Embarcações de diferentes tipos integram as cadeias globais de comércio (FreePik) Se o Brasil dificilmente conseguirá, no curto prazo, disputar com gigantes asiáticos mercados consolidados, como o da construção de grandes navios, as transformações na navegação e nas cadeias globais abrem outras oportunidades para o País. Abastecimento com novos combustíveis, manutenção e reparo naval, tecnologias de descarbonização e formação de hubs logísticos estão entre as possibilidades que podem aproximar portos e atividades de maior valor agregado. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! O cenário esteve no centro das discussões no Summit Porto-Indústria, realizado na última terça-feira, no Grupo Tribuna. Para o diretor da K Line Rafael Cristelo de Souza, uma das maiores oportunidades está na escolha dos combustíveis da próxima geração de navios. As companhias precisam encomendar embarcações que levam anos para serem construídas e permanecerão décadas em operação sem saber qual tecnologia energética prevalecerá. Fabíola: EUA avaliam bons projetos (Alexsander Ferraz/AT) “Eu desconheço um armador que tenha certeza absoluta de qual vai ser o combustível do futuro. Para construir um navio hoje, demora dois, três anos, a maioria na China, e estamos falando de mais de US\$ 150 milhões. Temos que escolher hoje o combustível para usar o navio por 20 anos e ainda não sabemos como será a regulamentação”. A K Line decidiu apostar, no momento, no gás natural liquefeito (GNL) para seus novos navios. Segundo Cristelo, a companhia já realizou investimentos em embarcações com essa tecnologia, mas encontra uma limitação no Brasil: a falta de infraestrutura para abastecê-las. Para o executivo, oferecer combustível aos novos navios pode se tornar um diferencial competitivo dos portos. “O combustível em si é um superatrativo para o porto. Onde a gente consegue ter a mudança de combustível e de energia, existe um fator de crescimento”. A indefinição tecnológica também chega ao outro lado do cais. A gerente de Estratégia, Gestão e Novos Negócios da Portocel, Valéria Becalli Provete, destacou que terminais precisam decidir quais estruturas construir antes de saber exatamente o que os navios demandarão no futuro. Valéria vê indefinição energética (Alexsander Ferraz/AT) “O armador não sabe ainda muito bem qual matriz energética utilizar e nós, terminais, vivemos o mesmo dilema. Não sabemos o que fazer porque não sabemos o que o armador vai querer. Não sei se forneço amônia ou gás natural. A estrutura e o investimento são totalmente diferentes para cada um deles”. Para Valéria, o cenário revela um paradoxo: diferentes agentes começam a investir individualmente em alternativas como GNL, hidrogênio, amônia, eletrificação ou etanol sem que exista ainda uma direção comum. As mudanças nas cadeias globais também criam oportunidades fora da transição energética. O diretor comercial da Rimac, Marcelo Vieira, afirmou que os problemas de abastecimento levaram empresas a rever estratégias e estimularam a criação de estruturas regionais capazes de concentrar componentes, equipamentos e até etapas de montagem próximas a áreas industriais e portuárias. Rafael cita construção de navios (Alexsander Ferraz/AT) “Cada vez mais vemos clusters localizados e regionais para enfrentar esse desafio. Nós próprios estamos aumentando estoques. Uma de nossas fábricas fez um hub no Panamá, em uma zona industrial e portuária, onde há condições para estocar não só componentes, mas máquinas, e até fazer montagem e pré-montagem”. Nem toda atividade industrial, entretanto, precisa estar instalada ao lado do cais. O CEO da Bandeirantes Deicmar, Washington Flores, ponderou que a decisão depende das características de cada negócio e que Santos apresenta condições diferentes de outros complexos portuários. Custos de áreas, mão de obra, localização da produção e infraestrutura também pesam na escolha do investidor. Em alguns casos, a proximidade com o porto pode ser determinante; em outros, a localização junto à produção pode fazer mais sentido. “Não acredito que a gente deva buscar que Santos seja porto-indústria. Temos que olhar cada plano de negócio, porque a decisão do investidor de ir para um lugar além do porto tem uma razão”. Washington lembra dos gargalos (Alexsander Ferraz/AT) Estados Unidos Transformar oportunidades em empreendimentos depende da estruturação dos projetos e de recursos. Especialista comercial do Departamento de Comércio dos Estados Unidos no Brasil, Fabíola Rios Carneiro Leão apresentou instrumentos norte-americanos que podem auxiliar iniciativas em setores estratégicos, como transporte, energia e minerais críticos, inclusive nas etapas anteriores aos investimentos. “Existem possibilidades para estudos de viabilidade e workshops técnicos, que podem contemplar vários setores dentro da cadeia. Projetos podem ser apresentados para avaliação”. Marcelo detalhou abastecimento (Alexsander Ferraz/AT)