[[legacy_image_38037]] O título desta matéria foi extraído da canção Sítio do Picapau Amarelo, de Gilberto Gil, tema da adaptação televisiva de 1977, da Rede Globo, de um dos maiores clássicos da Literatura Infantil brasileira. Mas também resume as contradições de seu autor, Monteiro Lobato, em questões delicadas, como o racismo. Neste 2021, em que Narizinho, uma das principais personagens do Sítio, completa 100 anos, mergulhar na vida e na obra de Lobato é extrair um pouco do que é o Brasil – e refletir sobre o Brasil que se deseja. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! José Bento Renato Monteiro Lobato nasceu em Taubaté, em 1882 e morreu em São Paulo, em 1948. Na infância, foi criado justamente em um sítio, que viria a ser o cenário da sua obra mais famosa. Aliás, uma obra que desafia o tempo e continua viva. Para Cilza Bignotto, professora de Literatura da Universidade Federal de São Carlos e uma pesquisadora de Lobato, essa permanência é algo raro em Literatura Infantil. “Os livros dialogam com a cultura imediata, as brincadeiras, os costumes, e como tudo isso muda muito rápido, inclusive os critérios do que é infância, do que é adequado à infância, esses livros vão sendo substituídos”. Então, qual o segredo da longevidade da obra infantil de Lobato? Reinações infantis O Sítio do Picapau Amarelo não tem geladeira, nem televisão; que dirá telefone celular. Ou seja, apresenta um cenário datado, perdido no passado. Assim, para Cilza, a atemporalidade se dá por um conjunto de fatores sutis. Um dos mais importantes, a autonomia das personagens infantis. “Elas questionam os adultos, muitas vezes desautorizam os adultos, as crianças brigam entre elas, depois se acertam. São personagens e situações complexas. Na época, a história infantil costumava trazer uma moral pronta sobre o comportamento adequado”. Como exemplo, ela cita o personagem Pedrinho, irmão de Narizinho (e um alter ego do próprio Lobato menino), que em determinada situação dá um chute no porquinho do Sítio, Rabicó. “Em vez de ter um narrador falando que é errado chutar o porco, a história é construída de tal forma que a criança mesma se posiciona (contra isso)”. A abordagem inusitada para a época, mais o uso do folclore nacional, fazem com que Lobato esteja para a Literatura Infantil brasileira, como o dinamarquês Hans Christian Andersen está para a nórdica. Vale citar, HC Andersen é autor de O Patinho Feio e A Pequena Sereia, entre outros clássicos. Racismo De família abastada, Lobato recebeu a fazenda do avô como herança. Queria estudar Belas Artes (também desenhava), mas por imposição da família, acabou advogado. Por certo tempo, foi promotor público. Teve uma empresa petrolífera. Mas dedicou-se mesmo a escrever e à edição de livros, numa época em que a maioria das obras brasileiras era editada em Paris ou Lisboa. Essa aura multifacetada se refletiu em suas opiniões e visões de mundo, carregadas de uma complexidade ambígua. A mais óbvia é o papel da personagem negra tia Nastácia. Ela é a cozinheira, a empregada do Sítio do Picapau Amarelo – um estereótipo que ainda hoje é associado ao negro, fruto da escravidão e do racismo estrutural incrustado no Brasil. Porém, na época em que Lobato viveu e escreveu, a percepção, e por conseguinte, a aceitação, dessas práticas era diversa. “Eram livros que: ou não tinham nenhuma personagem negra, como se a maioria da população brasileira não existisse, ou as personagens negras eram representadas como escravas ou pessoas amaldiçoadas, que têm parte com o diabo. A pele negra era fortemente associada à maldade, a vícios, a sujeira, nos livros infantis”. Como exemplo, cita Viagens de João Peralta e Pé de Moleque, de Menotti del Picchia, de 1930. Nele, os amigos João Peralta, branco, e Pé de Moleque, negro, viajam à lua, onde tudo é branco. Lá pelas tantas, resolvem ‘lavar’ Pé de Moleque. “O que Lobato fez? Apresentou uma mulher negra como protagonista. Em vários momentos, tia Nastácia desautoriza dona Benta, discorda, dá bronca. Colocá-la na cozinha era o verossímil para a época”. Para ler (ou não) lobato Mas é possível ler Lobato, e exaltar o seu valor literário, sem fazer apologia de um “modo de vida que hoje é intolerável”, como diz Cilza? Ela mesma responde: sim. Há desde adaptações, algumas famosas – como as de Pedro Bandeira e Walcyr Carrasco – a edições comentadas. “É importante a mediação. Há passagens racistas mesmo, é preciso dizer. O professor pode usar essa narrativa para possibilitar o questionamento e conscientizar as crianças. Que, ao contrário do que muitos pensam, não são leitores passivos, mas muito ativos”. Supremo Tribunal Federal O racismo na obra infantil de Lobato chegou ao STF no ano passado, em um caso que se arrasta desde 2010, quando o Conselho Nacional de Educação (CNE) determinou que Caçadas de Narizinho não mais fosse utilizado nas escolas públicas, pelo conteúdo racista. Dentre os termos, “Não vai escapar ninguém – nem tia Nastácia, que tem carne preta”, foi um trecho utilizado para a determinação. Com o recurso do Ministério da Educação, que obteve mandado de segurança, o caso chegou à Suprema Corte, que lavou as mãos no caso. O STF entendeu que não lhe cabia analisar o assunto, pois não tinham competência para julgar ações de ministros de estado em suas atribuições. Exposição Uma das celebrações pelos 100 anos da publicação de A Menina do Narizinho Arrebitado é a exposição digital Uma Menina Centenária - 100 Anos de Narizinho Arrebitado, promovida pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da USP. Um dos curadores, o designer, pesquisador e ‘bibliófilo lobatiano’ (como se descreve), Magno Silveira, explica que a mostra apresenta, em imagens e textos, a trajetória do escritor e o nascimento da personagem. Aliás, boa parte do acervo da exposição, que contém primeiras e raras edições de diversas obras (foto), é do próprio Magno. “Em 1921, Lobato teve 50,5 mil exemplares de Narizinho Arrebitado distribuídos na rede pública, um feito para a época”. A exposição também tem a curadoria das pesquisadoras Patrícia Tavares Raffaini, da Unifesp, e Gabriela Pellegrino Soares, pela USP. Para visitar on-line, acesse este link. Já o trabalho de Magno, pode ser acessado aqui.