[[legacy_image_118897]] A pandemia nos colocou em um turbilhão de sentimentos, dos mais variados tipos. A cada fase da crise sanitária, tivemos de nos adaptar a contextos que nunca haviam passado pela nossa cabeça, e não é porque, hoje, estamos em um dos momentos que mais se aproximam da vida que levávamos antes da covid-19 que devemos baixar a guarda, inclusive na forma como administramos as nossas emoções. É o que mostra na entrevista abaixo a psicóloga, sexóloga e professora de pós-graduação Sheila Reis, que também preside a Sociedade Brasileira de EstudosemSexualidade Humana (SBRASH). Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! READAPTAÇÃO Com o nosso dia a dia cada vez mais próximo do que era antes, que cuidados devemos tomar do ponto de vista emocional? Assim que a pandemia começou, a gente foi retirado do nosso cotidiano bruscamente. Já faz quase dois anos que isso aconteceu e agora, que estamos adaptados a essa nova rotina que nos foi imposta, muita gente está retornando ou já voltou ao trabalho presencial. O que devemos fazer com tudo o que aconteceu e que sentimos no período de home office? Reparo que várias pessoas estão meio que passando batido por essa questão, como se o processo de parada e retomada das atividades não trouxesse nenhuma consequência para o nosso emocional. Não dá para a gente achar que vai ser algo automático, que basta voltar para o trabalho que a vida seguirá o seu fluxo normalmente, como antes. Até porque experimentamos uma nova ordem de coisas – boas e ruins – nunca antes vivenciadas pela humanidade. É preciso perceber melhor o tempo necessário de readaptação ao trabalho presencial, pois, por mais que o ambiente profissional e os colegas pareçam os mesmos, eles já não são mais como antes. Em vez de empurrarmos para debaixo do tapete tudo o que ocorreu, fingindo que não houve nada, devemos analisar o que foi legal ou não na experiência do home office e nos prepararmos para as novas demandas que virão dentro da empresa e que são decorrentes do contexto atual. Que outras sensações o momento que estamos vivendo desperta nas pessoas? Muita gente tem sentido um incômodo ou, então, nervosismo, ansiedade e mau humor, e não sabe identificar o porquê disso. Dependendo do caso, a pessoa nem se dá conta de que anda desse jeito. Há quem começa a se estressar com o chefe e os colegas, porque estava rendendo bem no home office – onde podia trabalhar em horários mais flexíveis e fazer intervalos para limpar a casa, se exercitar etc. – e, com a volta às atividades presenciais, tem novamente de cumprir o expediente comercial. Essa necessidade de se readequar mais uma vez e o ioiô emocional que vivemos têm gerado o mal-estar, o desconforto, o mau humor que citei. A ansiedade pega mais em que sentido? Ela envolve mais o aspecto de a gente ficar tentando imaginar como vai ser daqui para frente e o que pode acontecer no futuro. A pandemia está trazendo a sensação e a constatação de que, por mais que você planeje algo, não pode contar 100% com aquilo. Algumas certezas que nós tínhamos antes da covid-19, hoje, não existem mais e isso gera insegurança, desconfiança, ansiedade. DIFERENÇAS Há pessoas que não se preocupam em usar a máscara e desrespeitam não só essa como outras orientações das autoridades sanitárias, com o argumento de que têm o direito de viver. Que tipo de leitura podemos fazer de atitudes como essa? Em tese, o meu limite deveria ir até onde começa o do outro, mas, na prática, infelizmente, nem sempre funciona assim. Nenhum ser humano é igual ao outro e devemos aprender a lidar com as diferenças, pois vamos encontrar de tudo. Enquanto algumas pessoas têm muito medo, pânico e a chamada coronafobia – tanto que, mesmo vacinadas, elas continuam sem sair de casa e, quando vão à rua, usam face shield e luva –, outras pessoas passaram a fazer coisas que, antes da pandemia, diziam que jamais iriam fazer. Acredito que esse argumento de “ter o direito de viver e querer aproveitar a vida” pode ter a ver com o fato de que a covid-19 evidenciou o seguinte: ninguém sabe até quando vai viver. Com a pandemia do novo coronavírus, todos nós, de alguma forma, experimentamos sensações que nunca tínhamos tido, e não podemos ignorar o impacto disso em cada um de nós e na sociedade. Por exemplo: a decisão de ir viajar, dependendo do caso, pode provocar uma confusão emocional. Como assim? Tem gente que, ao se deparar com o aeroporto movimentado, pensa: “O que eu estou fazendo aqui?” E aí se sente um peixe fora d’água, por achar que a sua atitude pode estar sendo um tanto quanto exagerada. Ao mesmo tempo, há pessoas que viajam e agem com um certo pudor, de modo que evitam postar fotos do que estão fazendo ou, então, publicam apenas um clique da paisagem, sem aparecer, dando a entender que viajaram, mas sem assumir aquilo, por temerem receber críticas. OXIGENAÇÃO O isolamento social impôs uma série de desafios para todos nós. Na sua opinião, qual foi o maior deles? O que pesou mais para a grande maioria das pessoas foi a retirada da socialização, da convivência diária com os outros. A simples rotina de acordar, tomar café, se arrumar e ir trabalhar funciona como um processo de oxigenação, porque, até chegar à empresa, você cruza com pessoas e vê coisas que enchem a cabeça de ideias e informações. O mesmo acontece na hora de ir almoçar ou de voltar para casa. E isso se mostra fundamental. Sem esse processo e sem o chamado ócio criativo, algumas pessoas se puseram a trabalhar no home office de um jeito que não paravam nem para ir ao banheiro. O que pode acabar levando a uma exaustão. Exatamente. Por mais que, durante o isolamento social, você interaja com a família em casa, o contato com as outras pessoas não deixa de ser necessário. As crianças, os adolescentes e os idosos foram os que mais sofreram com isso. Imagine o seguinte: teve estudante que entrou na universidade ao longo da pandemia e, como as aulas passaram a ser on-line, ficou sem conhecer a dinâmica de um campus. Sendo que esse dia a dia da faculdade costuma fazer com que a gente aprenda, inclusive, a se virar sozinho. Ainda não dá para saber como essa mudança de contexto vai afetar as gerações mais novas. Vai demorar um pouco para as lacunas deixarem de existir. Todos nós vamos precisar ser mais condescendentes e ter mais resiliência e mais boa vontade para conseguirmos superar os impactos da pandemia nos mais variados segmentos da sociedade. Há algum outro fato curioso com relação ao isolamento social? Teve gente que gostou de ficar em casa e que passou a ter menos ansiedade, pois deixou de se sentir cobrada para tomar decisões e atitudes importantes, referentes ao seu futuro. Por exemplo: quem tem dificuldade de dizer não pode ter achado que, por causa da pandemia, não precisaria se posicionar em determinadas situações. Ou então: uma pessoa solteira que, antes se cobrava para sair e conhecer alguém, encontrou no coronavírus uma forma de suavizar esse tipo de exigência. AMOR É fato: nunca tivemos uma vida tão virtual como a que levamos hoje em dia. Dá para fazer uma projeção dos efeitos dessa nova realidade nos relacionamentos amorosos, familiares e de amizade? Eu acredito que não existe mais uma volta. As nossas relações afetivas e com os amigos e familiares tendem a seguir cada vez mais essa dinâmica. Basta ver que, hoje, muitas pessoas preferem mandar uma mensagem em vez de ligar para alguém. Sem falar que tem gente que discute a relação por WhatsApp e até que termina o relacionamento pelo aplicativo. E como isso afeta o sexo? Ah, interfere em todos os sentidos. Apesar de traição e pandemia não combinarem, a infidelidade cresceu bastante nesse período. O Brasil se tornou um dos países com mais usuários no site Ashley Madison, que promete à pessoa arranjar um caso sem ser descoberta. A busca na internet por temas ligados ao sexo e à sexualidade aumentou demais também – para o bem e para o mal. O consumo de pornografia foi outra coisa que subiu muito. A convivência diária dentro da casa mudou os relacionamentos e as posturas dos casais. Teve gente que, antes da pandemia, saía cedo e voltava só à noite, então ficava pouco com o parceiro. Aí, com o isolamento social, passou a descobrir coisas do companheiro que desconhecia. Ao mesmo tempo em que a pandemia aproximou as pessoas, ela também registrou diversas separações.