O cenário econômico brasileiro será determinante para os rumos da construção civil em 2027. Juros, inflação, renda das famílias, condições de crédito e a condução das contas públicas estarão entre os fatores que poderão influenciar a decisão de compra de imóveis e os investimentos das construtoras. Em um ano de eleições presidenciais, as expectativas em torno da política econômica devem ganhar ainda mais peso. Professor de Finanças do Insper, Ricardo Humberto Rocha fala sobre os desafios para o próximo ano, as condições necessárias para redução dos juros e os efeitos desse cenário sobre o setor, o Minha Casa, Minha Vida e o mercado imobiliário da Baixada Santista. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Como o senhor avalia o atual momento da economia brasileira? Quais são as perspectivas para 2027 em relação ao crescimento do PIB, à inflação, aos juros e ao mercado de trabalho? A economia brasileira atravessa um período de incerteza, acentuado pelas eleições presidenciais. A inflação continua resistente e acima do centro da meta. As perspectivas para 2027 dependerão, em grande medida, de quem assumir a Presidência e de como serão conduzidas as contas públicas. Uma política fiscal mais austera poderá ajudar a reduzir a inflação e os juros, criando condições para maior crescimento do PIB e geração de empregos. Quais devem ser os principais desafios da economia brasileira no próximo ano? O desafio é conciliar políticas públicas inclusivas com crescimento econômico. Para isso, será necessário melhorar a qualidade do gasto público e estimular o investimento privado. Mais investimento favorece a atividade das empresas, o emprego, a renda e o consumo. Esse processo, porém, precisa ocorrer com controle da inflação e responsabilidade na gestão das contas públicas. Quais fatores podem pressionar os preços nos próximos meses? A inflação é um problema crônico no Brasil e continua sendo um obstáculo à redução consistente dos juros. Sua trajetória depende da gestão fiscal, das perspectivas de crescimento, da confiança no governo e da segurança jurídica. Uma condução econômica responsável, com maior atenção às contas públicas, ajudaria a diminuir as pressões inflacionárias. O consumo das famílias e o mercado de trabalho serão capazes de sustentar o crescimento econômico ou o endividamento e o custo do crédito podem limitar essa expansão? O endividamento e o custo do crédito limitam a capacidade das famílias. Uma mudança na gestão fiscal e tributária poderia melhorar gradualmente as condições econômicas: os primeiros resultados poderiam surgir ao fim do primeiro ano, tornando-se mais claros no segundo. Os juros elevados tornam o financiamento imobiliário mais caro e comprometem a capacidade de compra das famílias. Até que ponto esse cenário tem adiado a aquisição da casa própria? Os juros elevados encarecem o financiamento e adiam a compra da casa própria. Há, contudo, outra dificuldade muito relevante: a renda de grande parte da população não cresce o suficiente, especialmente entre os jovens. Quando a prestação compromete uma parcela excessiva da renda, aumenta o risco de inadimplência e, em último caso, de perda do imóvel oferecido em garantia. Como o custo do crédito influencia as decisões das construtoras e incorporadoras? É possível que empresas adiem lançamentos ou suspendam projetos diante das incertezas econômicas? O custo do crédito afeta toda a cadeia da construção civil, da compra do terreno à construção, ao lançamento e à venda das unidades. Com juros muito altos, construtoras e incorporadoras tendem a agir com cautela em seus investimentos. Uma melhora significativa das condições econômicas poderá estimular novos projetos e ampliar a oferta de imóveis. Qual é a perspectiva para os juros em 2027? O que precisa acontecer para que uma eventual redução da taxa básica se traduza em crédito mais acessível? Uma queda consistente dos juros em 2027 dependerá de mudança na condução e no controle dos gastos públicos. Sem isso, o crédito imobiliário dificilmente ganhará força. Além de juros menores, é preciso que as famílias tenham renda suficiente para assumir as prestações sem comprometer excessivamente o orçamento. Mesmo com a perspectiva de queda dos juros, o mercado imobiliário pode continuar enfrentando dificuldades por causa do endividamento das famílias? Sim. O endividamento e o comprometimento da renda afetam a capacidade de compra de imóveis e o consumo na economia como um todo. A queda dos juros ajuda, mas não resolve sozinha essas restrições. Também será necessária uma mudança na condução dos gastos públicos para melhorar de forma duradoura o ambiente econômico. Quais segmentos da construção civil devem sentir mais os efeitos dos juros elevados: habitação econômica, imóveis de médio padrão ou empreendimentos de alto padrão? Os imóveis de menor valor e voltados às famílias mais dependentes de financiamento tendem a sofrer mais com juros elevados e períodos de crise. Já o segmento de alto padrão costuma ser mais resistente, pois seus compradores têm maior capacidade financeira e podem ver o imóvel como uma forma de proteção patrimonial. Qual deve ser o papel do Minha Casa, Minha Vida no desempenho da construção civil em 2027? O Minha Casa, Minha Vida continuará tendo espaço porque conta com subsídios e recursos do FGTS, que ajudam a viabilizar a compra para parte das famílias. Ainda assim, diante das incertezas econômicas, eu não projetaria, neste momento, um crescimento do número de unidades em 2027. O programa oferece apoio ao setor, mas não elimina as dificuldades mais amplas do mercado imobiliário. Caso os juros permaneçam altos por mais tempo, quais podem ser os impactos sobre lançamentos imobiliários, investimentos e crescimento do setor em 2027? Juros elevados por mais tempo prejudicam fortemente os investimentos. Com menor disposição das empresas para lançar e executar projetos, também se reduzem as oportunidades de emprego e o potencial de crescimento da construção civil. Como o senhor projeta o desempenho da construção em 2027? Quais fatores econômicos serão determinantes para o setor? O desempenho do setor dependerá, sobretudo, da capacidade do País de restabelecer a confiança na economia. Para isso, considero determinantes a busca de superávit primário, a estabilidade fiscal e monetária e a segurança jurídica. Essas condições favorecem a queda sustentável dos juros e a retomada dos investimentos. Quais são as perspectivas para a construção na Baixada Santista em 2027, considerando as características da demanda regional e a dependência do crédito? É possível identificar oportunidades, mas a região não pode ser analisada isoladamente da economia brasileira. O túnel Santos-Guarujá poderá acelerar o desenvolvimento regional. Santos também se destaca como polo turístico e atrai pessoas que buscam moradia, inclusive da terceira idade. Nos municípios de menor renda, a demanda imobiliária dependerá ainda mais do crescimento econômico nacional. Sem renda, não há capacidade de compra. O que precisaria acontecer de fato na economia para que 2027 seja um ano efetivamente melhor para a construção civil? Uma mudança na gestão pública, com maior controle fiscal e segurança jurídica. Um ambiente econômico mais previsível e confiável abriria espaço para investimentos, melhores condições de crédito e crescimento do setor. Como as eleições podem influenciar as expectativas dos investidores e as decisões de investimento antes mesmo da definição do resultado? As eleições presidenciais devem dar o tom das expectativas econômicas. Uma vitória da oposição poderia melhorar o ambiente de negócios, atrair investimentos e, por consequência, favorecer o mercado imobiliário. As decisões de investimento começam a reagir às perspectivas de política econômica antes mesmo da posse do próximo governo. Quais compromissos econômicos dos candidatos devem ser observados com mais atenção pelo mercado? Flávio Bolsonaro sinaliza um compromisso com maior competição, investimento e crescimento. Já o presidente Lula concentra sua atuação em programas de caráter social. Fora do Minha Casa, Minha Vida, não vejo muito espaço para expansão do setor imobiliário, caso a atual orientação econômica seja mantida. Independentemente de quem vencer o segundo turno da eleição, quais medidas econômicas serão fundamentais para o próximo governo recuperar a confiança do mercado e estimular o crescimento? O ponto fundamental é a responsabilidade com as contas públicas. O Brasil arrecada muitos impostos, mas gasta mal. É preciso fazer uma reengenharia dos gastos públicos, melhorar sua qualidade e criar condições para que a economia cresça com mais vigor. Sem enfrentar essa questão, a confiança e o investimento continuarão limitados.