[[legacy_image_89182]] Quem é pai sabe: felicidade é reconhecer suas melhores partes no ser que ajudou a gerar. Não por acaso, o título música de João Nogueira, Espelho, literalmente reflete o sentido da busca pela melhor paternidade possível. Afinal, que homem não sente orgulho de ver no filho reflexos do que tem de mais apaixonante em si mesmo? Que homem também não sente medo de, como modelo que é, deixar o “espelho se quebrar” e decepcionar a cria? Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Não se trata de status, sucesso profissional ou conquistas financeiras. Estamos falando de relações cotidianas com o prazer de viver. Vivências lúdicas que passam de pai para filho marcam a memória afetiva. Conexões, experiências e paixões compartilhadas que solidificam o amor e a parceria. Momentos como o relatado pelo motorista executivo Silvio Andrade Elias, 58 anos, um apaixonado pela música negra. Com a voz embargada e um sorriso largo ele lembra o dia em que estava dirigindo e, pelo retrovisor, viu o então bebê Igor Maciel Elias reproduzir com precisão surpreendente o ritmo complexo da música que tocava no som do carro. As mãozinhas batucavam na cadeirinha enquanto as lágrimas escorriam no rosto do pai orgulhoso que dirigia. Silvio é percussionista nas horas vagas. Também toca gaita e violão. Igor, hoje com 19 anos, estuda produção musical, toca violão, guitarra e bateria. Tem sua própria banda, a Skassu, e respira música 24 horas por dia. “Meu pai e meu avô são minhas grandes referências. Com meu avô, Jorge Maciel, aprendi a gostar de Choro, o jazz brasileiro, e a tocar cavaquinho. Com meu pai desenvolvi os primeiros acordes de violão e me apaixonei pelo rock e pelo blues”. Orgulhoso, Silvio faz questão de contar dos tempos em que levava o menino nos ensaios da banda na juventude. “Ele era o mascote oficial da turma. O mais legal é ver que, se antes ele era o Igor, filho do Silvio gaitista, hoje eu sou o pai do Igor da banda Skassu”. Pai e filho seguem tocando juntos sempre que podem, mostrando sintonia e cumplicidade. O amor que sentem um pelo outro se expressa de múltiplas formas, mas principalmente nas notas improvisadas de um velho blues. Aos 77 anos, Jorge, avô de Igor e ex-sogro de Silvio, só agradece por ter ajudado a iniciar essa parceria, através do próprio exemplo. “A música conecta as pessoas. Tenho muito orgulho deles”. [[legacy_image_89183]] No esporte Orgulho também define o olhar brilhante e ao mesmo tímido de Lucas Germano, de 16 anos, ao falar do pai, Jorge Luiz Maciel, 45, conhecido no meio do carveboard como Jorge Malvadão. Campeão paulista e brasileiro da modalidade que alia skate em ladeiras com as manobras do surf, Malvadão passou para o filhote a paixão do esporte e também o apelido. Nas competições o garoto é Lucas Malvadinho, figura carimbada nas ladeiras da Ilha Porchat, em São Vicente, onde a modalidade ganhou força antes de se espalhar pelo Brasil. E a trajetória se repete. Ousado, o adolescente já disputou e ganhou de muitos marmanjos, inclusive em ladeiras consideradas perigosas até para os mais experientes. “Eu cresci nesse ambiente, observando de pertinho o melhor representante desse esporte. Meu pai sempre foi e sempre será minha maior inspiração pra tudo. Não tem como não querer chegar onde ele chegou”, conta Lucas. Só de ouvir as palavras do filho, Malvadão mostra que o apelido não tem nada a ver com a essência da família. “Ter o Lucas foi muito mais do que eu imaginei nos meus melhores sonhos. Ver ele se desenvolver e se divertir com o carveboard é maravilhoso. Se ele está feliz, eu estou também”, resume, com os olhos marejados. E é no pai babão que Lucas pensa cada vez que consegue subir no pódio. “Ele me dá altas dicas. É meu melhor amigo e meu maior incentivador”, define. Paixão Algo parecido aconteceu com outra dupla de vicentinos. Alexandre Magalhães Vaz Filho, de 48 anos, e Breno Felipe Noschese Magalhães Vaz, de 19 anos, dividem a paixão pelo futebol, pelo Corinthians e, mais recentemente, pelo Beach Tênis. Alexandre conta que o filho foi muito idealizado, mas que nunca forçou o garoto a curtir as mesmas paixões. “Foi tudo acontecendo naturalmente”, conta o ex-goleiro do futebol amador em times como Portuguesa Santista, Juventus e Santos. Breno começou a jogar na linha no time da escola, mas estava desconfortável naquela posição. Um dia resolveu se testar no gol e gostou. Desde o primeiro campeonato escolar Alexandre não saiu mais atrás das traves. Virou uma espécie de preparador de goleiro do time do colégio. “Quando vi que era isso que ele queria mesmo, fiquei muito feliz e lembrei do meu início. Mas minha preocupação foi dar o maior apoio possível para que ele pudesse treinar e realmente evoluir. Se ele escolhesse o judô ou o surf não seria diferente. A cada competição eu ficaria do lado no tatame ou na beira da água, torcendo e ajudando”, afirma. A cumplicidade se manteve com o fim do Ensino Médio e dos campeonatos escolares de futsal. Pai e filho agora treinam juntos beach tênis, coincidentemente uma modalidade que também usa bola e as mãos, porém com o auxilio de uma raquete apropriada para ambiente de praia. Juntos eles organizam e participam de campeonatos locais, onde o propósito maior é compartilhar bons momentos entre amigos.“Meu pai é meu ídolo e não só no esporte. Ele é uma pessoa que quando se propõe a fazer algo, busca fazer o melhor possível. Não faz nada por fazer. É 100% focado quando tem uma meta. Essa determinação e comprometimento eu tento assimilar. A amizade que a gente tem por causa do beach tênis e do futebol ajuda muito”, conta Breno. Por outro lado, sem saber, o jovem também ensina o veterano dentro e fora das quadras. “Eu sou muito acelerado e o Breno sempre me traz tranquilidade, me ajuda a colocar o pé no freio quando precisa, a fazer as coisas com calma e equilíbrio. Eu aprendo muito com ele”. Silvio, Jorge, Alexandre e tantos outros... Pai é isso: espelho a projetar imagens e também a refletir o que é bom e necessário para a vida. Pai é tudo igual, só muda de endereço.