Thais Campreguer, Luciana Kirsten, Vanessa Toledo, Juliana Stivaletti e Mithra Cherici (Yara Tomei) Falar sobre saúde da mulher ainda é, em muitos espaços, um exercício de ruptura, não porque faltem pesquisas ou recursos. Mas porque, historicamente, faltou escuta. Durante décadas, sintomas foram minimizados, dores foram normalizadas e fases inteiras da vida feminina foram tratadas como exagero, drama ou inevitabilidade. No episódio desta semana, o Tricotáh construiu algo mais raro do que parece: uma conversa honesta, técnica e sensível ao mesmo tempo. Ao lado de Vanessa Toledo, reuniram-se a cirurgiã dentista Dra. Thaís Kampreger, a médica integrativa Dra. Mithra Cherici, a nutricionista Dra. Luciana Kirsten e a ginecologista convidada Dra. Juliana Stivaletti, compondo um olhar multidisciplinar que reconhece o óbvio: o corpo feminino não funciona por partes. Ele é sistema. É ciclo. É transição. E quando muda, não pede julgamento. Pede compreensão. Porque o corpo feminino não adoece de repente. Ele comunica. Ele adapta. Ele alerta. A pergunta que ficou no ar não foi apenas médica. Foi cultural: Estamos, de fato, preparadas para escutar o que ele diz? Prevenção não começa na doença, começa na cultura Logo no início da conversa, cada especialista trouxe o olhar da sua área para mostrar que o cuidado com a mulher não pode ser fragmentado. Ele atravessa fases, sistemas e contextos. A Dra. Juliana Stivaletti estabeleceu um ponto central: prevenção não é resposta à doença. É formação. Levar uma menina ao ginecologista não significa antecipar exames ou constrangimentos. Muitas vezes, a primeira consulta é apenas conversa. É construção de vínculo. É oferecer um espaço seguro onde aquela criança ou adolescente possa entender o próprio corpo sem medo e sem vergonha. E há um ponto delicado que atravessou a conversa: quantas mulheres adultas ainda carregam memórias desconfortáveis da primeira consulta? Quantas aprenderam sobre sexualidade com amigas, irmãs ou informações fragmentadas, cheias de equívocos? A geração atual tem algo diferente: acesso. Mas acesso não é sinônimo de entendimento. Informação em excesso também confunde. É por isso que a consulta deixa de ser apenas um ato médico e se torna uma porta de entrada. Porta para orientação, para autonomia e, em alguns casos, até para revelações importantes, como situações de abuso que não encontraram espaço de escuta dentro de casa. O episódio também ampliou o olhar para os meninos. Enquanto existe uma cultura mais consolidada de levar meninas ao ginecologista, muitos adolescentes do sexo masculino ficam sem acompanhamento estruturado após deixarem o pediatra. Nesse momento, o hebiatra cumpre um papel fundamental no cuidado dessa transição. Prevenção, portanto, não é apenas sobre corpo. É sobre educação. É sobre segurança. É sobre consciência construída desde cedo. Quem ensina o corpo a ser entendido? Em meio à conversa sobre prevenção, a Dra. Juliana trouxe um ponto que desloca o debate do consultório para a sociedade: a ausência de educação sexual estruturada nas escolas. Porque, se não é a escola, é quem? Os adolescentes estão expostos. À internet, aos estímulos visuais, às redes sociais, às narrativas que misturam informação e espetáculo. O acesso é ilimitado. A mediação, não. Quando o aprendizado sobre sexualidade acontece apenas entre amigos, em vídeos soltos ou em buscas solitárias, ele chega fragmentado, distorcido ou até traumático. Educação sexual não é incentivo. É contexto. É responsabilidade compartilhada. É ensinar sobre corpo, prevenção, limites, consentimento, métodos contraceptivos e infecções sexualmente transmissíveis antes que o medo ou a desinformação ocupem esse espaço. É também aliviar um peso histórico colocado exclusivamente nas famílias, muitas vezes igualmente despreparadas para conduzir essas conversas. Se a proposta é cultura de prevenção, ela precisa começar onde os jovens estão. Juliana Stivaletti (Yara Tomei) A transição hormonal não é drama, é biologia A mulher atravessa fases marcadas por transições hormonais intensas. Adolescência, gestação, menopausa. Cada uma delas altera o corpo e o comportamento de forma real, mensurável e fisiológica. Não é exagero. É biologia. Hormônios possuem receptores espalhados por todo o organismo. Eles influenciam emoções, memória, libido, composição corporal e até o risco de doenças cardiovasculares e metabólicas após a menopausa. Quando essa orquestra começa a mudar o ritmo, o impacto é sistêmico. Talvez uma das reflexões mais potentes do episódio tenha sido a mudança de perspectiva sobre a menopausa. Se a expectativa de vida ultrapassa os 80 anos e a menopausa acontece por volta dos 50, estamos falando de décadas vivendo em uma nova configuração hormonal. Um terço da vida. O que se encerra é a fase reprodutiva. Mas a fase produtiva pode estar no auge. O problema não é a transição. É atravessá-la sem orientação. Energia não é luxo, é base Entre as queixas mais recorrentes no consultório, segundo a Dra. Mithra Cherici, está a falta de disposição. Não apenas cansaço pontual, mas a sensação de não reconhecer o próprio ritmo, a própria clareza mental. Na abordagem integrativa, antes de pensar em qualquer intervenção hormonal, é necessário olhar para o terreno. Movimento regular, alimentação com perfil anti-inflamatório, qualidade do sono e saúde intestinal são pilares que sustentam a resposta hormonal. Porque hormônio não age isoladamente. Ele depende de receptores funcionais, de um organismo menos inflamado, de um corpo preparado para responder. Sem base, qualquer estratégia se torna temporária. Reposição hormonal: avanços e responsabilidade Isso não significa que a terapia hormonal não tenha seu papel. Pelo contrário. Os avanços das últimas décadas ampliaram o arsenal terapêutico, reduziram riscos e tornaram os protocolos mais individualizados. Hoje, a reposição pode ser transformadora para mulheres altamente sintomáticas. Mas ela não é fórmula universal. A transição pode começar antes dos 50. Alterações de ciclo, intensificação da TPM, oscilações de humor e distúrbios do sono podem surgir ainda na perimenopausa, muitas vezes confundidos com estresse ou excesso de trabalho. Identificar esses sinais precocemente permite uma condução mais equilibrada, sem esperar o “colapso” para buscar ajuda. O cuidado não está em escolher entre hormônio ou estilo de vida, está em compreender que a mulher precisa de abordagem integrada. Intestino, inflamação e modulação: o que o prato tem a ver com hormônio? Ao falar sobre transição hormonal, a nutricionista Dra. Luciana Kirsten trouxe um ponto que muda o eixo da conversa: não é possível discutir menopausa sem falar de metabolismo e saúde intestinal. Os hormônios passam pelo intestino. E um intestino inflamado altera a forma como esses hormônios são metabolizados. Isso significa que alimentação não é detalhe. É ferramenta. Uma dieta com perfil anti-inflamatório pode modular sintomas, reduzir desconfortos e melhorar a resposta do organismo, inclusive antes da introdução de terapia hormonal. Mais do que restrição, trata-se de estratégia. Movimento, hidratação, pausa digestiva adequada, sono regulado. O básico bem feito cria um ambiente interno mais favorável. Porque quando o terreno melhora, o corpo responde melhor. Libido, ressecamento e relacionamento: o que muda e por que isso precisa ser falado Quando o assunto é menopausa, quase sempre a primeira associação é libido. Mas reduzir desejo sexual a um único hormônio é simplificar demais uma experiência complexa. A libido é multifatorial. Sono fragmentado, fadiga crônica, estresse, insegurança corporal, dinâmica conjugal e saúde emocional interferem diretamente no desejo. A oscilação hormonal pode ser o gatilho, mas raramente é o único fator. Outro ponto importante levantado foi a diferença entre desejo e resposta sexual. Há mulheres que mantêm lubrificação e orgasmo, mesmo com redução de desejo. Outras passam a apresentar ressecamento vaginal e dor na relação, o que naturalmente leva ao afastamento sexual. E é nesse momento que o silêncio começa a gerar ruídos. Parceiros podem interpretar como rejeição. A mulher pode interpretar como perda. Quando a conversa não acontece, a distância cresce. Durante o episódio, ficou claro que os homens não atravessam essa montanha-russa hormonal. Eles não sentem a oscilação neuroquímica, a névoa mental, a insônia das três da manhã, o calor súbito, a mudança corporal. E justamente por não sentirem, muitas vezes não compreendem. Por isso, “chamar junto” não é detalhe. É estratégia. Trazer o parceiro para a consulta. Compartilhar informação. Explicar o que está acontecendo. Transformar a transição em algo vivido a dois e não em um problema isolado da mulher. A menopausa não impacta apenas o corpo feminino. Ela reorganiza a dinâmica da casa. Compreender isso em conjunto transforma conflito em parceria. E talvez aqui esteja um dos pontos mais delicados: aceitar que o corpo muda sem associar essa mudança à perda de valor, feminilidade ou potência. A menopausa não é o fim do desejo. Mas pode ser o início de uma nova forma de vivê-lo. Equipe multidisciplinar: a mulher não precisa atravessar isso sozinha Uma mensagem forte ficou clara: cuidado isolado é limitado. A saúde da mulher não se resolve em uma única especialidade. Ela exige diálogo entre áreas, integração de saberes e acompanhamento contínuo. Ginecologia, nutrição, atividade física, medicina integrativa, apoio emocional. Quando esses pilares caminham juntos, o impacto é mais consistente e sustentável. Porque o corpo feminino não funciona por compartimentos. Ele responde como sistema. E tratar sistema exige visão ampliada. Pra guardar na caixinha Prevenção não começa na dor. Começa na formação. A transição hormonal não é drama. É biologia. Menopausa não é fim. É fase. Formar meninas informadas é formar mulheres que não aceitam o sofrimento como regra. E escutar o próprio corpo não é excesso de cuidado. É maturidade. Thais Campreguer, Luciana Kirsten, Vanessa Toledo, Juliana Stivaletti e Mithra Cherici (Yara Tomei) Energia do mês: leitura com Mah Ocroch Na primeira terça-feira do mês, Mah trouxe uma mensagem que dialoga profundamente com o tema do programa. A carta da Bússola fala de direção. Recalcular rota. Revisar planos. Olhar para o que já não faz sentido. Mercúrio Retrógrado convida à revisão. O Ano Novo Astrológico em 21 de março marca reinício. E talvez isso ecoe com o que foi falado ao longo do episódio: O corpo feminino vive ciclos. A vida também. Respeitar o tempo. Não forçar o que já passou. E ter coragem de ajustar caminho. Mah Ocroch (Yara Tomei) Onde assistir O Tricotáh vai ao ar semanalmente, todas as terças, com convidadas, convidados e as tricoteiras do programa. Acompanhe também os bastidores e conteúdos nas redes sociais oficiais do Tricotáh. Link do youtube: https://youtu.be/RrOr_AkREnM?si=MChsmqlcbIrnKfRJ