A construção civil chega a este semestre diante de um cenário marcado por contrastes. Enquanto a habitação econômica, impulsionada pelas condições de financiamento do Programa Minha Casa, Minha Vida, mantém um ritmo positivo, os segmentos de média e alta renda enfrentam dificuldades diante do patamar elevado dos juros. Além disso, o setor precisa lidar com outro desafio que vem ganhando espaço nas discussões para o próximo ano: a escassez e a necessidade de qualificação da mão de obra. Para o vice-presidente de Interior do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP), Victor Bassan de Almeida, a combinação de juros, falta de profissionais e incertezas com a reforma tributária deve continuar no radar do setor nos próximos meses. Para ele, a construção civil também precisa avançar em industrialização e produtividade para enfrentar a dificuldade de atrair novos trabalhadores. Como o sr. analisa o cenário da construção civil no segundo semestre? Como o setor deve concluir o próximo ano? Se pensarmos na área residencial, o segmento da construção civil hoje se divide em dois grandes grupos: a gente tem habitação econômica, principalmente com o Programa Minha Casa, Minha Vida, e a (moradia de) média e alta renda. A habitação econômica ela vem muito bem, principalmente porque o Minha Casa, Minha Vida consegue manter os juros do financiamento para as famílias num patamar muito aceitável, entre 5% e 7%, o que permite que essas famílias tenham acesso aos imóveis. Já a média e alta renda vêm sofrendo bastante, porque os juros nesse patamar inviabilizam que as famílias consigam fazer o financiamento. E sabemos que, pela quantidade de investimento que uma família tem que fazer para adquirir um imóvel, ela só consegue por meio de financiamento e em longo prazo, com taxas de juros muito elevadas. Isso complica muito o mercado. Além dos juros, há outros desafios para a construção civil neste momento? Tirando essa situação macro da questão dos juros, eu acho que a gente tem alguns desafios mais próximos da construção civil, sobre os quais temos atuado: um grande pilar que precisamos estabelecer para construção civil é a questão da mão de obra. Por um lado, precisamos buscar uma industrialização, uma padronização que traga maior produtividade, mas, por outro, também atrair e qualificar uma mão de obra para construção civil. A gente vê que os jovens não são mais atraídos pela construção civil e isso acontece independentemente da remuneração, porque a construção civil até tem uma remuneração muito boa. Mas (isso acontece) pelo perfil dos jovens, pela facilidade de buscar um emprego menos qualificado, como um motorista de aplicativo ou um entregador, por exemplo. A gente tem perdido muito a atratividade da mão de obra e um dos grandes trabalhos que temos em conjunto com o Senai, junto com o Sintracon (Sindicato dos Trabalhadores da Construção), é buscar estabelecer um plano de carreira atrativo para esses jovens. Por isso, anunciamos o Trilha de Carreiras da construção no último dia 2, na Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), para mostrar para esse jovem o que ele pode alcançar na construção civil, quais são os caminhos e o que ele precisa fazer para dar os saltos de carreira e sair de uma profissão inicial menos qualificada na construção civil, para uma outra mais qualificada, com uma boa remuneração. E como está a questão da reforma tributária? Além disso, o setor da construção tem discutido muito a reforma tributária, que é um tema que preocupa o segmento pela complexidade e falta de visibilidade do que ainda se tem de como vai ser. Podemos dizer que esses serão os grandes temas para o próximo ano, além das taxas de juros, a reforma tributária e dificuldade de mão de obra. As virtudes da construção civil, como a geração de emprego e renda, permanecem? Permanecem. E eu acho que a construção civil tem uma vantagem: num momento (econômico) bom do País, ela é a primeira locomotiva a levar o crescimento para o País. Ou seja, ela reage muito rápido a um bom momento do País. A construção civil vem logo na sequência trazendo emprego, trazendo renda para o trabalhador, melhorando também a parte tributária do governo, arrecadando mais para o governo junto com a atividade econômica. Então, ela é uma grande locomotiva. E a gente vê um segmento que representou 20% da geração de emprego do ano passado, o que é muito relevante para o Brasil. A construção civil é mais de um terço de toda a indústria brasileira, ela tem um peso relevante na economia. Eu acho que é um segmento que precisa ser olhado com carinho e com bastante cuidado pelo governo, com as entidades, porque é um segmento que pode ser o grande ponto de transformação e melhoria do Brasil. Como vai o setor da construção na Baixada Santista? A Baixada Santista é uma região que está crescendo muito. É uma das regiões mais verticalizadas do País e isso não é uma coisa ruim porque, na verdade, você está trazendo o desenvolvimento, está trazendo novas incorporações. A gente vê crescendo muito a média e alta rendas por aqui, uma atratividade para famílias de outras regiões que vêm para a Baixada Santista pela qualidade de vida. Mas eu acho que ainda tem um espaço para a gente melhorar o ambiente para a habitação econômica. É algo que eu acho que tem espaço aqui. Têm famílias que necessitam (de moradia) e esse aprimoramento legislativo para que a gente permita que os imóveis sejam produzidos de maneira mais econômica e encaixem no bolso do consumidor é fundamental para a gente conseguir um equilíbrio para o mercado imobiliário. Mas pelo que ouvi durante a abertura do 13º Summit da Construção (realizado no fim de agosto), nas falas dos prefeitos da região, é muito animador, pois você vê que eles estão buscando soluções, estão vendo a construção civil como um aliado para trazer o desenvolvimento aos municípios. E isso só vai trazer bons frutos para a Baixada Santista, porque a economia realmente pode ser transformada com uma construção segura.