[[legacy_image_215077]] Amizades desfeitas, rompimento de relação entre familiares, troca de xingamentos entre conhecidos, agressões físicas e até assassinatos. Esses são alguns dos efeitos colaterais causados pelo clima de violência e intolerância existente quando o assunto é a política partidária. As propagandas políticas, que deveriam fomentar a discussão de ideias e de propostas para melhorar a vida dos brasileiros, deram lugar a uma verdadeira troca de acusações entre os candidatos à Presidência da República neste segundo turno, Jair Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Trata-se de uma reprodução de uma situação que vem se agravando ao longo dos últimos anos. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Na última semana, as organizações de Direitos Humanos Justiça Global e Terra de Direitos divulgaram um levantamento que aponta que os casos de violência política e eleitoral neste ano aumentaram em 436% em relação a 2018: de 46 para 247. Ou seja, um episódio desse gênero é registrado a cada 26 horas no País. Essa apuração leva em consideração as ocorrências de atentados, ameaças, agressões, invasões e homicídios, como os do militante do PT em Foz de Iguaçu e guarda municipal Marcelo Arruda, que foi morto por um apoiador do atual presidente, no dia 9 de julho, quando comemorava o aniversário de 50 anos com uma festa temática alusiva a Lula. Em Itanhaém, logo após o primeiro turno, um apoiador do candidato petista matou a facadas um amigo bolsonarista e foi preso. Em depoimento, admitiu que houve uma discussão política antes do almoço que acabou descambando para luta corporal e, por fim, oito facadas que levaram a vítima à morte. O professor do Insper e cientista político Leandro Consentino afirmou que o País já vivia uma polarização política nos últimos anos entre PT e PSDB, mas hoje o cenário está muito mais acirrado, pois há duas concepções bem distintas de País e de democracia entre as partes. “São diferenças bastante agudas do ponto de vista daquilo que cada grupo pensa. Há uma dificuldade de tolerar e de dialogar com o outro lado. Essa é a marca fundamental desses tempos. Antes a polarização se dava no centro, o que não ocorre mais hoje”, justificou. Para o docente, o abandono da via do diálogo na política resulta nesse cenário mais violento nos tempos atuais. “Acredito essa situação não seja monopólio só de um lado (bolsonarista), embora ele esteja se apresentando mais agressivo neste momento. Já vimos militantes de esquerda usarem da violência. Não estamos falando só da violência física, mas também a verbal e a psicológica, que já foi adotada há algum tempo. Essa ideia de ‘nós contra eles’ já vem sendo estimulada pelo PT, que tem a sua responsabilidade neste aspecto”, explicou. Pontos importantes O professor de Ciência Política da Universidade Federal do Piauí (UFPI) Joscimar Silva acredita que o termo “polarização” empregado na política atualmente não seja o mais adequado, porque o que se vê, desde o pleito de 2018, é um estímulo de eliminação do outro a qualquer custo. Na avaliação do docente, a imprensa faz uma falsa equivalência no nível de radicalização e um alerta deve ser feito sobre os episódios que contribuíram para a escalada da violência evidenciada pelos números acima. “São casos de violência política que deveriam ser tratados como crimes políticos. Isso tem uma gravidade muito maior do que um assassinato, do que um crime comum, porque você precisa não só combater os infratores, mas também aqueles que motivam esses delitos”, frisou ele, que é diretor da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel). A cientista política e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Rosemary Segurado também concorda que a polarização não seja o termo ideal para se utilizar ao se referir à disputa presidencial. “A radicalização do debate desencadeia uma violência política muito grande, que vai desde assassinatos até mesmo ofensas por um grupo de apoiadores do presidente contra jornalistas, como vimos na última quarta-feira, em Aparecida do Norte, para deslegitimar o papel da imprensa”, destacou. Conforme a docente, a essência da democracia é a discussão de ideias, mas nunca houve uma disputa tão acirrada entre os apoiadores de candidatos ao Palácio do Planalto como agora. “As ações de uma liderança política se tornam uma influência positiva ou negativa para a população. Quando elas acompanham a agressividade na fala e na acusação de um presidente ao adversário, elas se sentem autorizadas a reproduzir esse tipo de comportamento. Isso pode resultar desde xingamentos até dar um tiro em outra pessoa”, desabafou. Redes sociaisOs cientistas políticos ouvidos por A Tribuna acreditam que as redes sociais ajudam a interditar o debate democrático. Afinal, os algoritmos, uma série de códigos baseados em inteligência artificial dessas plataformas, direcionam o usuário a assuntos e temas que o satisfaz com base nas próprias preferências. Para a professora da PUC-SP Rosemary Segurado, que é pesquisadora dessa área, essa situação favorece que a pessoa fique em uma “bolha” e não proporciona o contraditório ou abordagens diferentes para determinados temas. “Embora as autoridades tenham compreendido melhor esse processo e procurado dialogar com as plataformas nas eleições deste ano, não temos visto que essas medidas tenham tido efetividade. É preciso ter uma regulação dessas redes sobre os conteúdos compartilhados. Não se trata de censura, mas a liberdade de expressão não pode ser a liberdade de promover o linchamento de reputações, como vemos constantemente”, disse. Leandro Consentino, do Insper, entende que as redes sociais reforçam essa polarização por conta do chamado “viés de confirmação”, ou seja, cada vez mais as pessoas escutam e acompanham assuntos para confirmar os próprios pensamentos e crenças. “A forma como os algoritmos das redes sociais são construídos ajudam as pessoas a ficarem cada vez mais distantes de um efetivo debate democrático. O ideal seria expor as opiniões distintas para chegar a um consenso possível para determinadas questões”, destacou. Para o professor da UFPI Joscimar Silva, é preciso entender que a sociedade brasileira tem um viés conservador e violento, mas, a partir do momento que algumas lideranças política começam a legitimar e adotar esse tipo de discursos, os cidadãos se sentem autorizados a agir da mesma forma. “Essas ‘bolhas’ reafirmam e ajudam a radicalizar algumas posições, levando, inclusive, a prática da violência política. Elas também não se submetem ao controle legal, mas fazem uma ação própria. Muitas vezes, os administradores delas não entendem que determinadas situações são discurso de ódio”, afirmou. Caminho difícilA retomada do protagonismo dos partidos políticos no Brasil é um caminho difícil de ser trilhado na avaliação do professor de Ciência Política da UFPI Joscimar Silva. “O que percebemos é um aumento cada vez maior desse personalismo político. Antes a gente falava de uma briga por espaço entre PT e PSDB. Hoje, estamos vendo uma disputa entre bolsonarismo contra um partido institucionalizado, que é o PT”, justificou. Ele citou, ainda, que lideranças de agremiações consolidadas adotam discursos contra as siglas, o que faz com que elas recuem cada vez mais nessa conexão com os cidadãos e fica limitado apenas a essas disputas por poder. O docente de Ciência Política do Insper Leandro Consentino vê um momento paradoxal para as legendas. Se, por um lado, elas são fortes para organizar o jogo político, por outro, cada vez menos as pessoas não se sentem representadas por essas organizações. Essa situação apenas contribui para o personalismo na política do País. “As pesquisas mostram que o prestígio dessas instituições é cada vez menor junto à população. Por esse motivo, o surgimento de novos movimentos cívicos mostra que eles estão preenchendo um espaço que seria das siglas em promover as discussões dos problemas do Brasil”, disse. A docente da PUC-SP Rosemary Segurado explicou que as legendas, em todo o mundo, sofrem com descrédito junto à população. No caso do Brasil, essa situação é agravada pelo comportamento fisiológico de algumas lideranças. “O ápice dessa situação é o orçamento secreto do Congresso Nacional, no qual um parlamentar destina verbas a projetos ou áreas definidos por ele próprio. Isso ajuda a manter esses feudos eleitorais. É fundamental que os partidos realmente preocupados com a democracia ampliem e diversifiquem o diálogo com a população para a tomada de decisões”, ressaltou.