Mudanças na arquitetura de muitas cidades, em especial com a construção de edifícios mais altos, podem registrar condições adversas de vento (Alexsander Ferraz/AT) Quanto mais alto o prédio, maior a importância da análise do vento no projeto e na construção. Em edifícios com dezenas de andares, as correntes de ar podem provocar esforços e movimentações na estrutura, exigindo soluções específicas de engenharia para garantir estabilidade, conforto e segurança. Para enfrentar esse desafio, construtoras e projetistas recorrem a tecnologias que vão desde testes em túnel de vento até sistemas estruturais e ferramentas digitais capazes de simular o comportamento da edificação antes mesmo do projeto sair do papel. “A ação do vento é considerada desde as primeiras etapas do projeto estrutural. São avaliados fatores como altura, o formato, a disposição e principalmente a localização onde esse futuro edifício vai ser construído. Além das características dos ventos, nós temos, então dependendo da região, intensidade e sentidos de ventos diferentes. Com esses dados, são calculados os esforços que a estrutura e também as fachadas deverão suportar”, afirma o diretor da Engeplus Construtora e Incorporadora, Diogo Barroso “O deslocamento de um edifício (causado pelo impacto dos ventos) é imperceptível aos usuários”, tranquiliza o diretor da Macuco Construtora, Mateus Teixeira. “A quantidade de deformação da estrutura é muito variável de obra para obra, dependendo da rigidez da estrutura do edifício, além da posição e da intensidade do vento que atinge o edifício. Mas todo esse movimento é calculado através de programas de modelagem com softwares adequados, utilizando modelagem 3D da estrutura e ensaiando os esforços de vento”, revela o construtor e engenheiro. Ele explica que, durante o projeto, o impacto dos ventos é levado em consideração como uma carga (esforço) extra no projeto, mas em um sentido não convencional. “Não é um esforço de cima para baixo, mas um esforço horizontal, da direta para a esquerda, por exemplo, porém precisam ser considerados todos os lados, pois o vento não bate sempre no mesmo sentido”, acrescenta Teixeira. Para edifícios mais altos, superiores a 250 metros, também costumam ser utilizados sistemas específicos para reduzir vibrações ou oscilações da estrutura. Além disso, ele destaca a importância do uso de janelas e elementos externos resistentes. “Todas as esquadrias do prédio (devem ser) projetadas para atender exatamente essa demanda extra de vento, mas utilizamos não só nos locais (mais impactados), utilizamos em todo empreendimento”, completa ele. Vizinhança Outro ponto importante sobre o impacto dos ventos foi levantado pela engenheira Cristina Benia, em trabalho de pesquisa para a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A especialista destaca os efeitos nas áreas vizinhas a obras. “A mudança na arquitetura das cidades, em especial com a construção de edifícios altos, produz condições adversas de vento. Estas condições podem causar desconforto e até mesmo situações perigosas a pessoas que utilizam áreas no entorno das edificações”, alerta a engenheira da UFGRS. Em sua pesquisa, ela destacou que as normas de vento são conservadoras e às vezes incompletas, não se ajustando à arquitetura moderna. De acordo com ela, entre os fatores a serem observados nos ensaios de vento, estão a interferência das edificações e de terrenos vazios na vizinhança do empreendimento.