Thaynara Moraes, Mithra Cherici, Vanessa Toledo, Marcio Montagnani, Deborah Cunha (Yara Tomei) Um currículo pode abrir uma porta. Mantê-la aberta é outra história. Para Marcio Montagnani, o que sustenta uma trajetória profissional não cabe apenas na relação de cargos, cursos ou competências. “Reputação é o maior capital do ser humano”, afirma. Quando conhecimento pode ser acessado em segundos e ferramentas de inteligência artificial já fazem parte da rotina de diferentes negócios, ganham peso justamente os ativos que não podem ser obtidos com a mesma velocidade: experiência, pensamento crítico, confiança e relações construídas ao longo do tempo. Executivo e empreendedor especializado no desenvolvimento de ecossistemas de negócios no mercado de tecnologia, Marcio foi o convidado do Tricotáh desta semana. Diretor de Portfólio e Novos Negócios do Biz Group e vice-presidente de Eventos da SUCESU-SP, ele esteve com Vanessa Toledo e as tricoteiras Deborah Cunha, Thaynara Moraes e Mithra Cherici. O que sustenta uma trajetória Marcio entrou no universo de telecomunicações e tecnologia aos 14 anos e, aos 22, já ocupava uma posição de gestão em uma empresa americana do setor. Aos 23, mudou de direção e deixou a tecnologia para seguir a música. A carreira artística abriu outra frente profissional. Ao perceber o potencial das marcas associadas aos artistas, ele se especializou em licenciamento e passou a atuar também como empreendedor. Anos depois, de volta à tecnologia, levou parte desse repertório para a construção de ecossistemas de negócios. Foi no meio artístico que começou a observar de perto o valor de uma marca pessoal. “Eu aprendi que reputação é o maior capital do ser humano. Currículos muitas vezes abrem portas, mas o que mantém essas portas abertas é a reputação.” Reputação exige coerência entre quem se é, onde se quer chegar e a forma de se comunicar. “Nenhuma inverdade se sustenta a longo prazo.” Contato não é conexão Ter milhares de pessoas em uma rede profissional pode impressionar no número. Na prática, diz pouco sobre a qualidade dessas relações. “Contato não é conexão”, resume Marcio. No mercado de tecnologia, negociações de alto valor podem levar oito ou nove meses. Uma troca de cartões ou um encontro isolado dificilmente constrói a confiança necessária para uma decisão complexa. Deborah trouxe uma distinção que vale para qualquer ambiente de networking: ser interessada é diferente de ser interesseira. “Você não tem que ir lá só para receber. Você tem que dar. Você vai dar o seu tempo, você vai dar a sua opinião, você vai dar a sua visão”, afirmou. É uma lógica próxima daquela usada por Marcio na formação de ecossistemas: não basta colocar muita gente no mesmo espaço, é preciso reunir quem tenha razões para estar ali. “Quando eu falo entregar valor, é exatamente isso. Você ter as pessoas certas, no lugar certo, no momento certo para resolver problemas de verdade.” Quando o B.O. também entra na conversa O sucesso costuma ser mais fácil de compartilhar do que aquilo que deu errado. Nas redes sociais, nos eventos e nas conversas profissionais, sobram resultados para mostrar enquanto os problemas ainda sem solução ficam guardados. Mas quem senta para falar do “B.O. de verdade”? Da dificuldade que ainda existe, do projeto que não funcionou ou da decisão que não produziu o resultado esperado? Entre executivos de tecnologia, existe ainda outra barreira. Determinadas experiências não podem ser expostas publicamente por questões estratégicas, éticas ou de compliance. Marcio Montagnani (Yara Tomei) Quando a resposta está a um clique, pensar faz diferença A inteligência artificial colocou uma quantidade extraordinária de conhecimento ao alcance de qualquer pessoa. Isso não eliminou, porém, a distância entre informação e sabedoria. Mithra fez essa distinção ao lembrar que a IA pode reunir conhecimento, mas não carrega a experiência necessária para individualizar sua aplicação. Marcio chamou atenção para outro efeito da facilidade de acesso: também ficou mais simples consumir e reproduzir conteúdos rasos. “Nada substitui a experiência. A maior fonte de sabedoria é a experiência. Então, quanto mais acesso a conteúdos, mais cuidado você tem que ter”, disse. Isso não significa resistência à inteligência artificial. Marcio lembra uma máxima repetida no setor: “Você não vai perder seu emprego para a IA, mas para alguém que conhece IA.” Na leitura que faz do mercado, a tecnologia estará entre as grandes pautas das empresas nos próximos cinco anos. Mais do que dominar uma ferramenta específica, será necessário compreender como aplicá-la aos problemas de cada negócio. Quando Vanessa perguntou qual habilidade será indispensável no futuro, Deborah Cunha resumiu em um verbo: pensar. A discussão passou pelo senso crítico, pela capacidade de questionar respostas prontas e pelo risco de terceirizar para uma ferramenta um exercício que continua sendo humano. Marcio acrescentou outra habilidade que, em sua visão, tende a ganhar importância justamente porque o mundo está mais tecnológico. “O líder do futuro, fica pensando qual vai ser a principal habilidade? A pessoa que vai conhecer mais de IA? Não, você vai ter IAs que conheçam de IA. Então as pessoas precisam conhecer mais de pessoas, mais de conexões.” Experiência ou capacidade de aprender? Para colocar experiência e capacidade de adaptação frente a frente, Vanessa propôs um dilema. Uma empresa entrando em um mercado completamente novo precisava escolher alguém para uma posição estratégica. De um lado, um profissional com 20 anos de experiência, profundo conhecimento do mercado e resultados comprovados. Do outro, alguém com pouca experiência, mas que aprendia rápido, dominava novas tecnologias, fazia perguntas, conectava pessoas e demonstrava grande capacidade de adaptação. Deborah, Thaynara e Mithra escolheram a capacidade de aprender e se adaptar. Marcio ficou sozinho na defesa da experiência. Vanessa, depois, concordou com ele. “A maior fonte de sabedoria vem da experiência”, sustentou. Para Marcio, os 20 anos de resultados também comprovavam capacidade de adaptação. Em uma posição estratégica, apostaria nesse repertório; em uma função tática ou operacional, a decisão poderia ser diferente. A divergência mostrou que adaptação não começa necessariamente onde termina a experiência. Muitas vezes, ela está contida nela. Relações que precisam funcionar para os dois lados No mercado de tecnologia, Marcio atua aproximando executivos que enfrentam problemas reais de empresas capazes de oferecer soluções. “Eu resolvo dores reais das duas partes”, resume. Essa relação é construída ao longo do ano, com conteúdo, grupos de executivos, ações digitais, encontros e experiências. Parte desse ecossistema se reúne no IT Summit Nacional, em 10 de novembro, no WTC, em São Paulo, após as eleições e em um momento em que empresas e executivos já estarão voltados ao planejamento e aos investimentos para 2027. Entre os temas definidos com os próprios executivos estão a aplicação da inteligência artificial aos negócios, as transformações na carreira de TI e a visão dos CEOs sobre o papel das lideranças de tecnologia. Thaynara Moraes, Mithra Cherici, Vanessa Toledo, Marcio Montagnani, Deborah Cunha (Yara Tomei) Pra guardar na caixinha Nem todo capital aparece no currículo ou pode ser medido em números. Reputação se constrói nas escolhas, confiança nasce da coerência e conexões verdadeiras exigem troca, tempo e presença. Conhecimento e tecnologia ampliam possibilidades, mas são as relações que construímos e a forma como usamos aquilo que aprendemos que podem transformar contatos em oportunidades. Onde assistir O Tricotáh vai ao ar às terças-feiras, às 19h, no canal do Tricotáh no YouTube. Link do youtube: https://www.youtube.com/watch?v=wGCI6Von9wk