhecimento e aprendizado. A psicanalista Maria Cristina faz esse caminho diariamente com dezenas de pessoas. “Vamos perguntando, fazendo as pessoas narrarem suas histórias e vivências e como as enxergam. Chega um momento em que elas mesmas descobrem que aquilo que lhes fazia mal, não faz mais tanto sentido. E que não precisam mais distorcer a visão que têm de si. Então se libertam e readquirem a confiança”. Osmarina presencia o mesmo fenômeno no cotidiano como psicóloga e treinadora alquímica. “É bonito ver esse processo no consultório. O paciente chega apagado, sem ânimo. Com os atendimentos vamos juntos olhando a essência dessa pessoa e como ela pode ir limpando os conflitos e caminhando em direção a esta luz interior”. Ela explica que para entendermos o que está nos deixando opacos, precisamos entender o que que brilha em nós. E brilhar não quer dizer ofuscar os demais, mas iluminar. “As vezes, em pouco tempo de análise já conseguimos ver esse brilho. A pele fica mais luminosa, o sorriso mais espontâneo. É um desabrochar”. Outra música da banda Titãs ajuda a traduzir esse patamar. Em “Epitáfio” o compositor faz um balanço de sua jornada e diz que “devia ter complicado menos, trabalhado menos, ter visto o sol se pôr, se importado menos com problemas pequenos, ter morrido de amor”. Os mais simplistas podem perguntar: então basta entrar no modo curtir a vida como se não houvesse amanhã? Também não é isso. Ambas as especialistas frisam que encontrar um jeito mais pleno de viver não significa estar com um sorriso de orelha a orelha 100% do tempo e negar as mazelas do mundo. “Estamos falando de um lugar onde existe um equilíbrio. Há a lamentação, os pesares, mas eles duram pouco e não desestabilizam. É uma diferença sutil, mas muito importante”, analisa Maria Cristina. A lição maior para Osmarina é que quanto mais o indivíduo está centrado, quanto mais caminha em direção ao seu verdadeiro eu, mais conectado ele fica com o amor, pois em essência é isso o que somos - amor. Aí não tem como a pessoa ser fútil, superficial, indiferente ou omissa com o que se passa ao redor. “Ela vai exercitar empatia, só não vai se apegar ao sofrimento que faz parte da lapidação do outro. Não vai trazer o que não é dela para vida dela. Definitivamente, ser happy high status é um longo processo de desconstrução do que não nos serve mais”, finaliza Osmarina