[[legacy_image_290055]] O setor da construção civil espera aproveitar o momento de virada no cenário econômico para impulsionar suas atividades. Queda de juros, inflação controlada, anúncio de investimentos governamentais. Mas nada disso terá validade se não for pensado no bem-estar da população. É preciso criar condições que tornem a vida da população melhor. Essa é a visão do novo presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Renato Correia, que participou do Summit da Construção Civil, na última segunda-feira (14), no auditório do Grupo Tribuna. Confira a entrevista a seguir: Como é o desafio da construção civil em um cenário de adensamento populacional e de espaços? O desafio é sempre ter uma densidade que viabilize transporte coletivo. Por exemplo: uma cidade como Curitiba, que tem os eixos de transportes e os adensamentos adjacentes a esses eixos, para que se possa viabilizar os transportes. Goiânia fez isso também, assim como São Paulo. E a Baixada Santista tem o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) nesse sentido também. Nessa linha, me parece que essa é uma experiência de sucesso. E parece meio racional que você possa adensar em torno dos eixos de transporte público, conseguir um transporte público de qualidade para poder dar essa mobilidade à população. E como é vista a sustentabilidade?É algo fundamental pois, quando você traz a população para perto do transporte, trabalho, lazer, evita aquele transporte de longa distância, além de (altos custos com) combustível, pneu... Você torna a vida do cidadão mais racionalizada economicamente. Isso impacta menos o meio ambiente. Acho que é uma solução sustentável. E quanto ao impacto da tecnologia no setor?O setor vai passar por transformações profundas de agora em diante. E, emplacando a reforma tributária, melhoram as condições de industrialização, aumentando os volumes de produção. Hoje, tem o Minha Casa Minha Vida reeditado, o PAC recém-lançado, curva de juros descendente, o que atrai investimentos. Mas você tem dificuldade com a mão de obra, que já está escassa nesse volume. A industrialização me parece um caminho sem volta, com soluções sustentáveis. Porque, no processo manufatureiro, tem mais desperdício, menos condições no ambiente de trabalho, de segurança, de saúde. Qual o impacto da reforma tributária sobre quem constrói e para o futuro comprador de imóvel? A gente está há 30 anos falando sobre a reforma tributária. Parece que há um amadurecimento para ela caminhar. É importante lembrar que esse regime de não cumulatividade é de sucesso na maior parte do mundo desenvolvido. É bom que o Brasil se iguale no conceito. Mesmo que seja IVA dual, um federal, e outro estadual/municipal. É importante isso, porque isso torna mais competitiva a economia do País. O impacto a gente ainda não tem a dimensão. O que nós estamos defendendo é que o setor da indústria da construção tem uma especificidade grande e que precisa de um tratamento adequado. E como ele é um serviço essencial, nós estamos entendendo que o nível de tributação não pode ser maior que o aplicado. Para, justamente, não ter impacto no público consumidor. É isso que a gente tem defendido e parece que tem sido bem entendido pelos parlamentares. A perspectiva de queda da Selic é outro elemento importante nesse conjunção de fatores propícios à construção civil? As condições para uma queda de juros são importantes para qualquer setor. Mas, na construção civil, é mais importante ainda, porque você usa muito recurso durante muito tempo. Então, o impacto de um juro alto é muito grande. Estamos realmente animados com as perspectivas de que a queda continue. A inflação está mais controlada, você tem o arcabouço fiscal que também foi bem recebido, é crível, funciona em determinadas condições... A taxa de juros, realmente, vai caminhar no sentido de atingir um dígito em 2024, o que é muito bom para todos os mercados. O governo trouxe de volta o Minha Casa Minha Vida para a faixa 1 (baixa renda). Teve ainda o anúncio do PAC com mais obras voltadas à habitação. Como o setor se prepara para colher os frutos dessa retomada? Esse momento é promissor, mas são passos. Quando o governo faz o Minha Casa Minha Vida faixa 1, identifica o que deu errado no passado e propõe melhorias e discute com o setor. É uma coisa que pode funcionar melhor. Tanto é que a demanda de terrenos que tem, você apresenta primeiro o terreno, depois é confirmado e aí pode aprovar o projeto. Essa apresentação de terreno superou, e muito, a expectativa do governo e nossa. Você tem um FGTS que foi redimensionado e está de bom tamanho. E agora tem o PAC, que direciona os investimentos por estado selecionado. E muito pensando também em energia limpa, em novas fontes de energia. A gente ainda encontra muita dificuldade no processo licitatório do menor preço. É quando, falo sobre obras públicas, se endereça pelo menor preço, pela lei de licitações, e acaba tendo uma dificuldade. A obra de engenharia é muito complexa, não é como comprar um liquidificador. A gente defende que seria pelo melhor preço. Precisa estudar outras maneiras de contratar bem para o Estado. O TCU aponta mais de 14 mil obras paralisadas. Entendemos que serviços de engenharia precisariam ter uma lei específica de licitação. E quanto à energia limpa? Existem alguns estudos específicos em construção com madeira, por exemplo, que a CBIC tem olhado muito. Uma metodologia de construção que capta carbono, que tem reaproveitamento. Nós temos induzido a eficiência energética nas habitações, inclusive nas populares, como se tivesse um selinho da compra de geladeiras. A gente tem parceria com o IFC, que é o que é o braço do Banco Mundial para construção civil na área privada, para estimular boas práticas ambientais. Estamos levando informação e conhecimento para as empresas se se prepararem cada vez mais. E a mão de obra qualificada tanto na base da pirâmide como nos demais níveis? O Sinduscon de Goiás, junto com a Federação das Indústrias, fez uma pesquisa e a CBIC também. São duas pesquisas feitas com relação a mão de obra convergente para alguns problemas. Primeiro: o número de entrantes muito baixo, tanto nas áreas de produção, de gestão, de inteligência, até na área de engenharia. E me parece que a atratividade do setor, por ter os processos ainda muito manufatureiros, não tem atratividade para o jovem. Então se vê o jovem indo para outras áreas de tecnologia, ou um Uber ou iFood. Ele tem outras alternativas de horário mais flexível. Há uma carga de peso grande, um serviço considerado pesado ainda. Por isso, a mão de obra eu vejo como gargalo. O sr. assumiu agora o comando da CBIC. Qual que é o principal desafio? O nosso grande desafio hoje, é ampliar o mercado e melhorar o ambiente de negócio. Fazer mais habitação, mais saneamento, mais estrada, mais ferrovia, mais escola, atender mais o cidadão. A busca é resolver o problema do brasileiro na área de construção civil. É o que a gente tem que trabalhar: pela melhoria do ambiente de negócio. E quanto às PPPs? É um modelo interessante? Nós defendemos uma boa regulação das parcerias público-privadas. Defendemos o marco do saneamento. Trouxe R\$ 80 bilhões de investimento no primeiro ano. É um número significativo, e só estamos no começo. Buscar um saneamento básico, pleno, para a população brasileira é o que a gente defende. Meios de transporte mais eficientes, como ferrovias e rodovias, para que a gente possa ter menos custo no transporte dos grãos, no transporte dos minérios. É bom para população e para o Governo. Esse é o nosso papel.