Deborah Cunha, Luciana Kirsten, Vanessa Toledo, Andrea Umbuzeiro, Thayssa (Yara Tomei) Por que algumas situações mexem tanto com a gente? De onde vêm certos medos? Por que repetimos comportamentos mesmo quando sabemos que eles não nos fazem bem? Nem sempre as respostas estão apenas no que vivemos hoje. Experiências familiares, crenças e a forma como aprendemos a enxergar o mundo podem aparecer nas nossas escolhas e relações. No Tricotáh desta semana, Vanessa Toledo recebeu a terapeuta Andrea Umbuzeiro Spagnuolo e as tricoteiras Deborah Cunha, Thayssa Nusa e Luciana Kirsten para discutir essas influências e como elas se relacionam com julgamento, empatia, perdão e comunicação. O que carregamos sem perceber A história de uma família não começa nem termina em uma única geração. Há experiências, formas de educar, medos e comportamentos que acabam atravessando o tempo e influenciando também quem vem depois. Isso não significa repetir necessariamente a vida dos pais ou dos avós, mas reconhecer que parte daquilo que aprendemos sobre o mundo nasceu dentro dessas relações. Esse é um dos pontos abordados pela visão sistêmica. Ao olhar para uma dificuldade do presente, a proposta é considerar também a história familiar e perceber se existem experiências ou padrões anteriores que ajudam a entender determinadas reações. Nem tudo encontra uma resposta imediata. Andrea destacou que algumas compreensões acontecem apenas com o tempo, à medida que cada pessoa consegue olhar para a própria história. Isso não significa viver preso ao passado ou acreditar que ele determina o nosso futuro. Conhecer essas influências também permite reconhecer expectativas que assumimos como nossas, os papéis que ocupamos dentro da família e aquilo que realmente queremos levar adiante. Andrea resumiu essa ideia ao falar sobre a relação entre pais e filhos. Para ela, honrar pai e mãe não significa realizar os sonhos que eles imaginaram para nós, porque cada pessoa tem a própria trajetória. “Cada um carrega a sua pedrinha, não precisa você carregar a pedra da família inteira.” A gente nunca conhece a história inteira Julgar faz parte da maneira como interpretamos o que acontece ao nosso redor. A questão é que essa avaliação sempre parte daquilo que conhecemos, das experiências que já tivemos e da forma como aprendemos a enxergar determinadas situações. Para Andrea, o julgamento não deixa de existir quando desenvolvemos mais empatia. O que pode mudar é a forma como ele acontece. Em vez de olhar apenas para uma atitude e tirar conclusões sobre alguém, podemos considerar que existem experiências, dores e circunstâncias que não conhecemos. “Você começa a olhar o outro como um ser humano semelhante a você, que tem dores, que tem desafios”, afirmou. Isso não significa justificar comportamentos ou deixar de reconhecer quando algo nos desagrada ou machuca. A diferença está em não transformar uma impressão em certeza sobre quem o outro é. Quanto menos sabemos sobre uma história, mais cuidado precisamos ter com as conclusões que tiramos dela. Perdoar não é voltar ao mesmo lugar O perdão costuma ser associado à ideia de deixar para trás aquilo que aconteceu. Mas isso não significa esquecer, concordar com o que foi feito ou necessariamente reconstruir uma relação. Vanessa contou que consegue separar essas coisas. Para ela, perdoar é não permanecer alimentando raiva, tristeza ou o desejo de que o outro sinta a mesma dor. Isso não significa, porém, abrir novamente espaço para aquela pessoa em sua vida. É possível desejar que ela siga bem e escolher seguir por outro caminho. Nas relações familiares, essa escolha pode ser mais difícil. O vínculo permanece e muitas vezes vem acompanhado da expectativa de que, por ser família, a convivência também precise continuar como antes. A expressão “distância de segurança” surgiu para falar justamente sobre esse limite: manter uma relação possível, mas sem a proximidade que permita que determinadas situações voltem a acontecer. Andrea trouxe ainda outro olhar para o perdão. Antes de pensar apenas em quem causou a mágoa, ela defendeu que esse processo também passa pela relação consigo mesmo. “Eu não posso pensar em perdoar um outro se eu não me perdoar por aquilo ter acontecido”, afirmou. Esse olhar para si não significa assumir a responsabilidade pelo que o outro fez, mas compreender a própria experiência e encontrar uma forma de não permanecer preso àquela dor. Perdoar, assim, não exige apagar a história nem devolver uma relação ao lugar que ocupava antes. Em alguns casos, seguir em frente inclui justamente aceitar que o vínculo mudou e estabelecer os limites necessários para que ele não volte a machucar. Andrea Umbuzeiro (Yara Tomei) Quando a gente não fala, a cabeça completa a história Nem sempre o outro sabe que determinada atitude nos machuca. Podemos interpretar um gesto, uma fala ou até um silêncio de determinada maneira e sofrer com aquilo sem nunca dizer o que sentimos. Enquanto isso, quem está do outro lado pode estar entendendo a mesma situação de uma forma completamente diferente. A dificuldade é que, quando falta essa conversa, tendemos a preencher os espaços com nossas próprias referências. Supomos intenções, imaginamos motivos e, pouco a pouco, uma interpretação pode ganhar o peso de uma certeza. Falar sobre o que sentimos ajuda justamente a separar essas duas coisas. Em vez de esperar que o outro perceba sozinho, dizer “quando você faz isso, eu sinto isso” coloca na relação uma informação que antes existia apenas para quem estava sentindo. Isso não significa que todo conflito seja apenas um mal-entendido. Depois de saber como uma atitude nos afeta, o outro também faz uma escolha: pode considerar aquela informação e mudar a forma de agir ou pode decidir continuar da mesma maneira. A comunicação não garante mudança, mas permite enxergar com mais clareza o que é interpretação, o que é intenção e, principalmente, o que cada pessoa decide fazer depois que sabe que algo machuca. Talvez seja justamente por isso que tantos problemas nas relações cresçam no silêncio. Falar não resolve tudo, mas evita que o outro precise adivinhar o que sentimos e que a gente precise adivinhar o que ele quis dizer. Pra guardar na caixinha Nem tudo o que sentimos começou em nós, assim como nem tudo o que pensamos sobre o outro corresponde ao que ele quis dizer. Conhecer a própria história ajuda a entender algumas influências e também a escolher o que não queremos continuar carregando. Empatia não elimina o julgamento, mas pode mudar a forma como enxergamos o outro. Perdoar não significa esquecer ou retomar uma relação. E falar sobre o que sentimos não resolve todos os conflitos, mas evita que o silêncio seja preenchido apenas pelas nossas interpretações. Deborah Cunha, Luciana Kirsten, Vanessa Toledo, Andrea Umbuzeiro, Thayssa Nusa (Yara Tomei) Onde assistir O programa completo está disponível no canal do Tricotáh no YouTube. Link do youtube: https://www.youtube.com/watch?v=7ypfobCq6_o