[[legacy_image_59724]] Após 12 anos dedicados ao jornalismo – oito deles na TV Globo –, Daiana Garbin, de 39, pediu demissão da emissora para focar no desenvolvimento de projetos sobre problemas que tinha acabado de entender que possuía e que eram fonte de grande sofrimento desde a sua infância: os transtornos alimentares, a distorção da autoimagem e a insatisfação extrema com o próprio corpo. Isso a levou a experimentar todos os remédios e dietas possíveis, a se submeter a três lipoaspirações antes dos 30 e a deixar de ir a restaurantes, festas e ao trabalho. Foi assim que nasceram o site euvejo.vc, o Instagram e o canal de YouTube de Daiana, além do best-seller Fazendo as Pazes com o Corpo e do livro A Vida Perfeita Não Existe, lançado em agosto. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Na entrevista, a jornalista e escritora gaúcha dá um depoimento impactante do que viveu até se curar. Fala também de quanto o marido, o jornalista e apresentador Tiago Leifert, foi fundamental na sua recuperação e do desejo de construir uma sociedade mais inclusiva para a filha Lua, de 8 meses, e outras crianças se sentirem bem com quem realmente são. O que pesou mais para deixar uma carreira consolidada na TV para abrir site, canal do YouTube e lançar o seu primeiro livro? Durante mais ou menos três anos, eu fui amadurecendo essa ideia. Tanto que comecei a escrever o livro antes de pedir demissão. Não é fácil abrir mão do salário garantido, da carteira assinada, do décimo terceiro, do plano de saúde e das férias remuneradas para recomeçar praticamente do zero, aos 34 anos. Ponderei várias coisas, mas, no meu coração, sentia que esse era o caminho certo. Sou muito grata e feliz por tudo que floresceu desde então. Consegue dimensionar quantas pessoas ajuda com seus conteúdos? Fico honrada quando alguém envia e-mail dizendo que o meu livro mudou sua vida ou que percebeu que estava doente por causa de um vídeo meu. A princípio, criei o canal do YouTube para poder me ajudar e entender a minha dor, o sofrimento que atinge tanta gente. Conforme escrevia o meu primeiro livro, pesquisava e gravava vídeos, entendi que, quanto mais eu falasse sobre o assunto, mais pessoas poderia atingir. Porque, em 2016, quando passei a me dedicar a isso, os transtornos alimentares ainda eram pouco abordados. Eu quero levar informação adiante, mostrar a importância de pedir ajuda para as nossas dores emocionais, pois elas podem ter impacto devastador nas nossas vidas. Os homens também mandam mensagens relatando os dilemas que enfrentam? O meu público é mais feminino, mas recebo várias mensagens de homens, a ponto de isso, às vezes, me surpreender. Só que, em geral, eles entram em contato por e-mail ou no privado das redes sociais, porque têm vergonha de relatar algum transtorno alimentar ou o sofrimento com a imagem corporal. A sociedade machista faz com que os homens sofram demais com a necessidade de não se mostrarem frágeis, vulneráveis, e eles acabam sofrendo em silêncio e não buscam ajuda para tratar a compulsão alimentar, a bulimia ou o transtorno dismórfico corporal. Quanto tempo demorou para cair a ficha de que havia algo de errado com você? Levei muito tempo para entender que estava doente. Apenas comecei o meu tratamento com 34 anos. Mas, desde os 12, mantinha uma relação completamente conturbada com a comida e com o meu corpo. Foram mais de 20 anos em que eu sofria todo dia, a cada refeição, sempre rejeitando o meu corpo. Achava que aquilo era normal, que toda mulher era assim, que a vida era estar em guerra com o corpo e a alimentação. Eu também acreditava que a única forma de me curar era ficar cada vez mais magra. Só que isso me deixava cada vez mais doente. Hoje, noto que o meu primeiro vídeo é quase um pedido de socorro, pois falo muitas palavras duras. Não consigo vê-lo mais, porque choro pensando como aquela moça podia ter tanto ódio do próprio corpo. Agora, que me sinto curada, me questiono o motivo de ter vivido tantos anos com essa dor e não ter procurado ajuda antes. Chegou a ter algum problema com o seu corpo antes dos 12 anos? Com 5 anos, eu já chorava e dizia para a minha mãe que queria ser magra como as minhas primas e colegas da escola. Hoje, sei que os transtornos alimentares têm muitas causas, inclusive genéticas, psicológicas, culturais e sociais. E infelizmente, cada vez mais crianças sentem vergonha do próprio corpo. O bullying no colégio contribui para isso. Devemos ter bastante cuidado ao falar sobre o corpo de alguém na frente de uma criança, porque, se ela cresce em um ambiente em que todo mundo critica a aparência alheia, pode começar a questionar o seu corpo. Enquanto sociedade precisamos analisar o que estamos ensinando para as crianças em termos de autoimagem e autoestima. Após mais de 100 entrevistas que fiz e tudo o que estudei e pesquisei, vi como é importante educar nossas crianças de uma maneira diferente. O que é essencial para esse ajuste? Ensinar que existe beleza em todos os corpos e que todos merecem respeito. Também devemos fazer com que a criança tenha relação mais tranquila com a alimentação, pois reforço: quando ela cresce em um ambiente onde todo mundo vive de regime, contando calorias, onde o carboidrato é proibido e o açúcar tido como veneno, é grande a chance de que essa criança crie uma relação doentia com a comida. Espero fazer o meu melhor para que a minha filha e todas as crianças tenham, no futuro, uma sociedade que ensine as pessoas a se sentirem confortáveis como são. Levou quanto tempo para passar a gostar do seu corpo? Foram três anos de tratamento com psiquiatra, psicanalista e nutricionista. Há dois anos, tive alta da psiquiatra. Entrei, como se fala, em remição, que é quando se considera que você está curado daquele sofrimento imenso. Tenho consciência de que, em alguns momentos da vida, posso voltar a ter alguma dificuldade com a minha alimentação e o meu corpo, mas isso não significa que fiquei doente de novo e, sim, que é preciso estar alerta. Hoje, faço minhas refeições em paz, me sinto confortável no meu corpo. Você não precisa achar o seu corpo perfeito. O caminho da cura é você se aceitar como é. É a segunda vez que menciona a dificuldade para fazer refeições. O que acontecia nessas horas? Eu tinha vontade de comer, só que não me permitia, pois meu maior medo era engordar. Toda refeição era permeada por culpa, receio e sensação de fracasso. Eu tentava não comer ou comer o mínimo ao longo do dia; como não aguentava, eu achava que não tinha foco. Você ainda trabalhou na TV, onde a imagem é algo importante. A sua rotina não devia ser nada fácil. Era muito difícil. Sempre escondia o meu corpo o máximo que podia. Procurava gravar as passagens (quando o repórter aparece falando) da cintura para cima e com roupas de manga longa. Houve chefes que falaram que precisava emagrecer, o que foi devastador para mim. Afinal, a carreira que eu tinha construído até ali havia fortalecido a minha autoestima. Eu pensava: “Se a TV Globo me contratou é porque sou uma boa repórter”. A distorção da autoimagem gera os transtornos alimentares ou é o contrário? Essa é uma questão complicada, pois a gente nunca sabe o que vem antes. Não existe uma resposta definitiva. Em alguns casos, tudo começa pela relação difícil com a comida; outros iniciam pela insatisfação com a própria imagem. Eu não lembro, desde muito jovem, algum momento em que não tenha achado o meu corpo inadequado. Então, no meu caso, provavelmente o gatilho foi a insatisfação corporal. Quais foram as maiores loucuras que já fez em busca do corpo ideal? Testei todas as táticas nutricionais que existem e fiz todas as dietas que você imaginar. Também tomei todos os remédios disponíveis no mercado para perda de peso: não naturais, manipulados... Ainda me submeti a tratamentos estéticos e a cirurgias plásticas. Com 30 anos, eu já tinha feito três lipoaspirações. Quanto mais eu emagrecia, mais insatisfeita eu ficava. Era algo completamente doentio. O Tiago Leifert te ajudou bastante no resgate da autoestima? Muito! Sempre falo que ele é um anjo que Deus botou na minha vida, porque foi o Tiago que me mostrou que eu estava doente. Acho que se não fosse ele talvez eu não teria percebido o quanto minha situação era grave. Chegou um momento, lá pelos 32, 33 anos, que eu comecei a não querer ir mais a restaurantes e festas. Por exemplo: para não ir ao casamento do Serginho Groisman, menti dizendo que estava doente e o Tiago foi sozinho. Na verdade, eu não fui por achar que estava gorda e fiquei em casa chorando. O mais curioso é que, hoje, olho a foto da época e vejo o quanto era magra, de os ossos aparecerem. O Tiago sempre mostrou que eu não podia parar de viver. Também comecei a mentir no trabalho, falando que estava doente para não ter de ir. Foi aí que entendi que a situação estava fora de controle e que eu precisava de ajuda. Como é para produzir conteúdo tendo de cuidar da Lua, em meio à pandemia e com o Tiago primeiro fazendo o Big Brother e, agora, o Domingão do Faustão? Com a pandemia, a gravidez e o nascimento da Lua, comecei a fazer mais conteúdos para o Instagram, dei uma parada na postagem de vídeos no YouTube. Diminuí o ritmo de trabalho, porque quero curtir bastante minha menina, ainda mais no primeiro ano de vida. Tudo passa tão rápido! Sabe, alguns casais se desentenderam ou se divorciaram na pandemia; só tive mais certeza de que me casaria de novo com o Tiago. A gente se dá muito bem. Em casa, nós trabalhamos lado a lado, numa bancada. Um respeita o espaço do outro. Tenho gostado que, por causa da pandemia, o Tiago acaba ficando mais tempo em casa. Por exemplo, na rotina normal de BBB, ele saía para trabalhar às 14 horas e voltava às duas da manhã. A gente se via pouco. Com a pandemia, ele passou a fazer toda a preparação para o programa em casa mesmo e ia para a Globo apenas quando estava perto de entrar no ar. Por isso, o Tiago acompanhou a gestação bem de perto e tem conseguido ficar mais comigo e com a Lua.