Luciana Kirsten, Deborah Cunha, Vanessa Toledo, Anna Alvim, Mithra Cherici (Yara Tomei) O que faz alguém se sentir bonito? A resposta pode parecer pessoal, mas não nasce apenas diante do espelho. Família, cultura, moda, redes sociais e as referências de cada época participam da construção desse olhar. E, em um tempo de tendências que mudam na velocidade do feed, distinguir desejo próprio de influência externa ficou ainda mais difícil. Nunca tivemos tantas referências diante dos olhos. Um novo corpo desejável, um procedimento em alta ou uma aparência que se repete até parecer a medida para todas as outras. O padrão muda, mas a pressão para alcançá-lo permanece. E uma pergunta ganha importância nesse cenário: quanto do que queremos mudar em nós realmente nos incomoda? O Tricotáh desta semana discutiu beleza, autoestima, saúde, influência e os limites dos procedimentos estéticos. Vanessa Toledo e as tricoteiras Deborah Cunha, Luciana Kirsten e Mithra Cherici receberam a convidada Anna Alvim, médica oftalmologista com atuação em oculoplástica e estética. Carioca e morando em Santos há quase seis anos, Anna trabalha com o marido, também oftalmologista, desde a formação dos dois na UERJ. A oculoplástica já fazia parte dessa trajetória, mas a percepção de que poderia ampliar os resultados para além da cirurgia levou a médica a buscar uma especialização em estética e incorporar outros tratamentos à sua atuação. Nem sempre é preciso colocar mais A oculoplástica é uma subespecialidade da oftalmologia dedicada às estruturas ao redor dos olhos, como pálpebras, supercílios, vias lacrimais e órbitas. Entre as queixas mais frequentes estão flacidez, excesso de pele e alterações que deixam o olhar com aparência de cansaço, tristeza ou irritação. Na atuação de Anna, o conhecimento da anatomia ocular se soma aos recursos da estética, sem perder de vista a prioridade de preservar a função. Sua formação também aprimorou a capacidade de identificar assimetrias e realizar procedimentos em estruturas pequenas e delicadas. A pele das pálpebras é muito fina, e nem toda alteração exige preenchimento ou cirurgia. Há pacientes que procuram uma cirurgia de pálpebras e descobrem que o incômodo está relacionado ao posicionamento dos supercílios. O preenchimento de olheiras é um exemplo de procedimento que Anna frequentemente desaconselha. Apesar da popularidade, tem indicações restritas e pode provocar resultados esteticamente insatisfatórios e complicações. Com perfil conservador, a médica prioriza tratamentos clínicos sempre que possível. “Se dá para a gente tratar clinicamente e ter um resultado bom, eu vou tentar tratar clinicamente.” Cuidados contínuos com a pele e os tecidos podem adiar ou evitar cirurgias, embora alterações mais acentuadas ainda possam exigir intervenção cirúrgica. Depois de um período de feições muito marcadas e procedimentos facilmente identificáveis, cresce a procura por resultados mais discretos. “Você tem que estar com um rosto de descansado, de leveza, das pessoas olharem e falarem: ‘Nossa, você está bonita, o que você fez?’”, explicou Anna. A intenção é melhorar aquilo que incomoda sem apagar as características individuais. Anna Alvim (Yara Tomei) O padrão muda, a pressão continua Se hoje a naturalidade ganha espaço, ela também faz parte de um movimento de tendências. O que uma época considera bonito não necessariamente atravessa a seguinte. Mithra Cherici chamou atenção para o caráter excludente desses padrões. Nem todos dispõem das mesmas condições para alcançar aquilo que, em cada época, passa a representar o corpo desejável. Ela mesma reconheceu ter sido influenciada pela atual valorização dos músculos, embora saiba até onde deseja levar essa referência no próprio corpo. Reconhecer a influência ajuda a distinguir uma escolha pessoal da pressão para corresponder a determinado ideal. Deborah Cunha destacou a velocidade com que as redes sociais alimentam novas referências. Uma imagem ganha força, outra aparece logo depois e aquilo que parecia bonito pode rapidamente perder espaço para uma nova tendência. Tanta rotatividade também dificulta que as pessoas consigam formar e sustentar a própria opinião. Para Anna, qualquer intervenção precisa preservar aquilo que torna cada pessoa reconhecível. Na avaliação, ela observa a qualidade da pele, as proporções faciais e as mudanças provocadas pelo envelhecimento ou pelo emagrecimento. Mas o ponto de partida é entender o que realmente incomoda o paciente. “O objetivo nunca é transformar”, afirma. Um nariz, uma pálpebra ou qualquer característica que alguém de fora modificaria pode não representar incômodo algum para aquela pessoa. Criar uma insatisfação onde ela não existia está longe de ser cuidado. Autoestima não é só gostar do reflexo A aparência pesa especialmente sobre as mulheres. Luciana Kirsten observou que muitos dos elogios dirigidos a elas continuam associados à imagem. Beleza, poder e capacidade acabam se misturando no imaginário, o que ajuda a entender por que se sentir bonita pode interferir tanto na maneira de ocupar outros espaços. Mas existe diferença entre gostar do que se vê e precisar que outra pessoa valide esse olhar. Na maternidade, Anna viveu algo dessa relação com a própria imagem. Mãe de duas crianças, contou que ficou muito imersa nesse papel e sentiu que parte da identidade da mulher havia se perdido. Retomar o cuidado consigo mesma mexeu não apenas com a aparência, mas com a maneira como se sentia e se posicionava. Essa experiência também ajuda a compreender sua visão sobre os tratamentos estéticos. O envelhecimento modifica naturalmente as características do rosto e do corpo, mas isso não significa que seja preciso perseguir uma aparência mais jovem a qualquer custo. Para Anna, é possível estar e se sentir bem com a idade que se tem. Os procedimentos podem contribuir para a autoestima, desde que respeitem as características e as expectativas de cada paciente. Ao definir o que considera um bom resultado estético, a médica é objetiva: “Um resultado que resolva a queixa do paciente e, especialmente, que faça com que ele se sinta melhor consigo.” Esse cuidado também não termina no consultório. Sono, alimentação, atividade física, condições clínicas e hábitos interferem tanto na saúde quanto nos resultados estéticos. Nenhum procedimento consegue, sozinho, substituir aquilo que depende de um conjunto de fatores Anna Alvim (Yara Tomei) Até o saudável pode passar do limite O culto atual ao bem-estar também entrou na discussão. Corrida, alimentação, treino e corpos fortes ganharam status de hábitos desejáveis, com benefícios evidentes. O excesso, porém, não deixa de ser excesso apenas porque vem acompanhado do rótulo de saúde. Mithra citou situações em provas esportivas nas quais sinais fisiológicos importantes acabam tratados como demonstração de superação. “A gente precisa conseguir entender e olhar para onde é o limite, do que realmente é saudável e até onde não é.” O mesmo cuidado vale para procedimentos estéticos. Exagerar não é a única questão. Produtos de baixa qualidade, risco de contaminação e intervenções inadequadas podem trazer prejuízos que ultrapassam a aparência. Mesmo um procedimento seguro precisa considerar as condições individuais de quem o recebe. Buscar beleza não precisa ser tratado como algo superficial. O incômodo estético existe, interfere na autoestima e pode ser legítimo. O ponto está em não perder de vista aquilo que motivou a mudança e, principalmente, quem continuará diante do espelho depois dela. Anna defende que o cuidado com a aparência não deve ser orientado por modelos impossíveis de alcançar. “A gente tem que se sentir bem com a gente e não se deixar balizar tanto por padrões que nem sempre são atingíveis.” Valorizar a individualidade, para ela, também faz parte de se sentir bonita. Pra guardar na caixinha Não existe olhar completamente livre de influência. O que consideramos bonito carrega um pouco da nossa história e muito do tempo em que vivemos. Padrões mudam, referências se multiplicam e até a naturalidade pode virar tendência. O cuidado está em não entregar a elas o poder de decidir tudo o que precisa ser mudado. Entre melhorar algo que incomoda e perseguir uma imagem que veio de fora, existe uma diferença importante: continuar se reconhecendo. Luciana Kirsten, Deborah Cunha, Vanessa Toledo, Anna Alvim, Mithra Cherici (Yara Tomei) Previsões de outubro Outubro chega com um convite à revisão. Mah Ocroch trouxe as previsões do mês e destacou Vênus retrógrada em Escorpião no início do mês e a aproximação do último Mercúrio retrógrado do ano, que começa no fim de outubro e segue até novembro. Na leitura, questões ligadas a relacionamentos, trabalho, finanças e escolhas podem voltar à mesa: aquilo que foi buscado por tanto tempo ainda faz sentido hoje? Nos alertas, a carta tirada foi a 20, O Jardim. Ligada ao externo, ela chama atenção para a forma como nos apresentamos, nos comunicamos e mostramos nossas intenções. Mah também destacou a responsabilidade sobre aquilo que falamos e ouvimos, especialmente antes de reagir a uma situação. Nas tendências, saiu a 19, A Torre, em contraponto ao Jardim. Se uma olha para fora, a outra pede introspecção e algum distanciamento. A orientação é sair do “olho do furacão”, observar melhor o cenário e entender onde vale investir energia antes de mudar de direção. A carta tirada para representar o mês foi a 6, As Nuvens. O recado é especialmente direto: sem clareza, não é hora de avançar. A pausa permite esperar que as nuvens se dissipem antes de tomar uma decisão. Jardim, Torre e Nuvens deixam outubro entre três movimentos: observar o que está sendo mostrado, recuar para compreender e só agir depois de enxergar melhor o caminho. Mah Ocroch (Yara Tomei) Onde assistir O Tricotáh vai ao ar às terças-feiras, às 19h, no YouTube. Você também pode acompanhar o programa pelas redes sociais do Tricotáh e pelo portal A Tribuna. Link do youtube: https://youtu.be/ZXlXVQ4GAaU?si=jqnc8vc_3za_yLWw