Deborah Cunha, Thaynara Moraes, Vanessa Toledo, Kinho Font e Thayssa Nusa (Yara Tomei) Sonhar inspira. Move. Dá direção. Mas entre imaginar e sustentar existe um caminho menos bonito e muito mais real: o dos bastidores, das negativas, das comparações, das dúvidas internas, da necessidade de se posicionar e, principalmente, da coragem de continuar mesmo quando o retorno não vem no tempo esperado. No episódio desta semana, o Tricotáh reuniu Vanessa Toledo, Deborah Cunha, Thaynara Moraes, Thayssa Nusa e o convidado Kinho Font para uma conversa sobre realização, frustração, validação, mercado, estratégia e persistência. Mais do que falar sobre sonhos, o programa propôs um olhar sobre o que acontece quando o sonho encontra a vida real. Entre o sonho e a realidade existe sustentação Logo no início da conversa, Kinho Font trouxe uma lembrança que ajuda a entender como muitos sonhos nascem: ainda criança, no quarto dos avós, ele já criava mentalmente seu próprio programa de televisão. O impulso estava ali desde cedo. Mas isso não significava que o caminho seria simples. Ao relembrar sua trajetória, ele expôs uma dimensão pouco romantizada da comunicação. Gostar do que se faz não elimina inseguranças, nem dispensa estudo, amadurecimento e construção. Entre o início e o momento atual, houve tentativa, pausa, recomeço, autocrítica e persistência. Mas talvez o ponto mais importante esteja na virada de percepção ao longo do caminho. Se no começo o sonho vinha carregado de idealização, como reconhecimento e visibilidade, com o tempo ele ganhou uma camada mais concreta: viver daquilo que se faz. Não se trata apenas de ser visto. Trata-se de sustentar a própria vida. Ao longo da trajetória, ele percebeu que o mercado não compra sonhos, compra entregas. A história pode ser bonita, pode emocionar, mas sozinha não constrói carreira, não gera contratação e não paga contas. Existe uma diferença clara entre ter um sonho e transformar esse sonho em trabalho. E quando essa virada acontece, outras perguntas passam a fazer parte do processo: como gerar valor, como se posicionar e como transformar aquilo que se ama em algo viável, consistente e sustentável. Kinho Font (Yara Tomei) Validação importa, mas não pode virar prisão Um dos pontos trazidos para a conversa foi a validação externa sem cair nem no desprezo pelo olhar do outro, nem na dependência absoluta dele. Deborah trouxe uma reflexão importante ao lembrar que não basta acreditar sozinho que aquilo que se faz é bom. Existe uma utilidade real no encontro com o outro. Se ninguém se conecta, alguma coisa precisa ser ajustada. Thayssa Nusa levantou uma questão central para essa discussão: ser bom para quem, exatamente? Sem essa clareza, qualquer opinião pesa demais e qualquer comparação desorganiza. Quando não se define público, propósito e direção, a validação vira ruído. E é nesse cenário que muitas pessoas se perdem, tentando agradar a todos e, no fim, não se conectando com ninguém de forma consistente. A partir do momento em que existe definição, a validação deixa de ser uma necessidade emocional e passa a ser um indicador estratégico: importa menos o volume de aprovação e mais de onde ela vem. A internet vende facilidade, mas esconde estrutura Outro eixo forte da conversa foi a crítica à fantasia do sucesso rápido. As redes sociais transformaram rotina em vitrine e, com isso, venderam para muita gente a ideia de que visibilidade é sinônimo de solidez. A promessa parece simples: mostrar o dia, postar a rotina, aparecer bastante e esperar reconhecimento. Mas a prática é outra. Há estudo, tentativa, rejeição, reposicionamento, trabalho invisível, tempo e investimento. Há também frustração, ansiedade e a sensação de insuficiência quando a vida real não corresponde à estética do digital. Thayssa foi precisa ao lembrar que esse mesmo raciocínio aparece também no discurso sobre dinheiro. A noção de que riqueza depende apenas de esforço individual simplifica demais realidades complexas e gera culpa em quem não alcança determinados resultados. O problema não é apenas vender sonho. É vender atalho como se fosse regra. Comparação paralisa, estratégia direciona Outro ponto eixo do programa, foi a comparação. Vanessa compartilhou como, por muito tempo, se mediu pela régua do outro: olhava para pessoas ocupando espaços que ela acreditava ser capaz de ocupar melhor e se perguntava por que aquilo ainda não tinha acontecido para ela. A resposta que apareceu ao longo da conversa foi madura: talento, sozinho, não explica tudo. Existe estratégia. Existe contexto. Existe timing. Existe oportunidade. Existe rede. Existe também o fato incômodo de que, muitas vezes, pessoas menos preparadas conseguem chegar primeiro por uma combinação de fatores que foge da lógica meritocrática pura. Isso não invalida o mérito de ninguém, mas muda o foco. Em vez de gastar energia tentando entender por que o outro conseguiu, talvez seja mais produtivo olhar para o próprio caminho, ajustar a rota e seguir em movimento. Comparação excessiva consome energia. Estratégia organiza. Saber dizer não também faz parte do crescimento Na segunda parte do programa, a conversa seguiu para um ponto delicado e muito importante: os nãos que recebemos e os nãos que aprendemos a dar. Kinho falou sobre o processo de maturidade necessário para deixar de aceitar tudo apenas pela necessidade de ser visto. Deborah trouxe a perspectiva do valor construído ao longo do tempo: quem chegou lá atrás pagou, muitas vezes, para ver um serviço ainda em desenvolvimento. Depois de anos de experiência, estudo e mercado, o valor é outro, e isso precisa ser reconhecido. Thaynara aprofundou a discussão ao conectar o “não” à construção de imagem e posicionamento. Nem toda oportunidade faz sentido para o momento, para o público ou para o caminho que se quer construir. Existe uma diferença entre estar em todos os lugares e estar nos lugares certos. Para ela, mais do que recusar convites, trata-se de coerência. Quando não há clareza sobre onde se quer chegar, qualquer convite parece oportunidade. Mas, quando existe direção, o filtro se torna inevitável. Saber onde estar passa, necessariamente, por entender onde não estar. Thayssa, por sua vez, trouxe uma fala muito honesta sobre a dificuldade de negar propostas, especialmente quando o trabalho está ligado à sensação de gratidão, merecimento e medo de perder oportunidades. O programa foi muito feliz ao não tratar o “não” como frieza, mas como posicionamento. Há formas maduras, gentis e firmes de preservar portas abertas sem desvalorizar o próprio trabalho. Bastidores também têm peso, silêncio e resistência Talvez um dos momentos mais intensos do episódio tenha sido quando a conversa entrou nos bastidores da comunicação. Kinho trouxe à tona um lado pouco mostrado desse universo. Para além das câmeras, dos conteúdos e da exposição, existe uma realidade marcada por desafios que não aparecem na versão final: desvalorização, ego, disputas e relações nem sempre saudáveis. Em muitos contextos, não se trata apenas de fazer bem o próprio trabalho, mas de lidar com ambientes em que há quem precise reafirmar poder o tempo todo. Situações em que o outro é testado, diminuído ou colocado à prova, não pelo que entrega, mas pelo lugar que ocupa. Ao relatar experiências em que foi desmerecido enquanto tentava fazer seu trabalho, ele tocou em um ponto profundo: continuar, muitas vezes, não é um gesto romântico. É um gesto de insistência quase diária diante de uma realidade dura. E essa dureza não aparece no vídeo pronto, na foto bonita ou no conteúdo publicado. Propósito não paga conta. Mas trabalho precisa pagar. A conversa também trouxe um ponto sensível: a relação entre propósito e dinheiro. Existe uma tendência de romantizar o fazer por amor, como se falar sobre remuneração diminuísse o valor do trabalho. Mas, na prática, não existe construção sustentável sem retorno. Propósito não paga conta sozinho. E mais do que isso: a forma mais concreta de alguém valorizar o que você faz é pagando por isso. Ao longo do episódio, ficou evidente que ainda existe um desconforto em assumir que trabalho precisa ser remunerado. Como se cobrar fosse, de alguma forma, errado ou excessivo. Mas não é. Se é trabalho, precisa sustentar. É nesse cenário que surge um dos momentos mais silenciosos da trajetória: o chamado “platô”. A fase em que se faz muito, se entrega, se movimenta, é visto, é elogiado, mas nada parece, de fato, avançar. Portas se abrem, mas não se convertem. O reconhecimento vem, mas não se materializa. E surge a pergunta inevitável: o que mais eu preciso fazer? Esse momento não aparece no início, quando tudo ainda é tentativa. Ele chega depois, quando já existe trajetória, presença e esforço consistente. E talvez o maior desconforto esteja exatamente aí: perceber que fazer mais do mesmo já não é suficiente. Criar oportunidades é parte do caminho O encerramento trouxe talvez uma das provocações mais fortes do episódio: as oportunidades estão sendo esperadas ou criadas? Vanessa lembrou que muitos espaços não vieram por acaso. Vieram porque houve movimento, iniciativa, proposta, insistência e presença. Thaynara reforçou essa leitura ao falar sobre a necessidade de circular, aparecer, apresentar projetos e fazer conexões. Deborah acrescentou a vivência de quem saiu de uma estabilidade anterior e precisou aprender, na prática, que ninguém construiria o caminho por ela. Kinho reconheceu que ainda está aprendendo a ser mais intencional, especialmente depois de tantas negativas recentes. E foi justamente aí que surgiu uma das frases mais fortes do programa: ser intencional não é ser mal-intencionado. Talvez essa seja uma das melhores sínteses do episódio. Sonho sem intenção vira abstração. Intenção sem movimento vira discurso. Sustentação exige clareza, estratégia e ação. Deborah Cunha, Thaynara Moraes, Vanessa Toledo, Kinho Font e Thayssa Nusa (Yara Tomei) Pra guardar na caixinha Visibilidade não é crescimento. Oportunidade não é avanço. Nem todo esforço vira retorno no tempo que a gente espera. E tudo bem. Porque entre sonhar e sustentar existe escolha: escolher onde estar, onde não estar e, principalmente, como continuar. Não é sobre fazer mais. É sobre fazer com intenção, direção e consistência. Sonho inspira. Mas o que sustenta é clareza, posicionamento, estratégia e coragem para continuar quando o retorno ainda não chegou. Onde assistir O episódio completo está disponível no YouTube. Toda terça-feira, às 19h, tem episódio inédito do Tricotáh com novos temas, conversas profundas e convidados especiais. Link: https://youtu.be/bynuT1zdMfA?si=5_r4ldHc00EkOxNd