Um dos fatores que ajudam a explicar a falta de engenheiros no País é a redução da procura pelos cursos dessa carreira. Conforme o Sindicato Nacional da Indústria da Construção Pesada-Infraestrutura (Sinicon), o número de matrículas caiu 26% entre 2015 e 2024, de 1,2 milhão para 887 mil estudantes. “O número de ingressantes nos cursos de Engenharias no Brasil está diminuindo de forma preocupante, segundo o Censo da Educação Superior, organizado pelo Ministério da Educação e pelo Inep, onde evidencia-se um cenário preocupante face ao esvaziamento das salas de aula de Engenharia, com mudanças significativas no formato das aulas. Menos calouros, menos matriculados e menos formados”, afirma o engenheiro civil e professor da Universidade Católica de Santos (UniSantos), Juarez Ramos da Silva. “Engenharias de Computação, Civil, Produção e Mecânica, bem como Automação, possuem muitas vagas em aberto, e não é um problema de simples resolução. Faltam profissionais para grandes obras, infraestrutura e modernização industrial. Há a percepção de apagão de mão de obra em várias áreas da Engenharia”. Para o diretor regional do Sinduscon-SP, Lucas Teixeira, os métodos construtivos estão evoluindo rapidamente e os profissionais precisam estar preparados para essa nova realidade. “Um exemplo importante é a adoção do BIM (Building Information Modeling), metodologia colaborativa que permite integrar informações e projetos de uma obra, como estrutura, instalações hidráulicas e elétricas. Além do conhecimento técnico, as empresas buscam profissionais com capacidade de adaptação e familiaridade com as novas tecnologias”, afirma. De acordo com o professor da UniSantos, as instituições de ensino estão sintonizadas com as necessidades do setor. “As boas instituições estão com as matrizes curriculares adequadas às exigências e necessidades do mercado, e contam com disciplinas como BIM, IA, Sustentabilidade, Meio Ambiente, Gestão de Resíduos, Drenagem Urbana, Mudanças Climáticas, Cidades Inteligentes e Engenharia Urbana, entre outras”. Para o diretor de Inovação, Ciência e Tecnologia da Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Santos (Aeas), Alexandre Euzébio, o problema pode ser a expectativa do mercado frente a disponibilidade. “Muitas vagas são ofertadas para engenheiros sênior e as empresas já não possuem programas consistentes de formação profissional, ou seja, o mercado exige alta qualificação e experiência, mas não contribui com essa jornada aos jovens profissionais”. Segundo Euzébio, a escassez pode se tornar um gargalo para o crescimento. “A consultoria McKinsey aponta que a falta de produtividade e de mão de obra qualificada na construção afeta diretamente as margens de lucro globais do setor. Se obras grandiosas projetadas para a Baixada, como o túnel submerso Santos- Guarujá e a expansão da poligonal do Porto de Santos, entre outras obras estruturantes, ocorrerem simultaneamente, teremos um colapso na oferta de profissionais”, diz o diretor da Aeas. “Hoje, o que limita o crescimento de uma construtora não é a falta de capital, mas a sua capacidade de atrair e reter bons engenheiros”, complementa Euzébio. Construtoras Teixeira diz que o crescimento da atividade contribui para ampliar as oportunidades na região. “As construtoras santistas, de maneira geral, possuem quadros profissionais bem estabelecidos e vêm oferecendo oportunidades para que novos engenheiros adquiram experiência e possam construir suas trajetórias dentro das empresas, conquistando gradualmente espaço na hierarquia funcional”. Segundo Teixeira, as empresas locais estão atentas a questões relacionadas à mão de obra e procuram antecipar possíveis situações que possam comprometer os processos produtivos. “A escassez de profissionais qualificados pode aumentar a pressão sobre custos e remunerações e, por isso, o planejamento e a capacidade de antecipação são cada vez mais importantes para garantir o andamento adequado das obras”, conclui o empresário.