Anatercia Romano, Luciana Kirsten, Vanessa Toledo, Bárbara Hütter, Valéria Teixeira (Yara Tomei) Uma nutricionista abre uma clínica. Uma advogada monta o próprio escritório. Uma arquiteta começa a conquistar mais clientes. O negócio cresce e, com ele, chegam decisões que pouco têm a ver com aquilo que esses profissionais aprenderam a fazer: contratar, delegar, precificar, organizar processos, liderar pessoas e acompanhar resultados. É nesse ponto que ser bom tecnicamente já não basta. O crescimento exige uma mudança de papel: além de executar, é preciso aprender a gerir. Esse foi o tema do Tricotáh desta semana, apresentado por Vanessa Toledo, com as tricoteiras Anatercia Romano, Luciana Kirsten e Valéria Teixeira e a participação de Bárbara Hütter Reis, sócia da Zaros Escola de Negócios, unidade Santos. A experiência dela no desenvolvimento de empresários, gestores e equipes ajudou a colocar a discussão no eixo da vida real: os desafios que aparecem quando o negócio cresce e quem está à frente dele precisa crescer junto. Quando o profissional vira empresário Bárbara conhece essa mudança de perspectiva também pela própria trajetória. Começou a liderar aos 19 anos, quando já tinha 12 pessoas sob sua responsabilidade, algumas mais velhas do que ela. A experiência a levou a estudar comportamento e gestão e abriu caminho para uma carreira construída entre liderança, vendas e desenvolvimento de pessoas. Há quatro anos, está à frente da unidade santista da Zaros. Hoje, ao acompanhar empresários e profissionais, ela encontra com frequência a chamada “dor do crescimento”: o momento em que aquilo que começou apoiado principalmente no conhecimento técnico ganha outra dimensão. “Normalmente, a pessoa é técnica do que ela faz. Ela é um mecânico, ela é uma costureira ou ela é uma boleira. Começa a fazer acontecer e a coisa começa a crescer.” Só que o crescimento traz uma nova lista de responsabilidades. É preciso entender fluxo de caixa, precificação, contratação, processos, impostos, vendas e gestão de equipe. “Aí cai a ficha que ela não domina todas as áreas”, explicou Bárbara. Anatercia Romano reconheceu essa virada na própria trajetória. Quando o escritório de advocacia cresceu e passou a exigir contratação e organização de fluxos, percebeu que já não bastava cuidar dos processos jurídicos e dos clientes. “Aí a gente viu a necessidade de ter gestão, de falar assim: ‘Peraí, a gente é uma empresa’.” É nessa passagem que Bárbara concentra boa parte de seu trabalho. À frente da Zaros Escola de Negócios em Santos, atua no desenvolvimento de empresários, gestores e líderes, reunindo gestão, estratégia, comunicação, vendas e comportamento. A escola oferece programas de formação, treinamentos e consultorias voltados tanto a quem está começando a empreender quanto a gestores que já conduzem negócios estruturados. A proposta é trabalhar com a realidade de cada empresa. No programa, Bárbara diferenciou o conhecimento aplicável daqueles modelos que muitas vezes estão distantes da rotina de quem empreende: “Eu não vou falar aqui de programas e conteúdos que falam que funciona lá na Apple. Não. Funciona na empresa dessa pessoa, a realidade dela, vida real, situações reais.” Bárbara Hütter (Yara Tomei) O desafio de gerir pessoas Entre as dificuldades que encontra nas empresas, Bárbara coloca a gestão de pessoas no topo da lista. E não limita o conceito à relação entre chefe e funcionário. “Gerir pessoas é todo mundo. É o cliente, é o fornecedor, é o parceiro, uma negociação. Então, se você não é bom com a tua equipe, você não é bom com ninguém. Negócios são feitos de pessoas.” Para ela, parte do problema começa antes mesmo da contratação. Há empresas que não deixam claros seus valores, processos ou aquilo que esperam de cada função, mas cobram do colaborador um comportamento que nunca foi devidamente orientado. Um exemplo surgiu de uma consultoria feita em uma clínica de estética. A empresária estava incomodada com a roupa usada pela recepcionista e não sabia como agir. A primeira pergunta de Bárbara foi simples: havia um dress code definido? Não havia. O que parece óbvio para quem administra nem sempre foi comunicado a quem executa. O mesmo vale para tarefas, limites e responsabilidades. “Como é que você vai cobrar alguém de alguma coisa se a pessoa não sabe o que deve ser feito?”, questionou. Delegar também exige olhar para si Luciana Kirsten levou a discussão para a própria experiência como gestora. Durante muito tempo, centralizava desde a emissão de notas fiscais até o atendimento aos pacientes. A mudança começou quando buscou ajuda para mapear os processos da clínica e entender de quem realmente precisava na equipe. A melhor surpresa veio depois: perceber que outra pessoa conseguia executar determinadas tarefas melhor do que ela. “Para mim, foi libertador”, contou. Bárbara chamou atenção para uma camada menos evidente dessa dificuldade. Nem sempre centralizar é apenas falta de organização. Pode existir também uma questão comportamental por trás da necessidade de controlar tudo. “Centralizar também é um poder”, pontuou. Por isso, seu trabalho une ferramentas de gestão e desenvolvimento comportamental. A ideia é que autoconhecimento, comunicação e autorresponsabilidade não sejam tratados como assuntos separados da performance. “Não adianta entregar uma ferramenta de planejamento para alguém que não consegue executar. Não adianta falar de liderança sem trabalhar autoconhecimento, comunicação e responsabilidade.” A estrategista em Inteligência Artificial Valéria Teixeira conhece essa proposta também como aluna. Ao deixar o serviço público e começar a estruturar a própria empresa, entrou no Quiron ainda no primeiro mês do negócio. “Foi um divisor de águas na minha vida. Eu falo que não é só uma mudança na empresa, é uma mudança também em como você se enxerga como empresário.” Bárbara Hütter (Yara Tomei) Cobrar aquilo que nunca foi ensinado Nem sempre o problema está em quem executa. Anatercia contou que se irritava ao precisar corrigir repetidamente os mesmos erros em peças produzidas pela equipe do escritório. Até perceber um detalhe: fazia as alterações, mas não explicava o que havia sido corrigido. “Não é ela que está errada, eu que estou errada.” Bárbara identificou ali a autorresponsabilidade que procura trabalhar com gestores. Sem retorno, a profissional sequer sabia que estava repetindo um erro. Uma conversa poderia interromper um ciclo de correções e frustração dos dois lados. Cobrar resultado exige antes criar condições para que ele aconteça. Isso passa por processos claros, contratação adequada, treinamento, feedback e compreensão de que pessoas diferentes também respondem de maneiras diferentes à liderança. Para Bárbara, conhecimento torna esse processo mais consciente e reduz erros. Não elimina a cobrança nem a responsabilidade individual, mas dá ao gestor mais recursos para entender o que está acontecendo antes de concluir simplesmente que alguém “não funciona”. Faturar mais é crescer? Vanessa colocou uma escolha na mesa: afinal, qual indicador mostra que uma empresa realmente está crescendo? Faturamento, lucro, clientes, processos ou pessoas? Bárbara não hesitou em relativizar justamente o número que costuma ganhar mais destaque. “O faturamento é só ego, na minha opinião.” A provocação não significa ignorar receita, mas olhar além dela. Uma empresa pode faturar mais sem necessariamente aumentar sua rentabilidade. Para Bárbara, lucro, processos e pessoas ajudam a revelar melhor a saúde do negócio. Às vezes, o avanço está em corrigir custos, reorganizar uma equipe ou redesenhar um processo sem alterar o faturamento. A experiência acumulada ao acompanhar empresas em diferentes estágios também orienta o momento atual de Bárbara à frente da Zaros Santos. A unidade passa por uma fase de fortalecimento e expansão, com novas formações e experiências voltadas à gestão, liderança, comunicação, vendas e desenvolvimento humano. Mais do que transmitir ferramentas, ela busca transformar conhecimento em algo aplicável à rotina. “Meu papel hoje vai muito além de conduzir uma escola. Estou constantemente olhando para o mercado, entendendo as dores dos empresários e pensando em como transformar conhecimento em ferramentas que realmente façam diferença na rotina dessas pessoas.” Anatercia Romano, Luciana Kirsten, Vanessa Toledo, Bárbara Hütter, Valéria Teixeira (Yara Tomei) Pra guardar na caixinha Nem todo problema de desempenho começa em quem executa. Às vezes, falta processo, direção, feedback ou clareza de quem lidera. Crescer também exige perceber quando aquilo que trouxe o negócio até aqui já não é suficiente para levá-lo adiante. E aprender a gerir passa, inevitavelmente, por aprender a lidar com pessoas. Onde assistir O Tricotáh tem episódios inéditos às terças-feiras, às 19h, no YouTube. Link do youtube: https://www.youtube.com/watch?v=zRjIW7PjrTI