Entre a geração de empregos e os obstáculos à produtividade, a construção civil vive um momento de contrastes. O setor voltou a registrar um nível elevado de trabalhadores ocupados e encontra sustentação em áreas como infraestrutura e habitação econômica, impulsionada pelo Programa Minha Casa, Minha Vida. Mas, para o presidente do Sinduscon-SP, Eduardo Zaidan, o setor ainda enfrenta desafios como o acesso a crédito, escassez de mão de obra qualificada, burocracia e dificuldades para incorporar novas tecnologias. Em entrevista a A Tribuna, o executivo fala sobre os desafios atuais, a industrialização dos canteiros de obras, o crescimento regionalizado do emprego e as perspectivas para o setor em 2027. Qual o retrato que o senhor faz da construção civil hoje no Brasil? Nós estamos com o nível de emprego bastante alto, com 3, 6 milhões de trabalhadores, que é uma recuperação no nível que a gente tinha dez anos atrás, talvez até 12 anos atrás. E ele vem crescendo: quando tem emprego é porque tem obra, pois ainda não inventaram obras sem trabalhador. A gente vê os demais índices, como consumo de cimento e outros indicadores indiretos, também bastante robustos. Embora os números de IBGE não sejam muito brilhantes, mas a gente lembra que a medida do PIB do IBGE ela é sempre muito provisória (segundo o IBGE, o PIB do Brasil em 2025 foi de R\$ 12,7 trilhões; no segundo trimestre de 2026, o valor foi de R\$ 3,425,7 bilhões). O último PIB que a gente tem efetivamente calculado é o de 2023, o resto são estimativas. Então, a produção civil vai bem, ela tem sido muito impulsionada pela infraestrutura. Se a gente analisar o nível de emprego, é uma surpresa, porque foi historicamente muito baixo e agora tem reagido bem. Existe muita construção também no segmento econômico, que vai da Faixa 1 até a 4 (do Programa Minha Casa, Minha Vida) – agora se incluiu a Faixa 4, que é quase uma classe média. Mas as famílias da classe média mesmo, que compram apartamentos de R\$ 300 mil a R\$ 1,5 milhão, essas estão com um pouco de problema. Já a alta renda não tem problema, mas é um segmento muito pequeno. A construção para fins comerciais anda no mesmo ritmo? A construção industrial e comercial talvez ela perca um pouco de dinamismo em função desse endividamento todo que as empresas e as famílias estão vivendo. Você vê, o número de recuperações judiciais no momento é altíssimo e quem é que investe em construção industrial comercial são as empresas. Então a gente pode ter uma surpresa desagradável com um baixo investimento. A gente vai andar aí talvez com um PIB perto de zero ou 1%, um PIB baixo, nada brilhante. E 2027 vai ser um ano de adaptação, um pouco mais difícil. A geração de emprego continua sendo uma das principais virtudes do setor, mas muitos falam sobre o desafio relacionado à contratação de mão de obra. Como tem sido isso? Em relação à mão de obra, há esse desafio e a resposta do Sinduscon é o Programa Trilha (de carreiras). É uma inovação, a gente está criando uma carreira (para os empregados da construção). A gente quer oferecer um curso no Senai para esse funcionário a cada seis meses e ele ganha um certificado para estar apto a subir o degrau acima do que ele está nomomento. E com isso ele consegue ver qual é o horizonte profissional dele, quanto ganha um encarregado, quanto ganha um mestre (de obras), quanto ganha um montador de drywall, por exemplo Muito se fala hoje na questão da industrialização, com o uso de inteligência artificial, modernização e robotização. O senhor acha que é um investimento do qual não tem como fugir? Como analisa isso? No médio prazo sim, mas ninguém faz isso (a industrialização) sozinho. Quando você precisa fazer inovação, você também precisa que a indústria te forneça equipamento ou insumo num degrau acima. Você também precisa da mão de obra treinada para usar determinado equipamento ou aplicar aquele material diferente, caso contrário será somente desperdício ou quebra de equipamento. Além disso, é necessária uma estrutura de produtividade fora do tapume, com infraestrutura, água, energia, esgoto que é o pênalti no Brasil urbano de hoje e você não tem isso. É necessário agilidade também do poder público. Então, o ganho de produtividade não é uma coisa que você faça isoladamente, é um conjunto de agentes que conseguem fazer isso dentro e fora do canteiro (de obras) e é uma coisa lenta, não é algo que a gente consiga do dia para a noite. Durante uma palestra, o sr. usou o termo crescimento regionalizado no setor. O que significa isso significa na prática? Na prática, significa, que temos um crescimento e um nível de emprego em certas regiões do País, por exemplo no Nordeste, que você não observava há muito tempo. O que se fazia tradicionalmente? Antes, trazia-se o trabalhador de outras regiões – seja do Centro-oeste, do Sul, ou do Nordeste – para trabalhar em São Paulo. E hoje observamos que há emprego lá. Nordeste e Norte são as regiões campeãs em taxa de crescimento de empregos. O Sudeste cresce, mas a base (para calcular) do Sudeste é muito grande, pois só São Paulo tem 850 mil desses 3,6 milhões de trabalhadores. Então crescer 1% sobre 800 mil é mais difícil do que crescer 5% em cima de uma base menor. Mas a gente está enxergando isso: que há um dinamismo mais espalhado do que concentrado, como era antigamente. Quais os principais fatores limitantes hoje que o senhor vê para o crescimento na construção civil na Região Sudeste? Escassez de mão-de-obra é um fator, os custos de financiamento são outro ponto importante (a considerar), porque o crédito é caro. Há escassez de crédito e mais uma série de outros fatores limitantes, como mercado segurador. O cliente hoje quer seguro performance, e é muito travado o mercado seguro do Brasil. Outro fator que complica é a legislação brasileira, as aprovações são dificílimas, pois a burocracia complica, isso gera insegurança jurídica, que é enorme no Brasil hoje. Na verdade, é de se espantar o que o setor consegue fazer no Brasil. Apesar de todo o cenário ruim, continuamos produzindo com qualidade. A resiliência do setor é muito grande. O senhor acha que o setor vai continuar resiliente no ano que vem? Está otimista? O setor continuará resiliente. Eu sou realista, pois já passamos por diversas crises. Isso não quer dizer que todos irão sobreviver, mas sempre aparecem outros. A construção continua tendo o seu papel.