[[legacy_image_304469]] A resposta, leitor, é não. Ao menos para os artistas, que também são professores nas suas respectivas áreas, consultados por A Tribuna. Segundo sua experiência com centenas de alunos ao longo dos anos, o talento é a aptidão que se manifesta como uma facilidade de assimilação, provavelmente congênita, para determinada arte. Porém, todos são unânimes: apenas com talento, geralmente, não se vai muito longe. É preciso estudar e se aprimorar sempre. “O esforço supera o talento. Os que não têm muita facilidade, com dedicação, podem superar aqueles que têm essa facilidade”, analisa Carla Mariani, cantora há 15 anos e professora de canto há sete. “Muita gente que chega desafinada, depois de uns dois, três meses, consegue cantar no tom”. O contrário também pode ocorrer: há quem chegue afinado, com ótima percepção musical, mas, sem estudo, acaba perdendo a voz. Aí está o ‘pulo do gato’ no canto: é preciso aprender a usar a voz, a modulá-la e colocá-la de forma correta, de acordo com o que pede cada canção. “Quem tem ouvido apurado vai cantar bem, vai reproduzir corretamente, mas não quer dizer que será cantor ou cantora”. Ao final, a emoção é o fiel da balança, diz Carla. “Percebo que as pessoas talentosas carregam muito sentimento envolvido, há uma ligação profunda com a canção”. Tentativa e... acertoTalento não se aprende, já está lá, mas pode passar uma vida adormecido. “Quanta gente chega dizendo que não tem dom, não tem o jeito, até descobrir”, avalia a artista plástica Miriam Alvim. Aos 77 anos, pinta desde que nasceu – “toda criança pinta e desenha” –, mas considera-se artista há 63 anos, desde que viu “o primeiro quadro na parede”. Há 25 anos dando aulas de pintura, Miriam abraça a vertente impressionista, em que a reprodução da realidade é filtrada pelo olhar emocional do artista. O que é ter talento para a pintura? A definição é difícil, mas inclui facilidade de desenhar e de desenhar com os pincéis. “A pintura é um desenho no pincel. Sem noção, não adianta”, sentencia Miriam. Talento, no caso, se harmoniza com o estilo. Como exemplo, ela conta de um aluno que gostava de pintar aquarelas com figuras geométricas. “Ele retratava pontos de Santos nessas formas e você identificava de imediato quais eram”. Já o estudo complementa o talento ao fornecer bases teóricas sobre as cores e, sobretudo, sobre luz e sombra – o que permite ter plena consciência dos caminhos da pintura. “Eu, quando pintava ‘de cabeça’, cheguei a ganhar um prêmio”, recorda. “Mas acertei por acaso: quando comecei a estudar, percebi tudo o que fazia de errado”. Desespero da escrita“Desespero não se ensina: é escrever como se pensa, como se sente”, define o escritor, poeta e crítico Flávio Viegas Amoreira sobre o que é o talento literário. Flávio, que aos 58 anos tem 18 livros publicados, cita a catadora de papel que morou em favelas na Capital e se tornou escritora, Carolina Maria de Jesus, como um exemplo de talento. “Ela nasceu com o desespero da escrita”. Mas se o talento está ali desde o berço, precisa ser desenvolvido. Nesse caminho, não há milagre – só estudo e dedicação. “A técnica molda o talento. É preciso ler muito, e o escritor deve produzir ao menos 10 páginas por dia, mesmo que ele jogue fora depois”. Flávio garante que, em uma de suas oficinas literárias, o talentoso estará escrevendo o primeiro texto aproveitável em três meses. E quem não tem a facilidade nata pode vir a se tornar um escritor razoável se adotar a palavrinha mágica: dedicação. Seja como for, não é preciso pressa: a escrita pede e respira vida. A maioria dos grandes escritores só desabrocha depois da maturação do tempo. “O escritor começa quando o bailarino e o jogador de futebol já estão parando”. O sol chama, o boteco chamaA escrita ou, no caso, a toada, se repete entre aqueles que flertam com a música. “Talento é da pessoa: ela nasce com aquilo. Mas vi gente sem talento que rachava de estudar e, depois de um tempo, estava tocando bem”, resume o violonista e guitarrista Marcos Canduta. Desde os anos 1980, quando dava aulas no Clam (Centro Livre de Aprendizagem Musical), fundado pelo Zimbo Trio, mais de 500 almas passaram por sua palheta. Essa experiência lhe deu uma certeza curiosa: talento demais atrapalha quando não se tem disciplina. “O sol chama, o boteco chama, o futebol chama. O sujeito acha que já é bom e não vai sentar para estudar”. Há as exceções. Canduta conta de um juiz que chegou para sua primeira aula de violão. De cara, tocou um chorinho à la Astor Piazzola. “Eu perguntei: ‘o que você está fazendo aqui?’. Ele respondeu: ‘eu coloco a mão (no violão) e sai, mas eu não sei o que eu estou fazendo”. O talento está na mente?O cérebro funciona como uma orquestra – mas sem talento à vista. “O mais complexo de analisar é a arte e a criatividade. Isso ainda é especulação”, afirma o neurocirurgião e escritor Edson Amâncio. Sabe-se apenas haver áreas do cérebro que, uma vez acionadas, podem desenvolver determinadas aptidões. Por exemplo, alguém que fale três línguas, terá mais conexões, portanto, mais recursos cerebrais. Da mesma forma, o aprendizado de um instrumento – com ou sem talento – criará outras tantas conexões. Mas, de acordo com cada atividade ou prática, uma área específica do cérebro é acionada, segundo o que é medido por ressonância magnética funcional. “Se você ouve uma música, estimula uma área. Quando se conversa com o sujeito, estimula outra. Mas dê um texto, o cérebro inteiro acende. A leitura é o melhor estímulo para a memória”. Seria, então, o talento um atributo da alma – na hipótese de existir uma alma? “Uma explicação materialista, hoje, com nossos recursos, não é possível”.